A vitória de Biden força o México a reconstruir complicada relação com os EUA

Sofia MISELEM
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Um homem com a bandeira mexicana se manifesta contra as políticas de imigração do presidente Donald Trump, em Playas de Tijuana, Baja California, na fronteira com os Estados Unidos, em 31 de outubro de 2020
Um homem com a bandeira mexicana se manifesta contra as políticas de imigração do presidente Donald Trump, em Playas de Tijuana, Baja California, na fronteira com os Estados Unidos, em 31 de outubro de 2020

Reconstruir o relacionamento com os Estados Unidos será uma tarefa difícil para o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, já que sua proximidade com Donald Trump pode pesar e o democrata Joe Biden pode dificultar o vínculo comercial crucial ou  

A incômoda posição do mexicano ficou evidenciada no sábado(07) quando optou por ser um dos poucos dirigentes que se absteve de parabenizar o eleito Biden, argumentando que aguardará a resolução das reclamações de Trump, que ignorou a vitória e alega uma suposta fraude. 

“Não queremos ser imprudentes, não queremos agir levianamente”, justificou López Obrador.

Trump ganhou a presidência em 2016 com um discurso que rotulou os mexicanos de "estupradores" que trouxeram "drogas e crime" para os Estados Unidos. Apesar disso, o México conseguiu se dar bem com o republicano. 

"Essa retórica antimexicana de Trump é muito desagradável, mas na verdade houve acordos importantes. A relação com os democratas sempre foi fria e uma distância maior poderia ser esperada de Biden", disse à AFP Miguel Ángel Jiménez, analista do Conselho de Justiça mexicano de Assuntos Internacionais (COMEXI). 

Para Jiménez, a reação de López Obrador confirma sua proximidade com Trump e sua preocupação com as semanas que restam para ele deixar na Casa Branca.

Historicamente, o México conquistou mais com os republicanos, como a anistia à imigração concedida por Ronald Reagan ou o acordo de livre comércio (Nafta) que George Bush pai negociou e foi assinado, com resistência, pelo democrata Bill Clinton em 1994, lembra Jiménez. 

López Obrador, relutante em viajar ao exterior, visitou Trump em Washington em julho durante a campanha eleitoral, um erro, segundo analistas, especialmente quando apareceu em um vídeo de campanha republicana. 

“São irmãos de mães diferentes”, resume Jeffrey Davidow, que foi embaixador de Clinton no México, em um artigo no jornal Reforma. Ele listou as coincidências que, em sua opinião, existem entre os dois: desprezo pelas instituições, direitos humanos e trabalhistas, energia limpa e imprensa, temas sobre os quais, ele antecipa, Biden fará pressão. 

"A presidência de Biden oferecerá novos desafios e oportunidades" que devem ser tratados "com maior habilidade" do que o exigido por Trump, escreveu Davidow.

-T-MEC em risco?-

Devido à personalidade de Biden e à prioridade de reconciliar os americanos após uma eleição acirrada, os analistas descartam os dardos contra o México, mas antecipam algumas repercussões, principalmente comerciais. 

A renegociação do acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México foi o clímax da complicada relação com Trump. Com Biden, o T-MEC é novamente a maior preocupação. 

“Trump já fez o que queria com o México, o risco com ele seria menor. Kamala Harris, a candidata democrata à vice-presidência, foi uma detratora do T-MEC e pode colocar pedras no caminho”, avisa Gabriela Siller, analista do Banco BASE. 

Para Jiménez, o ponto mais sensível do T-MEC é a reforma trabalhista no México, exigida pelos democratas para aprová-la. 

Vão exigir um cumprimento muito pontual desta reforma, frisa. Os Estados Unidos são o principal parceiro comercial do México e destino de mais de 80% de suas exportações.

- Migração restringida -

A política de migração, outra questão bilateral urgente, veria poucas mudanças. 

Mesmo que Biden cancele a construção do prometido muro de fronteira de Trump, as duras restrições contra a migração ilegal continuarão, estima Dolores Paris Pombo, especialista em migração do Colegio de la Frontera Norte em Tijuana (noroeste). 

Em 2019, Washington ameaçou o México com tarifas sobre suas exportações se não impedisse as caravanas de centro-americanos que buscavam chegar aos Estados Unidos. 

Paris Pombo lembra que desde 1996 leis foram aprovadas criminalizando a imigração ilegal e os democratas as aplicaram.

“As administrações de Barack Obama foram mais duras no número de deportações, mas sem a ressonância da mídia ou os níveis de crueldade de Trump”, diz ele. 

Ele acrescenta que, para evitar o confronto com Trump, López Obrador fez concessões "questionáveis", como aceitar que os requerentes de asilo nos Estados Unidos esperem no México por suas resoluções ou que os militares tenham autonomia para conter os fluxos migratórios. 

Quando "muito", Paris estima que Biden vai restabelecer o programa DACA, que beneficia migrantes que chegaram quando crianças - 79% de origem mexicana - e que Trump suspendeu.

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