Vitória de Johnson: estímulo e incertezas para economia britânica

Por Véronique DUPONT
O primeiro-ministro britânico e líder do Partido Conservador, Boris Johnson, é recebido pela equipe quando ele volta à 10 Downing Street, no centro de Londres, após uma audiência com a rainha Elizabeth II no Palácio de Buckingham

A contundente vitória de Boris Johnson nas eleições legislativas britânicas permitirá o Brexit no fim de janeiro e será um balão de oxigênio para a economia britânica, a quinta maior do mundo, mas a o futuro também está repleto de incertezas.

A curto prazo, os investidores parecem contentes. A Bolsa operava em alta nesta sexta-feira. A libra, considerada um termômetro dos mercados sobre o Brexit, superou a cotação de 1,35 dólar, a maior em 18 meses. A respeito do euro, chegou a superar por alguns minutos o nível de julho de 2016, pouco depois do referendo sobre a saída da União Europeia (UE).

Embora muitos empresários tenham votado contra o Brexit, a maioria pedia há vários meses o fim das dúvidas político-econômicas que afetavam o crescimento, atualmente estagnado.

Carolyn Fairbairn, diretora geral da CBI, principal organização patronal britânica, pediu a Boris Johnson que "utilize seu sólido mandato para reconstruir a confiança e acabar com o ciclo de incerteza" do Brexit.

Além do Brexit, o novo governo "deveria estabelecer o fim de uma década de austeridade e a economia deveria se beneficiar em breve de um grande estímulo orçamentário", destaca Ruth Gregory, da Capital Economics.

Os conservadores prometeram injetar centenas de milhões de libras em hospitais e transportes, no que chamam de "revolução das infraestruturas", mas isto pode aumentar a dívida e os déficits.

Entre as reações desta sexta-feira, a Federação das Câmaras de Comércio (BCC) pediu uma "reforma do imposto sobre os estabelecimentos comerciais", uma das promessas de campanha do primeiro-ministro.

A respeito do compromisso do Reino Unido para alcançar a neutralidade de carbono até 2050, os conservadores se mostram bem menos ambiciosos que os trabalhistas, que prometeram um "green deal" e investimentos colossais na transição energética.

- Crescimento lento -

Jonathan Portes, economista do centro de pesquisas sobre o Brexit 'The UK in a Changing Europe', não espera grandes avanços: não vai acontecer uma maré de investimentos, como disse Boris Johnson, e "se houver talvez uma melhora no consumo - ou no setor imobiliário - será modesta".

"A economia britânica permanecerá em uma trajetória de crescimento lento, especialmente porque o aumento dos gastos governamentais não será suficiente para contra-atacar os danos aos serviços públicos provocados por uma década de austeridade", completa.

Com o acordo negociado por Boris Johnson, o Reino Unido, incluindo a Irlanda do Norte, sairá da UE após um período de transição de um a três anos.

O verdadeiro desafio será o futuro tratado comercial do Reino Unido com o bloco europeu, que determinará as relações do país com seu principal sócio econômico para as próximas décadas.

O centro 'The UK in a Changing Europe' prevê que o acordo defendido por Johnson pode provocar a redução do Produto Interno Bruto por habitante do Reino Unido de 2,3% a 7%, em comparação com um cenário de permanência na UE, em um prazo de 10 anos.

O dado se aproxima das previsões do governo britânico divulgadas no ano passado.

De acordo com Portes, mesmo que o futuro acordo comercial seja baseado na UE em termos de regulamentação, com tarifas mínimas ou nulas, e sem cotas entre as transações UE-Reino Unido, o impacto econômico não poderá ser totalmente neutralizado.