Vinhos de Portugal 2021: dominante na Península de Setúbal, a uva Castelão está de volta

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Apesar de ser a casta tinta dominante na Península de Setúbal, os produtores tentaram, nas últimas décadas, tirar protagonismo da Castelão. Mas, num mundo cansado de vinhos pesados e fotocópias uns dos outros, começam a entender que a casta que noutros tempos se chamava Periquita é, quando bem trabalhada, um benefício para a região e para Portugal. Ainda bem.

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Se retirarmos França, Itália e, em parte, Portugal, na generalidade dos países produtores, o vinho é, hoje, gerido ao sabor das modas, sujeito a tendências e a necessidade de surpreender consumidores, sempre ávidos por novidades.

Quando, a partir dos anos 90, Robert Parker criou a nova liturgia do vinho — muita estrutura, fruta concentrada, cor, muito álcool e aroma de carvalho —, o setor correu loucamente atrás dos pontos Parker, e tudo o que ficasse acima de 94 em cem pontos possíveis seria sucesso de vendas. Se para isso fosse necessário eliminar castas nacionais e regionais e plantar castas estrangeiras, tanto melhor. Em simultâneo, as cadeias de distribuição de EUA, Inglaterra e de alguns mercados do norte da Europa (os que alimentam o negócio) encheram-se de vinhos feitos a partir de meia dúzia de castas plantadas no chamado Novo Mundo do Vinho (Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Argentina e Chile), onde os níveis de produtividade provocavam arrepios aos produtores do Velho Mundo.

É nesta conjuntura que os portugueses de regiões mais produtivas (Lisboa, Tejo, Alentejo e Península de Setúbal) decidem substituir as castas regionais pelas nacionais e estrangeiras, aptas para a produção de vinhos “parkerizados”. Entre outras vítimas, chegamos à Castelão, a casta tinta mais importante na Península de Setúbal. Segundo Antero Martins, referência mundial na genética da vinha, ela resulta do cruzamento entre a casta portuguesa Alfrocheiro e a espanhola Cayetana.

Não se pode dizer que a Castelão foi abandonada, uma vez que entre 5.275 hectares com uvas tintas na região existem 3.255 hectares com essa casta. O que aconteceu foi que a chegada de outras castas retirou o protagonismo da Castelão, visto que qualquer produtor prefere destacar no rótulo coisas como Syrah, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon ou até Pinot Noir. Em rigor, a Castelão continua a ser determinante para a base dos vinhos de lote da Península de Setúbal.

À semelhança do que acontece com outras castas, a Castelão, que também é conhecida como João Santarém (no Tejo) ou Trincadeira (Bairrada), é uma dançarina no território português, mas com uma característica peculiar: durante décadas, na região da Península de Setúbal, era conhecida e registrada nos rótulos como Periquita. Era esse o nome da quinta — a Cova da Periquita, na Serra da Arrábida — onde a casta teria sido instalada, em meados do século XIX, por José Maria da Fonseca.

Naquele tempo, o batismo das castas não tinha regras. Se um agricultor com algum peso social na região quisesse homenagear um amigo ou familiar, poderia muito bem atribuir o nome destes a uma casta e não se falava mais no assunto. O mundo está cheio de exemplos destes.

Ora, na Península de Setúbal, como o vinho que saía da Cova da Periquita ganhou fama, os agricultores da região começaram a pedir material vegetativo da nova casta para reprodução nas suas vinhas. Que nome haveria de ter? Periquita. E, assim, de meados do século XIX ao final do século XX, não havia Castelão na Península de Setúbal. Só Periquita.

Por ser dona da marca Periquita, e por esta ser determinante na vida financeira da empresa, a José Maria da Fonseca, no início dos anos 90, iniciou um processo administrativo para impedir o uso do nome Periquita nos rótulos das garrafas dos outros produtores da região. Desde então, a casta passou a se chamar Castelão. E é assim conhecida na Península de Setúbal, no Tejo e em Lisboa.

É preciso respeitar a casta. O que é interessante observar é que, nos últimos anos, os produtores entenderam que a Castelão, quando bem trabalhada na vinha e na adega, é um diferencial no portfólio, tanto mais que, aos poucos, os consumidores começam a entender que um bom vinho não tem necessariamente que ter muita cor, muita extração e muito álcool. Assim, as uvas da casta Castelão são perfeitas porque, quando o enólogo decide respeitá-las, dando-lhes tratamento simples (sem uso de tecnologias de frio, extrações longas ou barricas novas com aroma de baunilha), sentimos vinhos que aromaticamente são uma espécie de pingue-pongue entre frutas vermelhas (do morango à groselha) e notas defumadas. Sensações estas que voltamos a recuperar na boca, na mistura com notas vegetais que dão elegância e frescor ao conjunto. Podemos mesmo afirmar que um consumidor de vinhos com algum treino de prova facilmente detecta um tinto Castelão em prova cega, desde que o enólogo não se tenha feito em alquimista e trabalhado a casta como se fosse Syrah ou outra coisa qualquer.

Na José Maria da Fonseca, a marca Periquita apresenta-se em três variantes: Periquita Reserva, Superior e Clássico, sendo que só esta última é 100% varietal. Como Domingos Soares Franco, administrador e responsável pela enologia da José Maria da Fonseca, tem muito respeito pela casta e pela memória das cinco gerações que o antecederam, o Periquita Clássico só é lançado em anos que permitem realçar a pureza da Castelão.

De resto, é por causa dessa teimosia do enólogo que, hoje, podemos provar exemplares de Periquita Clássico com décadas e testemunhar a capacidade de evolução do vinho. Responsável pela feitura dos Pegos Claros (outro ícone de Castelão), Bernardo Cabral nunca se cansa de elogiar a casta. “Se, no limite, eu tivesse que escolher uma única casta tinta para plantar em Portugal, não pensaria duas vezes: era Castelão. Por quê? Porque dá vinhos fabulosos e diferentes; nos solos certos e com os devidos cuidados na adega, é amiga do produtor, resistente a doenças e escaldões. O que mais posso pedir?”.

Se não há uma campanha de promoção da Castelão, a verdade é que, no mercado, existem uns 30 tintos feitos em exclusivo com a casta. Serão todos eles bons exemplares? Não. Há ainda quem não tenha entendido que demasiada extração ou demasiada barrica escondem as virtudes da Castelão. Mas, como em tudo na vida, o tempo vai se encarregar de corrigir esses erros. Já esteve mais longe o dia em que entraremos num restaurante para, na companhia de uma carne grelhada, de uma massa ou de umas sardinhas, pedir um tinto Castelão feito com o devido respeito.

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O Vinhos de Portugal é realizado pelos jornais O Globo, Público e Valor Econômico em parceria com a Viniportugal, com a participação do IVDP, Instituto do Vinho do Douro e do Porto, apoio da Comissão Vitivinícola do Alentejo e da Comissão Vitivinícola de Setúbal, restaurante oficial Bairro do Avillez, projeto da Out of Paper.

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