Visitas de ex-secretário para negociar com traficantes em presídio foram pagas com dinheiro público

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RIO — Preso pela Polícia Federal na última terça-feira, dia 17, e solto neste domingo, dia 22, o ex-secretário de Administração Penitenciária do Rio, Raphael Montenegro negociava a volta de traficantes ao Rio, em troca de uma trégua dentro e fora das cadeias fluminenses, e contribuiu para soltar pessoas com mandado de prisão em aberto, como explicou o procurador de justiça Carlos Aguiar, ao "Fantástico". Reportagem também revelou que as viagens à Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, custaram quase R$ 6 mil em dinheiro público, além do reembolso de diárias e hospedagem.

— Na verdade, era o estado do Rio de Janeiro que estava ali representado, por acaso, pelo SEAP buscando negociação com uma facção criminosa que durante anos vem causando uma série de problemas para o estado e para o Brasil. Portanto, mais do que um comportamento individual, esse gesto indica uma política equivocada, no mínimo, porque não dizer fracassada, de enfrentamento ao crime organizado. Atos dessa natureza e sequências de escândalos na pasta sugerem que há um certo descompromisso, uma forma pouco profissional de lidar com esse tema que é tão sensível e tão caro a população do Rio. O estado se fez representar ali e levou uma proposta de acordo, absolutamente descabida, o que na prática levaria ao fortalecimento das lideranças e o próprio enfraquecimento do poder público — diz o procurador de justiça Carlos Aguiar.

Tanto a polícia quanto o Ministério Público Federal investigam a possibilidade de Montenegro obter vantagens política e financeira. Na casa do ex-secretário, no dia da operação que o levou a prisão, foi apreendida a quantia de 250 mil em reais e em moedas estrangeiras. Sua defesa disse ao

Nas escutas ambientais autorizadas pela Justiça, feitas dentro do Presídio Federal de Catanduvas, no Paraná, quando o secretário de Administração Penitenciária do Rio, Raphael Montenegro, visitou dez detentos que cumprem pena na unidade, alguns diálogos se destacam na visão dos investigadores federais. Com o chefe da principal facção crimosa do Rio, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, que está preso há 25 anos, Montenegro compara o poder do criminoso ao de um "secretário de segurança". As entrevistas com os presos aconteceram nos dias 27 e 28 de maio deste ano.

— Nós recebemos muitas visitas de secretários de gestão prisional de todo o Brasil. Mas as visitas comumente são para conhecer a nossa estrutura, conhecer os nossos procedimentos. Foi de fato a primeira vez que um secretário pediu audiência desta forma — diz Tânia Fogaça, diretora-geral do Depen: — Os nossos agentes acompanharam todo o diálogo. Porém, em alguns momentos da conversa, algumas frases, assim, um pouco fora de contexto, né? Umas frases que realmente eram diferentes do que comumente ocorre até em visitas. E, a partir daí, acionamos a justiça.

Em conversa com Luiz Claudio Machado, o Marreta, Raphael Montenegro diz que sabe que os presos falam à vontade pelo celular na cadeia. Em outra investigação, o procurador de justiça Carlos Aguiar diz que o ex-secretário se movimentou para soltar uma pessoa que tinha ainda um mandado de prisão em aberto. A referência é ao traficante Wilton Carlos Quintanilha, o Abelha.

— É importante registrar que a questão não ficou no campo só da dialética, da troca de ideias, de promessas. Houve movimentos concretos, que culminaram na soltura de uma pessoa que não deveria ser solta.

Imagens do "Fantástico" mostraram Abelha saindo da penitenciária. O carro que o cumprimenta é oficial e estava a disposição do secretário. Raphael Montenegro já vinha sendo investigado por este episódio e por outros três casos de presos que deixaram a cadeira com alvará de soltura falso. Entre eles, João Filipe Barbieri, um dos maiores traficantes de armas do mundo. Após visita a Catanduvas, o ex-secretário deu parecer favorável ao retorno ao Rio do traficante Rodrigo da Silva Rodrigues, conhecido como Tineném, contrariando pareceres da polícia e do Ministério Público.

— A gente não quer vir aqui, e levar de volta, e começar a ter problema no sistema de novo, porque o Rio de janeiro chegou no fundo do poço — disse Raphael em conversa com Tineném, que respondeu: — Da minha parte, vai ficar tranquilo, com certeza.

Procurado, o governador do Rio, Cláudio Castro não aceitou gravar entrevista. Na terça-feira, dia 17, ele exonerou os presos e disse que não sabia de nada. A defesa do ex-secretário disse que ele e inocente de todas as acusações. Os advogados de Wellington Nunes da Silva e Sandro Faria Gimenes preferiram não se manifestar. No domingo, dia 22, o prazo da prisão temporária acabou. Procuradores não pediram a renovação porque entenderam que, fora da secretaria, não ha risco de atrapalhar as investigações.

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