Violento despejo na principal ocupação de terras na Argentina

Carlos REYES, Sonia AVALOS, Maria Lorente
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Polícia antimotim desaloja ocupantes de terras em Guernica, ao sul de Buenos Aires, em 29 de outubro de 2020
Polícia antimotim desaloja ocupantes de terras em Guernica, ao sul de Buenos Aires, em 29 de outubro de 2020

Centenas de pessoas, muitas de famílias sem-teto vivendo em barracas improvisadas, foram despejadas pela polícia em meio a violentos confrontos, de uma propriedade que ocupavam desde julho na principal ocupação de terras ocorrida durante a pandemia na Argentina. 

Cerca de 4.000 policiais entraram em cena na manhã desta quinta-feira e demoliram abrigos esquálidos feitos de paus e plástico que queimaram em fogueiras em meio a cenas de pânico e fúria. 

Os despejados resistiram com pedras, e a polícia os dispersou com tiros de balas de borracha e gases de efeito moral por várias horas. 

“Foi desesperador, gente chorando, crianças, idosos. Os policiais queimaram as casas, queimaram tudo, vieram de surpresa”, lamenta Aída Mabel, 35, cercada pela família.

Desde o final de julho, famílias sem-teto começaram a se instalar nesta área de cerca de 100 hectares no bairro de Guernica, na periferia sul de Buenos Aires, que já abrigou 2.500 famílias, embora muitas tenham concordado em sair.

Colunas de fogo e fumaça se misturam ao gás lacrimogêneo em meio a cenas de lágrimas e desespero dos ocupantes, a maioria deles famílias. Alguns fugiram, armados com escudos. 

As ruas da vizinhança serviram como barricadas improvisadas e ficaram repletas de projéteis após o despejo. 

O incêndio destruiu grande parte das moradias improvisadas e o restante foi demolido por escavadeiras policiais em meio a uma chuva de pedras, paus e garrafas dos despejados. 

“Eles queimaram tudo, quero minhas coisas de volta, estou com muita raiva, a polícia espancou a mim e ao meu marido”, disse AxiVillafuente, catadora de papelão de 24 anos. 

A ocupação da propriedade começou em desafio à justiça, mas também no pior momento da pandemia que causou mais de um milhão de infecções na Argentina e 30.000 mortes. 

“Isso é injusto, a única coisa que queríamos é uma casa, um terreno, não temos como pagar o aluguel, por isso estávamos aqui”, diz Agustín, 21 anos. 

Nos últimos anos, a grilagem de terras se multiplicou na Argentina, país em recessão desde 2018 e com 40,9% dos 44 milhões de habitantes vivendo na pobreza. 

Durante vários meses, o governo da província de Buenos Aires negociou com os ocupantes uma solução habitacional para dissuadi-los da ocupação, enquanto uma ONG de advogados entrou com um amparo para impedir o despejo que finalmente foi ordenado pela justiça. 

A polícia não informou o número de feridos, mas o promotor disse que pelo menos 35 pessoas foram presas.

bur-sa-ml/ltl/cc