Violência no futebol não pode ser combatida apenas com indignação e soluções mágicas

A imagem é aterrorizante. Por trás de Cássio, que saía de campo alheio ao perigo, um torcedor do Santos vai crescendo na direção da câmera, o olhar vidrado, babando de ódio, preparando uma agressão que não aconteceu por um triz. Na mesma noite, o ônibus do Atlético-MG entrou para a lista dos que foram atingidos nesta temporada. As fotos mostram uma janela quebrada e outros danos. Mais uma vez, foi por mero acaso que não houve feridos com gravidade.

Não é mais chocante nem mais relevante quando a agressão chega perto dos jogadores — ver os bandos organizados de torcedores do Flamengo que romperam as barreiras armadas pela polícia em torno do Maracanã para entrar sem pagar, danificando o estádio e ameaçando a integridade física dos funcionários, foi igualmente assustador. Mas é impossível escapar da sensação de que quem cuida da segurança dos jogos de futebol no Brasil está em franca desvantagem, acuado a ponto de mal conseguir garantir a integridade de quem ocupa o espaço mais restrito — algo como um show em que a banda sobe ao palco sem saber como vai sair.

Há dois fenômenos paralelos em pleno andamento nesta temporada, a primeira sem restrições desde que começou a pandemia de Covid-19: o público está voltando aos estádios (a média no Brasileiro está prestes a atingir a de 2019, mesmo com muitos clubes de grande torcida na Série B); e os episódios de violência — física e moral — estão se multiplicando. A sensação que se tem é de que não passa um dia de jogos sem uma intercorrência. Numa passada rápida pela home do ge, leio que nas últimas 24 horas um torcedor do Londrina jogou água num árbitro e outro, do Criciúma, foi acusado de injúrias racistas.

Tem que punir! É a expressão que mais ouço, mas fico sempre com a sensação de incompletude. Punir como? O atentado ao ônibus do Bahia, com artefatos explosivos, caiu no item “lesões corporais leves” do código penal. Cássio sequer registrou queixa contra seu quase agressor, e outro invasor do gramado entrou no camburão mandando um alô para as redes sociais — nas quais foi saudado como um “mlk mto comédia”. E punir quem? Enquanto as penas para os infratores são leves, os clubes se escondem atrás da justificativa de que se forem punidos são os outros milhares de torcedores pacíficos que vão sofrer.

Comentários indignados já se mostraram insuficientes para levar a ações concretas. E raciocínios generalistas como o de Luiz Castro, técnico do Botafogo, que acusou a imprensa de inflamar os ânimos antes das partidas para depois, de forma hipócrita, condenar a violência, nada acrescentam ao debate (a imprensa não é um bloco unitário e a violência é muito mais organizada do que espontânea).

Não se combate um problema complexo como o da violência nos estádios apontando o dedo para um único culpado ou propondo soluções mágicas. Torcida única? Tirar pontos do clube? Nada funciona sozinho. O Estatuto do Torcedor precisa de uma reforma urgente, amparada por um debate amplo que envolva autoridades, dirigentes, jogadores, torcedores e jornalistas. Não podemos nos manter separados enquanto o único setor que se organiza no futebol brasileiro é o crime.

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