Visões diferentes de Deus são origem de cisão entre evangélicos conservadores e progressistas no Brasil, diz pastor Ed Kivitz

Mônica Vasconcelos - Da BBC News Brasil em Londres
·17 minuto de leitura
Igreja Batista de Água Branca
Com 56 anos, Kivitz é teólogo, escritor e pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo

É uma das passagens mais conhecidas da Bíblia. Mas contada pelo pastor batista Ed René Kivitz, com 31 anos de púlpito, a parábola da mulher flagrada em adultério soa atual e empolgante - uma história de apelo universal.

De um lado, os fariseus, doutores da lei, ciosos da aplicação da norma. Cometeu adultério? Deve ser apedrejada. De outro, Jesus, tentando ensinar aos homens o caminho da misericórdia e do amor.

Convidado a opinar, Jesus tinha de ser cuidadoso, explica Kivitz. "Se ele negasse o apedrejamento, seria acusado de ser um falso messias. Então, ele afirma. A lei manda apedrejar? Apedreje. Mas quem não tem pecado atire a primeira pedra."

Dois milênios mais tarde, a humanidade parece não ter perdido o impulso de apedrejar.

"O paralelo mais equivalente (ao apedrejamento) na cultura ocidental é o linchamento nas redes sociais e a chamada cultura do cancelamento", diz o pastor.

"Fui vítima disso, no meu próprio segmento religioso. Fui chamado de herege, de filho do diabo, de maldito."

A heresia cometida por ele?

"Fiz questionamentos no meu sermão sobre a importância de atualizarmos a Bíblia sagrada para o mundo contemporâneo. Isso foi suficiente para que as pessoas imaginassem que estou relativizando o valor da Bíblia e me condenassem."

Kivitz, de 56 anos, teólogo, escritor e pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, não é o único a sofrer esse tipo de assédio.

"Muitos pastores progressistas sofrem isso", diz.

"Claro que também recebi incontáveis manifestações de apoio. Para mim, isso é evidência de que existe hoje (no segmento evangélico) no Brasil uma cisão entre o que podemos chamar de um movimento conservador fundamentalista, que aderiu ao bolsonarismo, e um movimento progressista."

Até recentemente, o pastor mantinha um perfil discreto e se dizia contente em simplesmente pregar a palavra de Cristo em sua igreja, cujo auditório tem capacidade para 2 mil pessoas.

Agora, diz, não dá mais para ficar em silêncio.

Falando à BBC News Brasil, Kivitz se posiciona sobre várias questões polêmicas envolvendo o movimento evangélico no país.

Sobre cultos presenciais durante a pandemia, ele diz:

"Desde março, meus sermões são virtuais. O critério de decisão para comportamento de igrejas não é político, econômico nem religioso. É sanitário, é medicina, é ciência."

Sobre o caso da menina de dez anos que engravidou após ser estuprada e cujo aborto foi condenado por grupos religiosos: "A justificativa para submeter essa menina ao aborto é a proteção de sua vida."

Sobre a promessa, pelo presidente Bolsonaro, de um ministro "terrivelmente evangélico" para o STF e referências a "orações" no início de cada sessão, o pastor declara:

"Essa apropriação de Deus, do nome de Deus, e dos símbolos, da lógica da religião para legitimar um projeto de poder político é uma apropriação indevida, de índole totalitária. Que conspira contra uma sociedade plural, contra um Estado democrático de direito."

Finalmente, listando o que, para ele, são falhas sérias do governo atual — o descaso para com a vida no cuidado com a pandemia, o aumento da violência e o descaso com o patrimônio natural do país — Ed René Kivitz diz:

"O apoio de um líder religioso cristão evangélico ao bolsonarismo é imoral."

Essa reportagem é fruto de uma série de entrevistas concedidas por Kivitz à BBC News Brasil ao longo de quase um ano.

Ela tenta capturar as ideias de um pastor cuja mensagem contrasta com quase tudo o que comumente se fala sobre os evangélicos no Brasil.

E explora, sob a ótica de Kivitz, um verdadeiro embate travado hoje no seio do movimento evangélico no país. De um lado, ele diz, as vozes da misericórdia e da compaixão. De outro, as vozes do dogma e da norma.

