Visita de Bin Salman marca degelo entre sauditas e turcos três anos depois de assassinato de jornalista

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O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, foi à Turquia nesta quarta-feira, sua primeira visita desde o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi no consulado saudita em Cabul em outubro 2018. A morte do colunista do Washington Post, um crítico ferrenho do regime saudita, virtualmente paralisou a relação entre as potências regionais nos últimos quatro anos.

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Bin Salman, líder de facto do governo saudita, foi recebido em Ancara pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, com todas as honras militares, incluindo guardas presidenciais vestidos de azul, apertos de mão e beijo nas duas bochechas. É o segundo passo para recalibrar o relacionamento, após Erdogan visitar Riad em abril e abraçar o príncipe herdeiro, anunciando um “novo período de cooperação”.

A reaproximação vem em meio a uma crise interna na Turquia, onde a lira perde força e a inflação passa de 70%, fazendo o governo recorrer a aliados regionais para aquecer sua economia mirando nas eleições presidenciais do ano que vem. Coincide também com um movimento de reaproximação de vários países ao príncipe saudita, suspeito de ter ordenado o assassinato de Khashoggi.

Em 2018, uma análise da Inteligência americana o apontou como mandante do grupo que matou e desmembrou o jornalista dentro do consulado saudita em Istambul, onde estava para pegar documentos necessários para se casar. Outras agências ocidentais chegaram a conclusões similares,algo que Bin Salman e a Casa Real negam veemente. Os restos mortais de Khashoggi não foram encontrados até hoje.

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Na época, o governo turno despertou a ira saudita ao não só ordenar imediatamente a abertura de uma investigação sobre o assassinato, mas fornecer à imprensa internacional detalhes do crime. As informações foram divulgadas gradativamente, alimentando a ira e a atenção ao redor do caso. O próprio Erdogan chegou a dizer que a ordem para matar o jornalista veio “dos níveis mais altos” do governo saudita, mas não acusou o príncipe diretamente.

Diante das dificuldades econômicas turcas, Ancara deu um passo atrás em abril quando apoiou a transferência do julgamento do caso para a Arábia Saudita, decisão anunciada alguns dias antes de Erdogan desembarcar no país do Golfo.

Não foi só entre os turcos que houve uma reviravolta: durante sua campanha para a Presidência dos EUA, Joe Biden prometia transformar o maior exportador de petróleo do planeta em um pária internacional. O democrata, contudo, fará sua primeira visita à Arábia Saudita no mês que vem, após a invasão russa na Ucrânia fazer os preços globais dispararem — fenômeno que não poupou as bombas americanas.

À Bloomberg, dois funcionários do governo turco afirmaram que o objetivo é firmar com Riad um swap de divisas similar ao fechado com outros países nos últimos anos. Essa é uma das opções discutidas para garantir a entrada de capital vindo da Arábia Saudita, cujos cofres são beneficiados pelo alto custo do barril de petróleo. Um acordo pode não só fortalecer a lira, mas também aliviar o preço crescente das importações de energia.

Em paralelo, empresas turcas reclamam de um boicote não oficial aos produtos do país após as exportações para a Arábia Saudita caírem no final de 2020. No ano passado, as vendas turcas foram de pouco mais de US$ 200 milhões, abaixo dos US$ 3,2 bilhões em 2019, segundo dados oficiais de Ancara.

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Erdogan quer recuperar o espaço perdido. Uma reaproximação com os Emirados Árabes Unidos no ano passado desbloqueou negócios em potencial bilionários, assinando um swap de divisas de US$ 4,9 bilhões e dando fôlego à lira turca. O país do Golfo também apresentou planos para um fundo de US$ 10 bilhões para auxiliar investimentos, buscando ao menos dobrar as trocas bilaterais.

Ancara espera que a reaproximação dos sauditas tenha um efeito parecido, apesar da visita de Bin Salman ter gerado críticas negativas. O líder da oposição no Parlamento turco, Kemal Kilicdaroglu, acusou Erdogan de "arruinar a reputação" do país. Hatice Cengiz, que se casaria com Khashoggi, também criticou a "legitimidade política" que tais encontros dão ao príncipe.

Realinhamento de forças

Ainda assim, o degelo entre Riad e Ancara é significativo para o realinhamento de forças que ocorre no Oriente Médio desde que Biden chegou à Casa Branca.

Desde antes da crise causada pelo assassinato de Khashoggi, a Turquia se desentendia com a Arábia Saudita, os Emirados e o Egito devido ao seu apoio à Irmandade Muçulmana, um movimento político pan-islamista visto por muitos governos árabes como uma ameaça à ordem vigente. Seu partido, o Justiça e Desenvolvimento, inclusive nasceu do movimento.

A Primavera Árabe, em 2011, ajudou a fortalecer a Irmandade Muçulmana em países como o Egito. Riad, por sua vez, é um dos que vê o grupo como uma ameaça direita, classificando-o como uma organização terrorista.

A Turquia é a última perna de uma turnê que o príncipe herdeiro saudita faz no Oriente Médio, após passar pelo Egito e pela Jordânia, promovendo seu papel como potência regional antes da visita de Biden a Riad.

Na terça, os sauditas assinaram acordos de quase US$ 8 bilhões com o Egito, um importante importador de trigo cuja economia é afetada pela alta global no preço dos grãos e combustíveis, acompanhada do aumento nas taxas de juros. A Arábia Saudita já depositou bilhões de dólares no Banco Central egípcio para fortalecer as reservas após a eclosão da guerra na Ucrânia e promete liderar esforços regionais para investimentos de US$ 30 bilhões no país.

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