Violência nas escolas: retorno é marcado por 'pandemia emocional', diz professora

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Diversos casos de violência nas escolas têm surgido desde o retorno presencial. Foto: REUTERS/Carla Carniel.
Diversos casos de violência nas escolas têm surgido desde o retorno presencial. Foto: REUTERS/Carla Carniel.
  • Só nesta semana, ao menos quatro casos foram noticiados

  • Violência nas escolas é um problema antigo, diz pesquisadora

  • Para professora, é preciso fortalecer políticas públicas para melhorar o convívio escolar

Depois de quase dois anos em casa, por conta da pandemia de covid-19, em 2022 a maioria das crianças e adolescentes já retornou para a escola presencial. Junto com os jovens, voltou também um cenário preocupante: a violência dentro das escolas.

A professora Luciene Tognetta, do departamento de Psicologia da Educação da Unesp Araraquara e pesquisadora do tema convivência escolar, disse que, durante a pandemia, já se previa os problemas que poderiam aparecer. “A gente dizia, antes da volta às aulas: a escola vai explodir. E, infelizmente, é isso que está acontecendo.”

Só nesta semana, ao menos quatro casos vieram à tona. Na terça-feira (22), uma adolescente foi atacada por um colega dentro de uma escola particular em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. O agressor, de 12 anos, foi apreendido e levado para a Fundação Casa.

Também no DF, uma aluna de 14 anos foi esfaqueada por outro estudante dentro de uma escola em São Sebastião, nesta quarta-feira (23). Um estudante de 15 anos atacou a vítima com golpes nas costas e no braço esquerdo.A garota precisou ser socorrida e encaminhada ao Hospital Regional do Paranoá pelo Corpo de Bombeiros.

São Sebastião foi palco de outro caso. Na terça-feira (22), uma aluna teve um revólver apontado contra a cabeça no lado de fora da escola onde estuda. Imagens registradas por testemunhas mostram duas garotas com mochilas nas costas, aparentemente alunas, discutindo em frente ao Centro Educacional São Francisco, conhecido como CED Chicão.

Um dos casos mais assustadores, no entanto, aconteceu em Belo Horizonte. Um adolescente de 13 anos levou uma granada para a aula no colégio particular Santa Dorotéia, na última terça-feira. De acordo com o boletim de ocorrência, o garoto estuda no nono ano e levou o artefato para mostrar aos colegas. Ele foi encaminhado à coordenação e suspenso por três dias.

Segundo Luciene, a pandemia deixou marcas emocionais nas crianças e adolescentes.

“A pandemia foi um momento difícil para todo mundo, não somente para nós adultos”, pontua. “Crianças e adolescentes também sentem medo, tristeza, angústia e preocupação. E esses jovens foram submetidos a uma realidade completamente nova, à dor da perda, à dor da ausência, medo do futuro, a preocupação com o desemprego.”

O retorno às aulas, para a professora, veio marcado de uma “pandemia emocional”.

“Tudo contribuiu para que o cenário fosse ainda pior nesse retorno, porque as crianças, além de voltarem para um cenário de falta de trabalho dessas questões, elas voltam ainda com uma pandemia emocional, uma dificuldade exacerbada de responder assertivamente para um conflito.”

Luciene explica que, no entanto, o problema não é exclusivo do cenário atual, mas que é uma marca da educação no país.

“Este problema não é novo e vem de antes da pandemia”, afirma a professora. “Ele é o calcanhar de Aquiles das escolas, principalmente em países que não têm políticas públicas relacionadas a essa temática da convivência na escola. Países que não institucionalizam o tema, que não preparam os professores, não implementam propostas na própria grade curricular.”

Escolas são essenciais para o cuidado com os jovens

Para a pesquisadora, a pandemia escancarou a importância da vida escolar para a vida das crianças e adolescentes.

“Durante a pandemia, ficou nítido que a ausência da escola é um grande problema para a humanidade. E não só porque as crianças não se formam do ponto de vista cognitivo e acadêmico”, disse Luciene.

De acordo com a professora, a escola tem um papel social ainda maior.

“A gente tem visto números absurdos de problemas explodindo na escola. Durante a pandemia, esses números explodiam em boletins de ocorrência, com demandas como violência doméstica, agressão, feminicídios, violência contra crianças e adolescentes, esturpo, violência sexual e todo tipo de violência dentro das famílias”, disse. “Esses problemas aumentaram na pandemia, mas já existiam. O que tem de novidade é que os Conselhos Tutelares não recebiam essas demandas.”

Segundo ela, isso é um problema da própria escola.

“Quando acontece um problema, além da polícia, que é para prender e criar as primeiras possibilidades de defesa para quem está sendo vitimizado, quem aciona, quem organiza, quem cuida é o Conselho Tutelar, é o Cras, a Assistência Social”, pontua. “E esses meios são acionados pela escola. E isso mostra a responsabilidade da escola. Todos esses problemas [de violência] são problemas da escola, porque a escola é o lugar primeiro, do ponto de vista público, de proteção

“As mudanças para cuidar, para que essas violências não aconteçam, elas estão na escola”, concluiu.

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