Acordo com Musk para Amazônia virou troféu para Bolsonaro usar em campanha

SERGIO LIMA/AFP via Getty Images
SERGIO LIMA/AFP via Getty Images

Jair Bolsonaro está prestes a completar três anos e cinco meses de seu mandato. O período tem sido marcado pelo uso recorrente de um fio de alta tensão com o qual chicoteia a Amazônia, os agentes do Ibama e os dados sobre a devastação ambiental –explicada, em parte, pela proteção e incentivo de seu governo a grileiros e mineradores que ambicionam expandir os negócios para áreas indígenas e de proteção ambiental.

Seu antigo ministro do Meio Ambiente, uma motosserra ambulante que sonhava em transformar o bioma em pasto, deixou o governo sob suspeita de favorecer empresários supostamente ligados à exploração e venda irregular de madeira.

Quando questionado, inclusive por observadores internacionais, sobre a preservação ambiental, Bolsonaro atribuía a preocupação legítima do mundo todo a interesses escusos. Ele não tinha seis meses no cargo quando declarou que a Amazônia era uma "virgem" que todo tarado "de fora" cobiça.

Nesta sexta-feira (20), o presidente, em novo duplo twist carpado, decidiu receber um empresário “de fora” para discutir o futuro da…Amazônia.

Não qualquer empresário, e sim o empresário mais rico do mundo.

Elon Musk veio ao Brasil discutir "conectividade, investimentos, inovação e o uso da tecnologia como reforço na proteção de nossa Amazônia e na realização do potencial econômico do Brasil", segundo uma mensagem postada pelo ex-capitão no Twitter, outro território em que o bilionário também pretende instalar os seus negócios.

Foi justamente a oferta hostil feita aos atuais donos da rede social que colocou Musk no panteão dos ídolos da extrema-direita, que veem em sua chegada uma trilha aberta para a volta de Donald Trump às redes sociais.

O ex-presidente foi banido do Twitter após usar a plataforma para estimular ataques ao sistema eleitoral norte-americano –lá, a coisa descambou na invasão do Capitólio, na qual cinco pessoas morreram.

O abrigo a todo tipo de ameaça, indução ao crime e profusão de ódio é chamado pela turma e o futuro comprador do Twitter como “liberdade de expressão”. A lista de pessoas bloqueadas pelo bilionário na mesma rede dá a dimensão de como a tolerância ao contraditório só vai até a segunda frase da thread.

Mas Musk não é adorado “só” por isso. A capacidade do sul-africano para transformar ideias em projetos (e dinheiro) fez dele um mito para todo candidato a empreendedor que pensa em alcançar o topo graças ao próprio talento, esforço e bla-bla-bla. Tesla, SpaceX e Neuralink são algumas das empresas de seu império que fariam inveja a todos os protagonistas das últimas capaz da Você S.A.

Bolsonaro, que foi eleito prometendo tirar o Estado da lista de competidores dos empreendedores nacionais, seja por meio de tribulação, seja por meio de serviços públicos ou da produção de estatais, chega às eleições deste ano com passivos consideráveis na conta do eleitor. O fiasco ambiental é um deles. O déficit educacional é outro.

À lista o defensor apaixonado das palmadas da mão invisível do mercado poderia incluir a incapacidade de substituir o corpo estatal pela silhueta das parcerias mais camaradas com a iniciativa privada.

E então Musk vem ao Brasil. O bilionário tão admirado promete conectar 19 mil escolas e colaborar com o monitoramento da Amazônia.

Trata-se de um cartão de visita para Bolsonaro ostentar em sua busca de apoio do empresariado. Afinal de contas, poderá dizer agora, e por um bom tempo, que é parceiro do maior deles.

Se o eleitor não tiver na lembrança os recordes de desmatamento recentes nem a passagem de cinco ministros da Educação por um governo incapaz de produzir política digna para o setor, é possível ver na parceria firmada com a Starlink de Musk um trunfo eleitoral e tanto.

Bolsonaro mostrou prestígio, afinal, ao ser visitado pelo celebridade do momento. E por chegar às primeiras jardas da eleição com um atalho de forte apelo midiático que permite mostrar uma tentativa de sanar dois fracassos num mesmo anúncio. Um na educação e outro no meio ambiente.

Mesmo os adversários mais ferrenhos terão dificuldade em atacar o projeto, mesmo que tenha do outro lado do balcão uma figura tão controversa como Musk.

Por enquanto, quem vê bilhão não vê intenção. Outros bilionários passaram pelo mesmo fascínio antes, durante e muitas vezes até depois da queda anunciada. Eike Batista que o diga. Mas Musk ainda é o cara da vez.

A longo prazo, o alcance de um acordo do tipo poderá ser devidamente analisado em um país onde o próprio presidente é o foco de incêndio monitorado do alto. Mas isso leva tempo. Até outubro, o que Bolsonaro tem é um troféu em forma de foto, que certamente será explorada à exaustão quando a campanha de fato começar.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos