Violência na RDC provoca mais de um milhão de deslocados em seis meses

Vista aérea do campo de deslocados internos de Kalinga, que acolhe mais de 8.600 pessoas, em 15 de janeiro de 2020, na região de Masisi, na República Democrática do Congo

Mais de um milhão de pessoas tiveram de fugir de suas casas pela violência no leste da República Democrática do Congo (RDC) nos últimos seis meses - afirmou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), nesta terça-feira (30).

Em um comunicado, o ACNUR disse estar "alarmado" pelo crescente número de ataques violentos cometidos por grupos armados contra civis deslocados no leste da RDC.

Esta agência da ONU para os refugiados pede que se reforce a presença da polícia e das Forças Armadas com o apoio da Missão das Nações Unidas na RDC (Monusco) "para melhorar a segurança e levar os responsáveis à Justiça".

Nos últimos dois meses, o ACNUR e seus sócios registraram inúmeros ataques de grupos armados em lugares e localidades que abrigam os deslocados.

Estes ataques acontecem, principalmente, no território de Djugu, na província de Ituri; nos territórios de Fizi e de Mwenga, na província do Sul-Kivu; assim como nos territórios de Masisi e de Rutshuru, na província Norte-Kivu.

Segundo este órgão das Nações Unidas, nos últimos seis meses, a violência deslocou mais de um milhão de pessoas nesta região.

"A população deslocada sofre ataques de represália dos grupos armados por seu suposto apoio aos militares", explica o comunicado.

O ACNUR recebe testemunhos sobre massacres, mutilações, violência sexual e saques cometidos por estes grupos.

Durante um ataque em 17 e 18 de junho no território de Djugu, duas crianças, dois homens e uma mulher foram brutalmente assassinados, e mais de 150 casas, destruídas, por grupos armados em duas localidades que acolhiam os deslocados.

Estes novos fluxos populacionais vêm a agravar as pressões sobre estas zonas de acolhida de deslocados internos, que sequer têm acesso aos serviços essenciais, adverte o ACNUR.

Até o momento, o Alto Comissariado recebeu apenas 21% dos US$ 168 milhões necessários para sua operação na RDC.

As mulheres e as jovens são as mais vulneráveis. Apenas em maio foram registrados mais de 390 casos de violência sexual nas províncias de Ituri, Norte e Sul-Kivu.

A maioria dos abusos é atribuída aos grupos armados, mas muitos parecem terem sido cometidos também pelas forças de segurança congolesas.

Em um comunicado divulgado no início deste mês, a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, advertiu que episódios envolvendo massacres e outros excessos e violações no país podem constituir crimes contra a humanidade, ou crimes de guerra.

"Estou chocada com o aumento de ataques brutais contra civis inocentes por grupos armados e pela reação dos militares e da polícia que também cometeram violações graves, incluindo assassinatos e violência sexual", disse Bachelet, citada no comunicado.

"Eles não são apenas atos condenáveis, mas também quebram a confiança entre a população e as autoridades civis e militares", acrescentou.