Vitória republicana na Virgínia dá gás a tática trumpista de guerras culturais

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WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - A vitória de Glenn Youngkin na eleição da Virgínia, nesta terça (2), acendeu um alerta para os democratas: a tática de atrair eleitores com o argumento de que a volta do trumpismo era possível não funcionou. E o foco da campanha do republicano nas chamadas guerras culturais, tática frequente de Donald Trump, foi capaz de mobilizar apoiadores mesmo sem o nome do ex-presidente na cédula.

Youngkin venceu por margem estreita. Com estimados 97% dos votos apurados, ele marcou 50,7% de preferência, contra 48,6% do democrata Terry McAuliffe -diferença em torno de 60 mil eleitores, em um estado de 8,5 milhões de habitantes. O republicano teve resultado expressivo em áreas de domínio democrata nos últimos anos, como Virgínia Beach, uma das maiores cidades do estado.

O resultado aponta que o efeito mobilizador de abordar aspectos culturais da sociedade -no caso da Virgínia, a defesa das crianças frente a supostas doutrinações no ambiente escolar- continua eficiente em eleições.

Em uma campanha que começou com o democrata à frente nas pesquisas, a educação se tornou ponto decisivo para a virada republicana. Youngkin explorou bastante, na reta final da campanha, uma frase do rival democrata dita em um debate em outubro: "Não acho que os pais deveriam dizer às escolas o que elas deveriam ensinar".

Em resposta, o republicano buscou estimular a sensação de que as crianças estão sob risco. "Recebo mensagens e ligações de pais de todo o país, dizendo: 'Glenn, se posicione por nossas crianças, elas não podem esperar mais'. Temos visto escolas fechadas, o currículo se tornar algo que não reconhecemos, materiais nas aulas que são completamente inaceitáveis", disse, em um comício.

O candidato passou a enfatizar que ampliaria a participação dos pais na definição do currículo escolar e prometeu proibir o ensino da teoria crítica da raça para alunos dos níveis iniciais -ainda que esse tema não integre o currículo estadual. Um comercial da campanha mostrou a revolta de uma mãe ao descobrir que seu filho, um aluno de ensino médio, teria de ler como atividade escolar um livro sobre a escravidão que inclui relatos explícitos de sexo.

"Havia um contraste forte entre os dois candidatos em muitas questões, mas talvez nenhuma mais importante do que a educação", avalia Tommy Binion, vice-presidente do Heritage Foundation, centro de pesquisas conservador. "Em um momento em que a esquerda quer dar mais controle aos burocratas do governo, os conservadores construíram um argumento vitorioso de que os pais devem estar no comando da educação de suas crianças."

Na campanha, o republicano também enfatizou que pretendia melhorar o combate ao crime, gerar empregos e baixar o preço de produtos cotidianos -como itens de mercado e combustível- ao reduzir os impostos estaduais. O encolhimento do Estado é também uma das bandeiras de Trump.

Por outro lado, o governo Biden tem defendido postura oposta: de aumentar gastos públicos para estimular a economia e avançar no combate às mudanças climáticas. Dois pacotes, cada um com mais de US$ 1 trilhão em novos gastos, estão em debate no Congresso, mas travados há meses por causa de divisões internas entre os democratas.

A demora na tramitação reduz as chances de os democratas terem resultados práticos a apresentar nas "midterms", eleições legislativas de meio de mandato marcadas para novembro de 2022. Com isso, ficam cada vez mais em risco as maiorias apertadas na Câmara e no Senado, o que dificultaria a segunda metade do mandato de Biden.

O pleito na Virgínia se insere nesse contexto por ter funcionado, em ocasiões recentes, como uma espécie de termômetro político do país. Daí o presidente ter ido fazer campanha para McAuliffe -em atos nos quais se dedicou mais a atacar Trump do que a enaltecer resultados de sua gestão. Biden tem desaprovação de 53% no estado, segundo pesquisa feita na semana passada pelo jornal The Washington Post, e sua taxa de rejeição vem crescendo desde o meio do ano, após a retirada caótica das tropas do Afeganistão, em agosto, e uma alta de casos de Covid.

Youngkin, por sua vez, apesar de ter explorado uma estratégia de Trump, ser endossado por ele e ter mobilizado apoiadores do ex-presidente, buscou não citá-lo na campanha. O líder republicano participou apenas, por telefone, de um evento capitaneado por seu ex-estrategista Steve Bannon --ao qual o próprio candidato não compareceu.

O candidato também destacou seu lado religioso, o que lhe deu crédito extra com o público conservador. E se posicionou contra ações de combate à pandemia, como a exigência de vacinação de funcionários por parte das empresas e o fechamento de escolas durante surtos de Covid.

Do lado democrata, houve maior ênfase em defender direitos civis, como o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo, bandeiras que desagradam os conservadores. McAuliffe também prometia melhorar a qualidade das escolas e gerar empregos, mas sua campanha tratou disso de forma menos enfática.

Se a tática de jogar com o medo da volta do trumpismo (de efeito positivo em setembro na tradicionalmente democrata Califórnia) falhou, a aposta em um nome tradicional da política, mas de pouco apelo com o público -que havia funcionado com Biden em 2020-, também naufragou. McAuliffe tem décadas de carreira e já havia governado o estado, enquanto Youngkin disputava sua primeira eleição e buscava encarnar o perfil de novidade na política.

O republicano fez carreira na empresa de investimentos Carlyle, onde ficou por 25 anos e amealhou uma fortuna estimada pela Forbes em US$ 440 milhões. Ele se candidatou logo após se aposentar e dizia na campanha não ser um político, disposto a combater a burocracia estatal que prejudicava os cidadãos.

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