Villamir Rodríguez, o sobrevivente das execuções militares na Colômbia que simulou a própria morte

Camponês colombiano Villamir Rodríguez, baleado à queima-roupa por soldados em 2007, mostra a cicatriz deixada em seu braço, em Ocaña, Colômbia (AFP/Schneyder MENDOZA) (Schneyder MENDOZA)

Em 2007, os soldados atiraram à queima-roupa em Villamir Rodríguez. Queriam fazê-lo passar por guerrilheiro, mas, ferido no braço, fingiu-se de morto e conseguiu escapar. Ele foi o único camponês que sobreviveu ao derramamento de sangue dos militares na região colombiana de Catatumbo.

Com 17 anos na época, Rodríguez caminhava sozinho por uma área rural de El Tarra, nessa região fronteiriça com a Venezuela, antes de trombar com as tropas que o detiveram por algumas horas. Já era noite quando dois soldados descarregaram seus fuzis. Ele caiu com dois tiros no braço direito.

"Eles me deixaram lá [acreditando que eu estava] morto, mas não perdi a consciência, ouvi tudo", lembra à AFP o homem de 32 anos.

Rodríguez ouviu precisamente quando deram um aviso pelo rádio: "tivemos um confronto com a Frente 33 das FARC, precisamos (...) do helicóptero'" para recolher o corpo. Segurando a respiração para não se entregar, viu os militares se aproximarem e colocarem uma pistola ao lado.

Aproveitou um descuido para deslizar na lama: "Acredito que para eles o pior foi quando não encontraram o morto, porque já haviam me registrado como morto em combate".

A Jurisdição Especial para a Paz (JEP) apresentou seu caso em duas audiências nas quais, pela primeira vez, dez militares aposentados admitiram e pediram perdão pelas execuções de 120 civis que apresentaram como rebeldes mortos em combate entre 2007 e 2008.

Segundo o tribunal, que surgiu do acordo de paz de 2016 com a extinta guerrilha das FARC, as tropas oficiais cometeram ao menos 6.402 assassinatos em todo o país entre 2002 e 2008 para aumentar seus resultados na luta conta a guerrilha, no escândalo dos chamados "falsos positivos".

As vítimas eram em sua maioria camponeses e desempregados de Catatumbo ou cidades distantes.

Após a fuga, Rodríguez soube que a justiça o procurava por supostamente fazer parte dos rebeldes que atuam na região coca há décadas.

"Preparei alguns documentos falsos" que os acusavam, reconheceu Rivera, chefe da inteligência do Exército no 15º Batalhão de Infantaria, de onde, segundo o JEP, foi planejada a caça contra civis.

Caso não tivesse fugido, Villamir Rodríguez com certeza teria ido para o cemitério rural Las Liscas, próximo ao 15º Batalhão de Infantaria de Ocaña.

Rodrigo Coronel, proprietário do terreno que cedeu para enterrar os mortos na região, lembra que pelo menos 18 "falsos positivos" foram enterrados em valas comuns.

Segundo relataram aos juízes, os soldados chegaram a competir sobre quem dava mais baixas em combate e as unidades militares com "menos resultados" eram questionadas pelos superiores.

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