Pastor Ed Kivitz na Igreja Batista de Água Branca
Pastor tem 31 anos de púlpito

Duas versões de Deus: o Deus amor e o Deus poder

Em suas entrevistas, o santista Ed René Kivitz tem falado em duas Igrejas e em duas versões de Deus ao longo da história: antes e depois do surgimento da figura de Jesus Cristo.

Entender melhor esses conceitos não interessa apenas a teólogos.

Essas duas versões de Deus estão no centro da disputa entre as chamadas alas conservadora e progressista da igreja evangélica. Em jogo está o título de verdadeiro porta-voz do Evangelho.

"Esse embate não é novo. Foi acirrado, mas existe desde sempre", explica Kivitz. E como ele propõe mais adiante, a briga tem profundas implicações políticas.

Mas primeiro, o que Kivitz quer dizer quando fala em duas versões de Deus?

"Existe uma grande mudança de paradigma a partir da chegada de Jesus", diz Kivitz.

"No Velho Testamento, Deus é percebido como um poder a ser temido. Ele lhe deu vida e exige que você preste contas e viva responsavelmente, sob pena de sofrer seu juízo. Deus pode tirar a sua vida, exterminar seu povo e fazer o que bem entender sem dar explicações porque ele é Deus. Então, tenha temor de Deus, viva no temor do Senhor."

"Já a fé cristã diz que Deus é amor. Deus não é um poder a ser temido, é um pai amoroso, com quem a gente se relaciona numa outra perspectiva."

Nesse ponto, Kivitz cita as ideias do teólogo católico François Varillon, para quem Deus não é um poder que ama mas, sim, um amor todo-poderoso.

"Deus não pode tudo, ele só pode o que o amor pode. E o máximo que o amor pode é sacrificar-se pelo objeto do seu amor", explica Kivitz. "Por isso, Jesus é um Deus que morre por amor. Porque Deus é amor."

"Você não precisa ter medo de Deus. Deus não está contra você."

"Julgamento, condenação, apedrejamento de pecadores e conceitos como homofobia, xenofobia, racismo, são incompatíveis com o caráter do Deus revelado por Jesus."

Segundo essa lógica, Cristo amaria os homossexuais? Cristo amaria a mulher que fez um aborto?

"Cristo ama todas as pessoas indistintamente e independentemente de sua condição existencial, do seu gênero e inclusive de suas transgressões, quaisquer que sejam elas", responde.

Vejamos, agora, como esses dois conceitos de Deus embasam o pensamento de Kivitz em relação ao aborto e à disciplina, temas que vêm gerando bastante controvérsia no Brasil nos últimos meses.

Igreja Batista de Água Branca
Para pastor, vozes da misericórdia travam embate com vozes do dogma no seio do movimento, com sérias implicações politicas

A norma religiosa, a misericórdia divina e o aborto

Recentemente, o caso de uma menina de dez anos que ficou grávida após sofrer quatro anos de estupros por um tio chocou a opinião pública no Brasil. Correndo perigo de vida, a menina foi submetida a um aborto por recomendação médica e com autorização judicial.

No entanto, o procedimento foi criticado por membros de grupos religiosos, entre eles, evangélicos. Reunidos na porta do hospital, manifestantes chamaram o médico de assassino e tentaram impedir a entrada da criança e de sua família no prédio. Entre os manifestantes estavam políticos da chamada bancada evangélica.

Kivitz classifica o episódio de vergonhoso e revoltante.

"O que foi feito com ela (a criança) foi uma crueldade, tanto o abuso que ela sofreu, que gerou sua gestação, quanto o julgamento e o linchamento moral do seu aborto."

"Esta é uma criança que deveria ser protegida em vez de se exigir dela uma conduta moral de perspectiva religiosa."

O pastor esclarece sua posição em relação ao aborto: "O aborto é pecado, ponto final".

Por outro lado, pondera, não praticar o aborto nessa menina significava expor a criança ao risco de morte.

"Os legalistas vão dizer, paciência. Afirmar o absoluto do dogma e da norma é mais importante."

"Mas aqueles que optam por um caminho de misericórdia vão dizer, não, vamos optar pela preservação da vida dessa menina."

Então, o aborto dessa menina era justificável, diz.

