Violentos confrontos entre forças turcas e curdas no norte da Síria

Rouba EL HUSSEINI
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Um comboio de tanques turcos perto de Akcakale, na fronteira com a Síria, em 11 de outubro

Combates violentos foram travados neste domingo (21) entre as Forças Democráticas Sírias (FDS), dominadas pelos curdos, e forças turcas apoiadas por aliados sírios perto de uma localidade estratégica no norte da Síria.

As forças turcas e seus aliados se posicionaram na província de Raqqa, no norte da Síria, desde uma ofensiva lançada por Ancara contra milícias curdas em outubro de 2019, que permitiu controlar uma área de fronteira de 120 km de largura.

Há confrontos esporádicos entre os dois lados desde o estabelecimento do frágil status quo.

O último começou na sexta-feira, de acordo com o OSDH, depois que as forças turcas e seus aliados sírios tentaram avançar em direção às aldeias de Al-Mouallak e Saida, a noroeste de Ain Issa, sob controle das FDS.

A escalada militar coincide com as celebrações do Nowruz, o Ano Novo curdo que, todo dia 21 de março, marca a chegada da primavera.

De acordo com o OSDH, as forças turcas e pró-Ancara lançaram seu ataque depois que as FDS terminaram uma operação de desminagem nas duas aldeias com o objetivo de liberar o retorno dos civis.

"A região de Ain Issa (...) é alvo de uma dura campanha liderada pela ocupação turca e seus mercenários", lamentou à AFP Kino Gabriel, porta-voz das FDS.

Os turcos e seus aliados "têm lançado tiros de artilharia desde a noite de sábado contra posições das FDS", informou o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahmane.

"As FDS conseguiram, até o momento, evitar o avanço das facções pró-Ancara", acrescentou, observando que os combatentes curdos estavam, por sua vez, alvejando posições das forças turcas.

Os confrontos acontecem em uma área onde estão posicionadas forças de Damasco e também forças russas, presentes desde a entrada em vigor em outubro de 2019 de um cessar-fogo negociado por Ancara com Moscou.

- Ataque aéreo -

Em novembro passado, 21 combatentes pró-Ancara morreram em uma "emboscada" quando tentavam se infiltrar em Al-Mouallak.

Sinal de uma tensão crescente, a Força Aérea turca realizou um ataque aéreo na área na noite de sábado, o primeiro desde a ofensiva de Ancara há quase um ano e meio, depois que as FDS destruíram um tanque turco, de acordo com o OSDH.

A milícia curda das Unidades de Proteção do Povo (YPG), parte integrante das FDS, é vista por Ancara como a extensão síria do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um grupo classificado como "terrorista" por Ancara e aliados ocidentais.

Mas essa milícia curda também esteve na linha de frente da luta armada contra o grupo Estado Islâmico (EI) na Síria, com o apoio da coalizão internacional anti-jihadista, cujo "califado" foi varrido do mapa há quase dois anos.

"Nossas forças retaliaram depois que terroristas do PKK/YPG abriram fogo contra nossas forças especiais", disse o ministério da Defesa turco neste domingo, embora os ataques aéreos tenham sido negados por fontes da segurança turca.

Para Kino Gabriel, "as FDS responderam às violações e tentativas de infiltração".

Ancara lidera desde 2016 três ofensivas militares no norte da Síria que lhe permitiram controlar um território de mais de 2.000 km2, em particular a região de Afrin, um dos cantões da autoproclamada região "federal" curda.

Além disso, pelo menos cinco civis morreram neste domingo em ataques do regime sírio que atingiram um hospital na cidade de Atareb, no noroeste da Síria, apesar do cessar-fogo em vigor na região, segundo o OSDH.

Em março de 2020, uma trégua precária entrou em vigor na província de Idlib, o último reduto jihadista e rebelde hostil a Damasco, após uma ofensiva de três meses que deslocou quase um milhão de pessoas mais ao norte, de acordo com a ONU.

O conflito na Síria, desencadeado em 2011 pela repressão aos protestos pró-democracia, cresceu em complexidade ao longo dos anos, envolvendo vários atores regionais e internacionais. A guerra deixou mais de 388.000 mortos e milhões de deslocados.

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