Vistoria aponta falhas na transferência de pacientes de Manaus com Covid-19; homem morreu 24h após chegar ao Rio

Evelin Azevedo e Luã Marinatto
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A Defensoria Pública do Rio, o Ministério Público Estadual (MP-RJ) e o Ministério Público Federal (MPF) enviaram, nesta sexta-feira, um ofício ao Ministério da Saúde em que cobram explicações sobre a transferência para a cidade do Rio de pacientes com Covid-19 de Manaus, capital do Amazonas, onde uma variante mais contagiosa do coronavírus encontra-se em circulação. Segundo os órgãos, duas vistórias técnicas, realizadas em conjunto pelas Vigilâncias Sanitárias do estado e do município, constataram falhas na chegada dos pacientes ao Hospital Federal do Andaraí, na Zona Norte, e ao Hospital Federal dos Servidores, na Zona Portuária. Além disso, ainda de acordo com o documento remetido ao governo federal, os problemas de planejamento fizeram com que parte dos transferidos fosse alocada em leitos destinados a internados que não estão com o coronavírus.

As visitas ocorreram em 3 de fevereiro, no Hospital do Andaraí, e quatro dias depois no Hospital dos Servidores. Os relatórios elaborados pelas vigilâncias enumeram "fatos graves" constatados nas duas unidades. Entre os itens mencionados, está a ausência de elaboração de processos de trabalho pelos profissionais de saúde para o devido acolhimento dos pacientes e a falta de comunicação entre autoridades sanitárias federais, estaduais e municipais. O caso mais emblemático é a morte de um doente vindo de Manaus menos de 24 horas após chegar ao Rio, embora houvesse a promessa de que apenas casos com estado moderado de saúde seriam encaminhados à cidade.

Após passar pelo Hospital do Andaraí, onde não permaneceu em razão da "falta de estrutura", conforme citam a Defensoria e os MPs, o paciente chegou aoHospital Federal dos Servidores com "dessaturação importante" e "bala deoxigênio do transporte quase vazia", sendo inicialmente internado em enfermaria não Covid "por equívoco". Apenas 15 minutos após os primeiros atendimentos é que o homem foi levado para um setor destinado ao coronavírus no Institutode Infectologia São Sebastião (IEISS), unidade estadual que funciona no 11º andar do Hospital dos Servidores. Lá, ele acabou não resistindo.

O relatório feito pelas Vigilâncias indica que "ambos os hospitais não receberam protocolo de fluxo de entrada e encaminhamento de pacientes transferidos do Hospital Federal do Andaraí, oriundos de Manaus". A elaboração da declaração de óbito do paciente morto, que ficou incompleta, só pôde ser feita porque ele possuía entre os pertences uma carta resumindo sua origem e um documento de identidade.

- Devido à gravidade do quadro clínico em que ele já chegou, e em razão de todas as intercorrências que aconteceram aqui, agravadas pela falta de planejamento, esse paciente acabou morrendo - afirma Thaisa Guerreiro, coordenadora de Saúde e Tutela Coletiva da Defensoria do Rio: - As famílias de Manaus depositam esperança nesse transporte. Mas, em vez de estar ajudando, da forma como está sendo feito por estar sendo apenas agravado.

O risco, porém, não é apenas o de piorar o quadro dos pacientes transferidos. Os técnicos responsáveis pela vistoria no Hospital do Andaraí reportaram: "Importante ressaltar que, considerando a circulação da nova variante do vírus SARS-CoV-2 identificada em Manaus/Amazonas, é de crucial importância a adequação dos processos de vigilância epidemiológica". Após a passagem do paciente vindo de Manaus pelos leitos comuns do Hospital dos Servidores, pelo menos duas pessoas internadas testaram positivo para a Covid-19, o que colocou a unidade em "investigação epidemiológica de monitoramentoe origem de contágio". Até o momento, as autoridades não confirmaram se a nova variante do coronavírus foi constatada nos hospitais do Rio. Procurado, o Ministério da Saúde ainda não se manifestou sobre as denúncias.