Vinhos de Portugal 2021: país está em plena ebulição na exploração de suas castas

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Quase mais um ano de confinamento e eu ainda consigo achar algo de positivo. A ausência das paisagens, dos contatos, dos amigos e dos vinhos e comidas, que eram tão frequentes nas diversas viagens anuais a Portugal, acabaram por me fazer mais “português”. Como este das viagens, outros hábitos dados como certos precisaram ser revistos, pensados para um novo estilo de vida.

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Saí à rua raras vezes, mas que prazer em ver os ipês e resedás floridos, sentir a lambida morna do sol na pele, escutar de novo meus próprios passos na calçada. Estou antecipando o que será sentir de novo os aromas de Lisboa, do Porto, de Évora... num reencontro tão esperado que quase se torna lendário.

E, com isto, as garrafas deixaram de ser apenas uma tarefa a ser cumprida, provada, avaliada e anotada. Viraram aquela “garrafa lançada ao mar” com um recado dentro. Só elas puderam cruzar o Atlântico neste período de separação, e sua abertura aqui era liberadora de aromas além do vinho: eram mensagem líquida e traziam um ar de Portugal embutido.

Em homenagem às mãos que fizeram os vinhos (sempre pensei, quanto mais antiga a safra, mais gente e tantos fatos passaram entre a colheita das uvas e o modo às vezes blasé com que servia na taça aquele trabalho coletivo), desta vez com o extra de terem continuado a ser feitos, as uvas foram colhidas, prensadas, fermentadas, os enólogos (e o cada vez maior número de enólogas, como destaca esta edição) atuaram, houve o engarrafamento. Depois, centenas de mãos enviaram estas garrafas por caminhos que nem imagino, do voo até, finalmente, o portador, o carteiro, o entregador, deixá-la na minha casa.

Fiquei sentimental, pois nunca pensara o vinho de forma tão “heroica” com todos os cuidados que foram prescritos, mas mesmo assim, arriscou-se para que não deixasse de haver vinho português na nossa mesa.

Lembrei, e me permito um aparte fora da região, de Serge Musar, o grande produtor do Château Musar, vinho libanês sublime, que foi galardonado como primeiro “Man of the Year” da revista inglesa Decanter, justamente por ter, sob balas, em plena guerra do Líbano, mantido as safras anuais como seu modo de sobrevivência, claro, mas como um exemplo de tenacidade e resistência. O vinho, este agente de alegria e prazer, básico no nosso “jardim de Epicuro”, em que podemos construir pequenas ilhas e momentos de felicidade em meio à pior das tragédias.

Prestei atenção redobrada ao que bebia, ia estudar no Atlas Mundial do Vinho de Jancis Robinson cada região portuguesa, pensei que era minha forma de homenagear o labor alheio e anônimo que me dava aqueles líquidos.

Voltei a estudar os vinhos de Portugal de que achava saber quase tudo, que bela empáfia e vaidade. Não sabia nada.

E os vídeos, as entrevistas por internet, as reuniões via zoom, como humanizaram os produtores. Nós aqui e eles lá nas suas casas, informalmente, com a interrupção engraçada de uma criança que entrava na sala ou o gato que subia ao teclado do computador. Tive diversos privilégios, como ser chamado para comemorar as 40 vindimas de Luís Pato. Seria lá e eu “roubaria” garrafas escolhidas na sua adega fechada. Por um estratagema, escolhi aqui, roubo teleguiado, e a cada semana, durante cinco seguidas, tínhamos uma “live” falando daqueles vinhos históricos. Foi um belo momento, emocionante e de alta qualidade, aula e festa. Sempre digo às pessoas que não são do meio do vinho: um enólogo faz uma vindima por ano. Quarenta é um espanto e uma celebração.

Numa “Sala de Pandora”, inventiva criação da Fernanda Fonseca, com Dirk Niepoort, sem querer saiu o assunto dos chás. Eis que me ouço surpreso dizendo: “minha bebida não alcoólica predileta” e ele, com quem não tenho intimidade de rir e dizer: “minha também”. E daí passamos a falar de chás, da Camellia sinensis no Douro e, outra vez, pelas mágicas dos transportes que não param, bebi meu primeiro chá de flores de camélia e português!

Como Portugal não para de mudar, naquela obsoleta classificação entre velho e novo mundo, o país seria do velho, pois europeu. Mas poucos lugares estão em tamanha ebulição na exploração de suas castas autóctones, na expansão para cada cantinho. Nunca deixa de haver novidades, sejam os vinhos de Colares (novidade para mim) sejam os vinhos da denominação Pico nos Açores, em solos vulcânicos. O entusiasmo vitivinícola de Portugal é de um jovem país como o Chile, com a dianteira de ter tamanho patrimônio de castas e jovens produtores (e volto a frisar, enólogas, que vão mudando a face do país).

Não há choque, os clássicos respeitados continuam consumidos, são antes de tudo aprendizado, modelos. Os novos chegam para reverenciar os antigos e não desprezá-los.

Não foi nada fácil ficar sem viajar tanto tempo, mas o aprendizado de olhar com mais cuidado e carinho os vinhos ficou. Não me esquecerei deste período de introspecção, em cada taça bebida o valor da saúde, a graça gigantesca que é a liberdade de se deslocar, o valor supremo da liberdade. Tudo que dávamos por corriqueiro e banal, garantidos no nosso cotidiano, foi repensado. Celebro neste texto todos que fizeram vinhos, em especial em Portugal, para onde irei logo que possa. Saúde a todos, aproveitemos o tempo presente.

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O Vinhos de Portugal é realizado pelos jornais O Globo, Público e Valor Econômico em parceria com a Viniportugal, com a participação do IVDP, Instituto do Vinho do Douro e do Porto, apoio da Comissão Vitivinícola do Alentejo e da Comissão Vitivinícola de Setúbal, restaurante oficial Bairro do Avillez, rádio oficial CBN, projeto da Out of Paper.

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