Agressões mataram uma multidão de Henry em uma década no Brasil

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
A little boy and scary shadow of hand on a light background for a fear or kidnapping concept. Boy closed eyes with hands.
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A cada quase dois dias, uma criança de até quatro anos foi agredida até morrer no Brasil nos últimos dez anos.

Os números fazem parte de um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria divulgado na esteira da repercussão da morte do menino Henry Borel, de quatro anos. Ao todo, 2.083 crianças morreram espancadas em uma década.

Segundo a entidade, se forem contabilizadas crianças de até nove anos, o morticínio atinge 3.099 meninos e meninas. Praticamente uma vítima por dia. Nessa década, 29 jovens de até 19 anos morreram a cada 24 horas. Um massacre.

A maioria dos casos de agressão no país (83%) é praticada pelo pai ou pela mãe.

Os registros dos últimos dias do menino Henry, captados até pela câmera de vigilância de um elevador, ajudam a visualizar o que os números, empilhados, não mostram.

Tudo nessa história é assombroso. A começar pela rede de silêncio envolvendo os crimes atribuídos ao seu padrasto, o vereador Doutor Jairinho, figura obscura e discreta da política fluminense e que, ao que tudo indica, tinha prestígio o suficiente para embaralhar as investigações e se safar de uma possível punição. Não é todo mundo que tem o telefone do governador para acionar em caso de emergência. Nem moral para ligar ao Instituto Médico Legal e dizer como deve ser o trabalho dos peritos.

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Doutor Jairinho é a versão bem acabada dos vícios patrimonialistas de um país movido pelas redes de afinidade e poder. Ainda está para ser contada a história de como conseguiu um empregão para a namorada, mãe do garoto, em cargo público no Rio, com salário estimado em R$ 16 mil.

Parece um detalhe, mas não é. Aqui manda quem pode, obedece quem tem juízo. Inclusive a babá, orientada a mentir em seu depoimento. Quem, afinal, compraria briga com um representante do poder em uma época em que milicianos não têm receio de metralhar uma vereadora em pleno mandato numa via pública? Que diria o que capangas bem remunerados não fariam com os empregados sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e sem linha direta com os chefes da polícia?

Mesmo para os padrões de um país bestializado, que naturalizou e escolheu como liderança nacional um homem que dedica seu voto no impeachment a um torturador que agrediu uma mulher, é difícil assimilar por que uma mãe permite, sem reação, que o corpo do filho fosse convertido em território de todo tipo de torturas e suplícios praticados pelo homem rico que sequer conhecia há menos de um ano. Ou que faça selfies com o semblante da indiferença mecânica antes de prestar depoimento na delegacia. Ou que vá às compras antes do enterro de uma criança. A normalidade com que tentou seguir a vida após a morte do filho é um campo extenso para as investigações da natureza humana. Ela é, antes de tudo, banal, diria Hannah Arendt, em conceito surrado e batido para o Brasil dos últimos dias.

“É porque são monstros”, apontamos, como se tudo o que envolve a história daquele casal fosse passível de ser lançado para lá de uma risca de giz — lá, onde vivem as aberrações.

Os números da Sociedade Brasileira de Pediatria provam que o caso do menino Henry está longe de ser uma aberração —uma aberração no sentido de quebra da normalidade e do pacto do que é ou não aceitável. A violência contra crianças é o pacto. A regra.

Na pandemia, com o convívio forçado com crianças sem escola e muitas vezes sem acesso a equipamentos e espaços lúdicos, como playgrounds, muitos adultos revelaram estar no limite dessa monstruosidade. A ponto de um técnico de futebol pedir, em meados do ano passado, a retomada das transmissões esportivas para que os homens da casa tivessem alguma atividade com que se distrair em vez de bater nos filhos e nas companheiras.

Quando essa autorização velada provoca tragédias com registros, o senso comum pede para que as bestas sejam enjauladas e fiquem longe de nossa vista. Em muitos casos elas seguem no centro das melhores famílias.

Muitos pais descobriram só agora que, sim, criança amola, criança pede atenção, criança tem medo, criança pede para dormir com os pais durante a noite; que criança quebra, enfim, a rotina de uma vida anterior, em que um simples passeio no parque não envolvia tantos cuidados, apetrechos e interrupções.

Despreparados, muitos adultos descobriram de forma compulsória que ser pai e ser mãe vai um pouco além de gerar imagens para as redes sociais. E que crianças não são bichinhos que podem ser emprestados ou eliminados da bagagem dos planos para a vida adulta quando começam a pesar. É quando a violência passa a dianteira nas mediações.

A infância, no Brasil, é risco de vida. E essa vulnerabilidade parece ainda mais evidente quando um estudo recentemente divulgado associa as palmadas, recursos aparentemente banais de correção de comportamento, a distúrbios e traumas ao longo do desenvolvimento.

Mas não faltam sobreviventes para testemunhar sobre as propriedades educativas das surras com cinto de fivela aplicadas pelos pais na infância, sem direito a choro ou lamento. Para muitos, a ainda frágil rede de proteção a crianças e adolescentes —que tantos querem encarcerar — do país é apenas a consagração do melindre. O próprio presidente da República já manifestou o desejo de jogar a constituição dessa rede na latrina.

Em muitos casos, ver o que os defensores das palmadas e das surras corretivas se tornaram quando adultos —transtornados, paranoicos, violentos, alcoólatras, ressentidos — é mais um grito de alerta para reconhecer a criança como sujeito de direitos, que pode e deve ser ouvida, protegida das nossas monstruosidades, as escondidas e as escancaradas. Nem todo monstro tem a projeção de um vereador para dar a aura de escândalo a um crime que ajudamos a banalizar.