Violência em salas de aula cresce, e falta de ações pedagógicas levam pais a optar por tirar filhos de escolas

Zoé, de 14 anos, não conseguiu se enturmar no seu primeiro ano escolar em São Paulo, em um colégio privado na Lapa. No dia da apuração das últimas eleições, o isolamento na escola se transformou em bullying, que escalou para agressões verbais e até ameaças de estupro.

Para especialistas, a gravidade de atos de violência física ou psicológica entre colegas dentro ou fora do ambiente escolar e a resposta da instituição para o problema vão determinar o momento em que a retirada da criança do colégio é a melhor alternativa.

— Eram agressões horrorosas que eles publicaram repetidas vezes contra a minha filha e que a marcaram muito — conta Karla Pessoa, mãe de Zoé. — Uma coisa desse tipo, infelizmente, pode acontecer em qualquer lugar. Mas a passividade da escola me fez decidir por tirá-la de lá. Chegaram a dizer que iriam estuprar a minha filha na escola, e a direção nada fez.

Os dois anos de alunos confinados na pandemia, o que prejudicou muito a saúde mental dos adolescentes, e a polarização política vivida no país aumentaram os incidentes entre jovens, que chegaram ao ápice na reta final da gestão Bolsonaro. Foi assim para a própria filha do presidente, Laura, de 11 anos, que terminou este ano letivo deixando o Colégio Militar, em Brasília, após ter sido ofendida por um colega.

— Se a vítima estiver sofrendo muito e a escola não tomar uma atitude, é hora de sair — defende Marilu Carvalho Dantas, pesquisadora do Núcleo de Cultura, Gênero e Sexualidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Desde o dia dos ataques, Zoé não pisou mais na escola, e o ano letivo foi concluído remotamente. A antiga escola ainda insistiu na volta da estudante, mas a mãe afirma que não confia mais na capacidade de a instituição garantir a segurança da menina.

— A escola só foi conversar com a gente, depois de uma semana, porque pedimos. Se não fosse isso, teria passado despercebido. Ainda trataram a questão como “coisa de adolescentes” — diz o pai de Zoé, Paulo Almeida, de 50 anos.

Procurada, a escola — que até o momento não foi acionada judicialmente — argumenta que o caso não aconteceu dentro da instituição, chamou os envolvidos para um pedido de desculpas e realizou atividades pedagógicas para tratar de bullying entre jovens.

Método desenvolvido

Líder de um grupo de estudos da Unesp sobre convivência na escola e violência, Luciene Tognetta explica que o desfecho de um caso de bullying, se não é resolutivo, pode deixar marcas graves. Ela diz que a vítima, mesmo quando deixa o ambiente hostil, vai fragilizada para a nova escola, e o agressor, que não foi tratado com limites, passa a achar que pode tudo. Já a escola, diz a especialista, falha miseravelmente em sua função de formar cidadãos melhores.

Luciene explica que o método para lidar com casos graves de bullying é a preocupação compartilhada. O ponto de partida é a escola entender plenamente o que aconteceu. A partir daí, segundo a especialista, há um protocolo de ações, que vai do afastamento proposital dos indivíduos envolvidos no problema ao uso de técnicas de questionamentos que os levem a uma reflexão sobre o atrito.

— As perguntas levam o agressor a entender o problema que causou e a pensar nas formas de reparação que pode oferecer. Ao mesmo tempo, tentam provocar um empoderamento da vítima para que ela se sinta à vontade para pedir ajuda, para se indignar e entender também que não é normal aquilo ter acontecido com ela — enumera a especialista. — Mas quantas escolas do país dispõem disso? Não temos políticas públicas que deem conta de garantir a formação de professores e programas de convivência focados na prevenção dentro de escolas.

O tema é uma preocupação mundial, na medida em que já há consenso entre pesquisadores de que o bullying é um importante gatilho para o suicídio juvenil. No final de dezembro, uma análise nos EUA, publicada pela National Bureau of Economic Research, mostrou que o número de suicídios entre jovens é mais alto durante os meses letivos. Segundo o estudo, essas taxas desabaram com o fechamento de escolas na pandemia e voltaram a subir quando houve a reabertura.

Por isso, muitos países têm buscado soluções. O modelo finlandês, por exemplo, faz tanto sucesso desde 2009 que já foi exportado para 20 países europeus e alguns latino-americanos, como Colômbia e Peru. Além de trabalhar com as vítimas e os autores do bullying, também atua com as testemunhas, já que o silêncio ou as risadas de quem observa potencializam os agressores.

Outro exemplo bem-sucedido é o canadense, que criou uma série de materiais para orientar escolas, professores, pais e alunos sobre como lidar com casos de bullying. Isso inclui, por exemplo, um número de telefone para pedir ajuda; sugestão de atividades para crianças e adolescentes; e vídeos de curta duração sobre o fenômeno. Eles estão disponíveis em www.prevnet.ca.

‘Ensinem seus filhos’

Com apenas 8 anos, Paula teve que aprender sozinha como pedir ajuda. A menina contou para a mãe que, na sua escola, na cidade de Marituba, no Pará, era frequentemente alvo de racismo por parte das colegas.

— Minha filha chegava triste, chorando, porque as amiguinhas diziam que ela e o cabelo dela eram feios e que ela fedia. Isso tudo me deixou muito abatida. Fizemos o possível para que isso parasse, mas nada foi resolvido. Tento ensiná-la a se defender, mas ela ainda é uma criança — desabafa Karla Nascimento, de 29 anos. — Isso que ela viveu é um bullying que encobre racismo.

Karla conta que a escola teve conversas com os envolvidos, mas sem sucesso. Com a quebra de confiança, ela resolveu tirar a filha da escola. Num desabafo numa rede social, publicou uma foto da filha chorando e extravasou: “Como toda criança preta, minha filha, tão nova, tem que se fazer forte, crescer sabendo se defender. Isso não é justo. Que Brasil é esse onde crianças brancas se acham no direito de machucar as pretas? Ensinem seus filhos para que a minha ou as outras crianças não sofram mais”.

Estrutural

Na avaliação de Marilu Dantas, da UFBA, o estudante que pratica bullying está reproduzindo uma estrutura de poder na sociedade:

— A escola tem obrigação de tratar do bullying problematizando a estrutura. Não é só culpar o agressor e consolar o agredido.

Para Josiane Siqueira Mendes, advogada parceira do escritório Covac, a escola é responsável pelo que acontece dentro das suas dependências e pode responder judicialmente em casos desse tipo.

— Ela precisa ser proativa, fazer uma reunião na escola ouvindo as partes envolvidas e com funcionários que devem ser preparados para tentar restabelecer as relações — diz.