Viola está aposentado? "Por enquanto..."

Aposentado? Aos 49 anos, Viola não descarta voltar aos gramados brasileiros. (Gazeta Press)

Sandro Biaggi, especial para o Yahoo Esportes

A pessoa da imprensa que telefonar para Viola em busca de entrevista, corre o sério risco de ouvir do próprio Viola que não é Viola quem está falando. É o primo dele. Ou irmão. Isso apesar da voz ser igualzinha.

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O segredo é perguntar por Paulo Sergio Rosa, o nome de batismo de um dos maiores atacantes brasileiros dos últimos 30 anos e um dos jogadores de maior irreverência da história do futebol nacional.

“É o Paulo Sergio”, ele confirma, desavisado.

É a senha para se identificar como jornalista. Sem alternativa, Viola aceita conversar sobre uma carreira que durou 28 anos e que lhe deu títulos estadual, brasileiro e mundial com a seleção brasileira de 1994.

Durou? Aos 49 anos, ele diz que está parado “por enquanto”. Nunca se sabe…

Yahoo Esportes: Seu último time foi o Taboão da Serra, da quarta divisão do Paulista, em 2006. O interminável Viola parou?
Viola: Acho que sim, mas eu nunca descarto nada. Minha forma física é muito boa. Se aparecer uma proposta de um time em que a molecada corra e eu fique lá na área, metendo gols, aceito. Futebol sempre foi minha vida. Não levo muito tempo para estar em condições de jogo.

Mas isso apesar dos 49 anos?
Eu nunca fui de beber, de fumar, jamais usei drogas. Idade é um número.

Surpreender nunca foi um problema para você, aliás. Para quem fez o primeiro jogo e o primeiro gol como profissional aos 19 anos e deu um título para o Corinthians…
Era questão de ter personalidade. Passar o que passei, eu não poderia tremer. Alguns dias antes do jogo o (técnico do Corinthians) Jair Pereira veio falar comigo. Eu estava no Parque São Jorge fazendo um lanche. Ele veio, sentou do meu lado e perguntou se eu teria medo de jogar no domingo (a final do Campeonato Paulista de 1988, contra o Guarani). Respondi que nunca tive medo do nada. Ele me disse para manter segredo, mas que jogaria a final. Eu tinha certeza que faria o gol do título.

Certeza?
Claro. Você tem de acreditar em você mesmo. Pedi para o roupeiro me dar duas camisas e vesti ambas. Ninguém entendeu. Mas eu sabia que marcaria e que jogaria uma para a torcida. Foi o que aconteceu.

Aquilo foi uma fama instantânea e você não conseguiu jogar bem depois, não foi? Sentiu o peso dessa atenção toda depois de ter feito o gol do título do Corinthians?
Caí na farra. Saía todas as noites. Imagina… Nunca tive aquilo. Era boate, mulher toda noite. Só com o tempo você vai aprendendo que não pode abusar tanto porque sua carreira é no futebol. Mas você queria o quê? Moleque que cresceu na pobreza da Vila Brasilândia (zona norte de São Paulo), em que muitas vezes não tinha o que comer, quando recebe uma chance dessas, tem de aproveitar. Várias vezes aconteceu de minha mãe trazer pão velho para a gente fazer torrada e comer por vários dias. Tomava chá porque a gente pegava as plantas para fazer. Do dia para a noite, você tem dinheiro, fama, muita gente interessada em você. Mexe mesmo com a cabeça…

Aposentado? Aos 49 anos, Viola diz que está parado “por enquanto”. Nunca se sabe… (Gazeta Press)

Ter crescido na periferia te ajudou a não se deixar intimidar em campo?
Claro! Eu nunca tive medo de nada. Sempre olhei todo mundo no olho, de cabeça erguida, sem ter receio de encarara os outros de frente.

Você sempre foi artilheiro?
Quando joguei de atacante, sim. Mas nem sempre foi assim. Fui dispensado de Corinthians e Palmeiras porque disseram que eu era magrinho demais para ser centroavante. Me colocavam na meia e eu não sabia jogar ali. Foi o Zé Maria (ex-técnico da base do Corinthians) que acreditou em mim e me levou de volta para o Parque São Jorge depois que eu briguei com o treinador no meu time da várzea. Ele me ajudou demais.

Quando você estava no Corinthians, surgiu um boato de que era palmeirense. É verdade?
Não. Bobagem. Aconteceu que um jornal foi fazer matéria na minha casa logo quando estava começando e havia uma bandeira do Palmeiras pendurada. Mas era do meu irmão. Ele é fanático pelo Palmeiras. Minha mãe era corintiana, meu pai, santista. Joguei nas três equipes e fui artilheiro em todas.

Você ficou famoso por ter sido um dos jogadores mais irreverentes do futebol brasileiro, dado a ações de maketing…
Gostava de fazer coisas diferentes. Como quando percebi que chegaria atrasado ao treino do Palmeiras (em 1997) e aluguei um helicóptero. Ou quando cheguei no Santos pela segunda vez (em 2001), quando cheguei na Vila Belmiro de limousine. Sempre gostei de causar impacto. É bom. Futebol é alegria, é festa. Mesma coisa as coreografias nos gols.

Não se arrepende nem mesmo de ter imitado um porco pelo Corinthians (na final do Paulista de 1993) contra o Palmeiras? Quatro anos depois você foi para o Palestra.
Claro que não. Foi tão bom que está na história, lembram disso até hoje.

Você entrou em apenas uma partida da Copa de 1994. Justamente na final contra a Itália e na prorrogação. Lamenta não ter feito o gol?
De jeito nenhum. Posso dizer que fui campeão do mundo e coloquei fogo no jogo quando entrei. Dei um drible humilhante no Baresi. Encerrei a carreira dele.

E aquela história de que você não se adaptou à comida em Valencia e pediu para voltar ao Brasil? Ficou no folclore do futebol porque a comida espanhola é considerada excelente.
Não para mim. Não gostei de jeito nenhum e não conseguia comer. Ia jogar com fome porque comia bolachas apenas. Muita gente pode gostar da comida de lá. Eu não gosto.

A partir de 2005 quando saiu do Flamengo, começou a peregrinar por pequenos clubes. Não ficou com medo de manchar sua história no futebol?
Eu não me preocupo com isso. Eu queria estar bem comigo mesmo e jogar futebol. Se considerasse que a proposta era boa, por que me preocuparia com isso. Acho normal.

Faltou algum time?
Não. Fiz tudo o que quis fazer na carreira. Pô, fui ídolo de Corinthians e Flamengo, passei por Vasco, Palmeiras, Santos, ganhei título mundial com a seleção brasileira. Tive uma carreira completa e vitoriosa.

Existe algum atacante como o Viola hoje em dia na irreverência?
Não tem. Deveria ter. A brincadeira faz bem, é uma coisa que motiva as equipes e traz mais atenção para o futebol. Falta isso.

Voltando ao começo de tudo, aquele primeiro gol, contra o Guarani em 1988, foi o mais importante da sua carreira?
Foi o começo de tudo, mas não sei se é o preferido. Tenho orgulho dos gols que marquei. Todos foram difíceis. É muito difícil fazer um gol. Possui grandes recordações dos gols e dos títulos que conquistei.

E não vai conquistar mais?
Sei lá. Se de repente aparece algum presidente de time com uma proposta interessante… Ninguém esquece como se joga futebol.