Visita de Pelosi põe em risco status quo entre China e EUA

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O que os Estados Unidos ganham com a possível visita a Taiwan da presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi? Não está claro, até porque a viagem não foi confirmada (nem negada) pelo escritório da deputada desde que os planos de sua ida a Taipé em agosto foram noticiados pelo jornal Financial Times, com base em fontes anônimas. Mais claros são os riscos de que ela cause um desequilíbrio temerário nas relações entre Washington e Pequim justamente no tema com maior potencial de confronto militar.

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Supostamente o objetivo da visita seria demonstrar apoio a Taiwan diante da ameaça de um ataque da China, possibilidade que é inflada por alguns políticos americanos mas que a maioria dos analistas sérios não considera real num ano em que o presidente Xi Jinping precisa de estabilidade para assegurar sua permanência no poder sem sobressaltos. O apoio americano a Taiwan já é fartamente manifestado pelos EUA, tanto no âmbito político, como mostra a sucessão de resoluções aprovadas no Congresso nos últimos anos, como no militar, com a expansão da venda de armas.

No último ano, manobras militares e retóricas elevaram de modo considerável as tensões entre China e EUA em torno da ilha, e o perigo de guerra que antes parecia exagerado começou a ganhar contornos de uma profecia autorrealizada.

Neste ambiente, mesmo que não seja essa a intenção, a possível viagem de Pelosi tende a ser entendida em Pequim como uma mudança no status quo, pois seria a primeira visita de um presidente da Câmara dos Deputados americana em 25 anos. Pode-se alegar que ela tem o direito de realizar visitas a um território aliado dos EUA com governo próprio e democrático e que conta com todos os elementos de um Estado soberano com exceção do reconhecimento formal de outros países de sua independência. Mas é um gesto que o próprio presidente Joe Biden considera imprudente neste momento.

Um fator que pode ser usado para justificar a visita de Pelosi é uma mudança efetuada pelo governo de Donald Trump nas relações com Taiwan. Anunciada onze dias antes da saída de Trump da Casa Branca, a decisão anulou o veto a contatos entre autoridades dos EUA e de Taiwan que vigorou por décadas. Pode parecer trivial, mas não é. Diplomatas em Pequim comentam que foi um sério golpe na credibilidade americana aos olhos do governo chinês, por ter sido vista como um rompimento do princípio de “uma só China” que serviu de base para o estabelecimento de relações diplomáticas entre os países, em 1979.

Caso Pelosi leve adiante a visita, não seria a primeira de uma delegação de parlamentares americanos a visitar Taiwan — a última ocorreu em abril. Mas o lugar ocupado por Pelosi na hierarquia de poder, segunda na linha sucessória dos EUA, torna o gesto particularmente significativo, e justamente por isso desaconselhado pelos assessores de defesa do presidente Biden. A ironia é que com essa visita Pelosi estaria corroborando a política de Trump. Logo ela, que foi uma das mais ferrenhas críticas do ex-presidente, criou uma armadilha para o atual mandatário: persistir na ideia aumentaria a tensão, recuar significaria render-se à pressão chinesa. Enquanto isso, “todos se preparam para uma crise que ninguém quer”, definiu Josh Rogin, colunista de política externa do Washington Post.

A poucos meses das eleições legislativas de novembro nos EUA, a China ganha ímpeto como um dos poucos pontos de convergência na política americana, em muitos casos mais voltada para consumo doméstico do que em favor de interesses de longo prazo dos EUA e da estabilidade mundial. Pesquisas de opinião mostram que a maioria dos americanos apoia uma aliança mais robusta dos EUA com Taiwan, uma opinião impulsionada principalmente pela desconfiança crescente em relação à China. No mês passado, senadores dos dois maiores partidos deixaram de lado as desavenças e se uniram para apresentar um projeto de lei no Congresso destinado a reformular a política dos EUA para Taiwan, incluindo um pacote de ajuda militar de US$ 4,5 bilhões e o apoio à representação da ilha em organizações internacionais. O governo chinês imediatamente ameaçou tomar “firmes medidas" de represália caso o projeto seja aprovado, a mesma resposta que teve sobre a visita de Pelosi.

Pequim não deixa claro quais seriam essas medidas. Mas especula-se que poderiam incluir desde um embargo aéreo a Taiwan até o envio de caças chineses para impedir que o avião de Pelosi aterrisse em Taipé. Mesmo que não resulte num confronto militar entre as duas maiores economias do mundo — o que teria impacto “avassalador" para todos os países, como descreve um diplomata próximo ao tema — são opções que mudariam o jogo para pior. O governo chinês certamente pode estar blefando. Mas o eventual benefício da visita de Pelosi não justifica o risco de pagar para ver o tamanho do precipício.

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