"A gravidez quando é resultante de um estupro, uma violência, não só contra uma menina, mas contra uma mulher em condição de gerar filhos, coloca uma mulher num sofrimento tal que não lhe é possível dar a resposta ideal à sua situação. Não é que ela não quer, não está a fim, não é o momento. Ela não tem condição emocional, psíquica, espiritual, diante da violência sofrida."

Nós não somos pessoas ideais vivendo em um mundo ideal, diz Kivitz.

"Portanto, não se pode exigir — sem se tornar cruel — perfectibilidade do ser humano. Por isso, Jesus não é um legislador e um juiz. Jesus é um compassivo, misericordioso, amoroso. Que compreende a angústia da condição humana."

Igreja Batista de Água Branca
'Essa apropriação de Deus, do nome de Deus, e dos símbolos, e da lógica da religião para legitimar um projeto de poder político é uma apropriação indevida, de índole totalitária', diz pastor

'Chicote' e 'dor' em prol da 'disciplina'

A noção de um Deus amoroso também fundamenta os argumentos de Kivitz ao refutar comentários de pastores evangélicos que defendem o uso do "chicote" e da "dor" como meios legítimos de se alcançar a "disciplina".

Entre esses pastores está o deputado Marco Feliciano (Podemos-SP). Em entrevista à BBC News Brasil no ano passado, Feliciano disse: "É cristão você pegar um chicote e espancar as pessoas? Jesus fez isso no momento oportuno, quando necessário. A disciplina, às vezes, é preciso vir".

A declaração é uma referência ao episódio narrado no Novo Testamento em que Jesus expulsou os vendilhões (comerciantes) do Templo de Jerusalém.

Kivitz discorda da interpretação que o deputado faz da passagem bíblica.

"O fato ao qual ele (Feliciano) se refere é Jesus expulsando vendilhões do templo. Jesus derruba as bancas onde estavam sendo comercializados os produtos."

"Jesus não chicoteou pessoas, o texto bíblico não diz isso."

"Se ele não condenou uma mulher sendo flagrada em adultério, não condenaria nem chicotearia aqueles que estavam fazendo da religião um comércio."

A agressão às pessoas nunca é a resposta cristã, diz.

"Não é admissível que o mesmo Jesus que nos ensinou a virar a outra face a quem nos agride tenha saído distribuindo tapas e chicotadas em pessoas."

Educação e disciplina 2 mil anos atrás

Kivitz vai além da esfera da religião quando se posiciona em relação a declarações do novo ministro da Educação de Jair Bolsonaro, o teólogo, advogado, professor e pastor da Igreja Presbiteriana Milton Ribeiro, defendendo o uso da dor na educação da criança.

Na ocasião da nomeação do ministro, em julho, a descoberta de um vídeo gravado em 2016 em que ele defende, durante um sermão, o uso da dor na educação da criança teve forte repercussão na mídia.

"Ninguém ensina a criança a ser egoísta, a morder o coleguinha. Isso está na natureza.

Só existe uma maneira. A vara da disciplina. (...)

A cura não vai ser obtida por meios justos e métodos suaves. Deve haver rigor, severidade. Deve sentir dor", disse Ribeiro à sua congregação.

Kivitz comenta que as referências bíblicas citadas no sermão de Ribeiro têm milhares de anos. Fazer sua transposição de forma literal implica ignorar a evolução do pensamento humano ao longo da história, argumenta.

Por exemplo, a evolução do sistema legal.

"Violar a integridade física de alguém é crime", diz. "Por que posso agredir uma criança e não é crime, é disciplina?"

E também a evolução na pedagogia e psicologia.

"Se existe alguma correspondência entre esse tipo de disciplina, castradora, punitiva, violenta, com a formação do caráter humano, é a deformação do caráter humano."

A sociedade tem afirmado a necessidade de um caminho de comunicação não violenta, diz o pastor.

"Isso não é nem religião, a psicologia fala disso. De educarmos a partir dos afetos positivos. Nosso ministro da Educação está atrasado pelo menos dois mil anos."

"Ele (Ribeiro) foi buscar a referência no Velho Testamento, na imagem do Deus legislador, juiz, punitivo. É o Deus do chicote na mão."

O Deus do Velho Testamento e o poder político

A essa altura, você talvez esteja se perguntando por que setores do movimento evangélico estariam dando ênfase a uma versão autoritária de Deus.

"O Deus de Israel é cheio de misericórdia e compaixão, ele é o pai de Jesus. Mas o senso comum o enxerga como um juiz implacável, o Deus do chicote."

Para Kivitz, essa versão interessaria mais a certos setores do movimento evangélico.

"Porque o projeto desse segmento da igreja evangélica a que estamos nos referindo é um projeto de poder político", diz.

"E um projeto de poder político tem de se sustentar na lógica do Velho Testamento, da teocracia de Israel, onde o rei age em nome de Deus. Governar em nome de Deus para impor sua lei religiosa. Esse é o espírito do fundamentalismo religioso. Ele age em nome de Deus, e quem age em nome de Deus é por definição inquestionável."

Segundo Kivitz, essa também seria a razão pela qual a Igreja Evangélica brasileira, que é cristã, busca se aproximar do Estado de Israel. (Lembrando que, segundo as escrituras, Cristo teria sido um messias judeu rejeitado pelo judaísmo.)

"Para você ter um projeto de poder político-religioso evangélico, você encontra na estrutura do Israel bíblico descrito no Velho Testamento uma referência teórica e uma matriz sócio-político-religiosa."

Essa busca de proximidade com Israel é algo que confunde muita gente. Mas a confusão não acaba aí. Uma coisa é o Israel bíblico e outra, o Estado de Israel atual, uma democracia onde são praticadas várias religiões e também o ateísmo.

"Muitos evangélicos confundem o novo Estado de Israel com o Israel bíblico", diz Kivitz. "Isso é uma ignorância."

Como funciona na prática: A construção de um presidente com missão divina

Kivitz oferece um exemplo de como algumas igrejas evangélicas usariam rituais e simbologias bíblicas para emprestar não ao rei — já que não vivemos numa monarquia — mas ao presidente Jair Bolsonaro uma aura divina.

"A Bíblia tem uma figura interessante em que o sacerdote ungia o rei de Israel. Isto é o poder religioso abençoando o poder político. E esse ato de unção é derramar óleo sobre a cabeça do rei. Edir Macedo fez isso com Bolsonaro na campanha (eleitoral) de 2018", lembra Kivitz.

"Ele levou Bolsonaro ao templo da (Igreja) Universal do Reino de Deus, ao Templo de Salomão, e disse que estava ungindo Bolsonaro do mesmo jeito que o rei Davi foi ungido pelo profeta Samuel no Velho Testamento."

Edir Macedo é fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Seguindo seu exemplo, em dezembro do ano passado o pastor e deputado Marco Feliciano declarou à BBC News Brasil:

"Ele (Bolsonaro) crê, de fato, como eu creio, que a missão dele é uma missão divina, é uma missão para recuperar o nosso país, para recuperar o moral, para recuperar os bons costumes, para recuperar a família."

Para Kivitz, essas tentativas de dar ao poder político terreno um ar transcendental são perigosas.

"Um presidente eleito num Estado democrático de direito, numa sociedade plural, numa estrutura de nação republicana, está sujeito a questionamentos", diz.

"E quando ele fala em recuperar os bons costumes, quais bons costumes?", pergunta. "Qual moral? Numa sociedade plural existem muitas morais. Muitos bons costumes diferentes e de cada segmento religioso e inclusive dos não religiosos."

O presidente Bolsonaro, por sua vez, tem dado bastante atenção à sua base evangélica.

Por exemplo, prometeu, recentemente, indicar, em 2021, um ministro "terrivelmente evangélico", "se Deus quiser, um pastor", para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). E falou: "Imaginemos as sessões daquele Supremo Tribunal Federal começarem com uma oração".

"Vejo com pesar e temor essa agenda de usar o Estado e o governo para impor ao país uma tradição religiosa", diz Kivitz.

"Sou cristão evangélico, mas vejo isso como uma violência ao pacto social de um Estado democrático de direito."

E ao querer um presidente que defenda seus interesses, certos segmentos do movimento evangélico também estariam rompendo esse pacto.

"(Em uma democracia) o poder público existe para defender com equidade, com justiça, com imparcialidade, os interesses de todas as representatividades daquela sociedade, inclusive das minorias."

Mas o argumento final do pastor em defesa do Estado laico é de natureza íntima: "A fé é uma escolha. não uma imposição. Então, você não pode obrigar ninguém a seguir a sua religião e a sua moral."

Cabe aqui um parênteses. Para os batistas, defender o Estado laico não é mera formalidade. Esse valor está impresso no DNA do movimento, surgido no século 16, na Inglaterra, durante a Reforma Protestante.

Kivitz explica quem são eles.

"Os batistas se caracterizam por alguns princípios fundamentais, como a separação entre igreja e Estado, a liberdade de consciência, a responsabilidade do individuo diante de Deus e a Bíblia como única regra de fé e pratica", diz.

Outro principio fundamental da reforma protestante é o chamado sacerdócio de todo cristão, ou seja, o acesso direto a Deus por meio de Jesus Cristo, sem qualquer outra mediação, explica Kivitz.

"Isso significa que qualquer pessoa pode desenvolver um relacionamento com Deus sendo iluminada apenas pelo seu entendimento da Bíblia sagrada, sem qualquer relação de dependência hierárquica, seja (em relação) ao Estado ou a qualquer autoridade religiosa."

O pastor explica que existem milhares de igrejas batistas pelo mundo e que elas cooperam entre si de forma voluntária, mas cada igreja responde por si.

"Não temos bispos, cardeais, não temos uma autoridade central como o Papa. A autoridade máxima de uma Igreja Batista é sua Assembleia, composta por todos os seus membros."

As igrejas evangélicas que não estão na mídia se mobilizam

Correta ou não a análise que Kivitz nos oferece até agora, críticos do governo afirmam que o Estado laico está sob pressão no Brasil. E apontam o que, para eles, são indícios da politização de certos segmentos do movimento evangélico com o objetivo de avançar a agenda evangélica no país.

Uma pesquisa DataFolha publicada logo antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2018 apontou que o então candidato Jair Bolsonaro tinha quase 70% dos votos entre evangélicos. Análises posteriores demonstraram que esses votos foram cruciais para a sua vitória.

No Congresso Nacional, a chamada bancada evangélica detém 195 dos 513 deputados. E até setembro do ano passado, 90% dos votos desse grupo foram pró-governo - apontou um levantamento do jornal O Estado de São Paulo publicado em setembro de 2019.

E aqui, um fato que, para alguns, pode ser indicativo de uma tendência mais ampla: o novo ministro da Educação, o pastor Milton Ribeiro, nomeou como assessora especial uma evangélica presbiteriana que tem defendido publicamente o uso de princípios bíblicos na educação.

Mas e os outros 30% do eleitorado evangélico, aqueles que não votaram em Bolsonaro?

"Essas lideranças se sentem acuadas porque o bolsonarismo é hegemônico dentro da comunidade evangélica", diz Kivitz "Isso talvez explique seus posicionamentos cautelosos."

O pastor está falando também de si mesmo. No dia 25 de outubro, após fazer seu sermão dominical pela internet, vivenciou mais uma vez o "apedrejamento" virtual nas redes sociais por aqueles que, para ele, representam a ala conservadora fundamentalista do movimento evangélico brasileiro.

Um ano antes, talvez prevendo esse tipo de situação, ele disse à BBC Brasil que não queria se envolver na polarização politica. Seu interesse era promover conciliações e a unidade da sua comunidade.

"Eu gostaria de refazer essa resposta", disse. "A análise que faço do governo Bolsonaro me obriga a me posicionar mais explicitamente. O apoio de um líder religioso cristão evangélico ao bolsonarismo é imoral."

Por que imoral?

"Por todas essas representações do governo Bolsonaro que a gente está assistindo", responde.

"O envolvimento criminoso com a milícia, o descaso para com a vida que se manifesta na expressão de violência com ênfase armamentista, o aumento da violência das polícias, as violências à democracia, o descaso para com a vida no cuidado da pandemia — estamos no meio de uma pandemia sem ministro da Saúde, tem um general ocupando o cargo."

"Essa maneira de tratar o patrimônio natural do país. Os crimes ambientais no Brasil com a conivência e incentivo do governo, isso é imoral. A postura do governo diante dos crimes ambientais é imoral."

"É o que penso."

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!