Dora Figueiredo sobre vítima de relação abusiva: "Some por dentro"

Dora conseguiu superar relação abusiva e abriu o coração em vídeo no YouTube. Foto: Reprodução/Facebook

A youtuber Dora Figueiredo abriu o coração sobre um relacionamento abusivo que sofreu em um vídeo de pouco mais de 17 minutos em seu canal no site. O relato emocionado da jovem fez com que muitas mulheres abrissem os olhos para relações tóxicas e reacendeu o debate sobre o tipo de violência psicológica.

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Após dois dias da publicação, a youtuber afirmou ao blog que não consegue mais sair do celular por conta do grande número de mensagens que ela está recebendo. Na tarde desta sexta-feira (19), o vídeo de Dora estava na posição 12 dos vídeos em alta no YouTube e já tinha sido visto mais de um milhão de vezes.

Nos comentários do vídeo de Dora é possível ver que foi criada uma grande rede de apoio para ela e para outras mulheres que sofrem ou já sofreram com algum tipo de relação abusiva. Em entrevista ao blog, a youtuber disse que a intenção dela com o vídeo foi ajudar outras pessoas.

Segundo ela, foi tendo contato com conteúdos parecidos que ela conseguiu entender o que estava passando e superar o problema que vinha vivendo. Além disso, Dora conta que ajuda de parentes e amigos foi fundamental para que ela conseguisse superar a fase difícil.

Leia a entrevista completa

Por qual motivo achou importante mostrar o que aconteceu com você no seu canal?

Dora Figueiredo: Eu, realmente, sei que isso pode ajudar outras mulheres. Ver esse tipo de conteúdo de amigas minhas, [que são] pessoas conhecidas, me ajudou demais. Vendo esse tipo de conteúdo, eu conseguia enxergar o meu relacionamento. A partir desse momento, você consegue entender que a culpa não foi sua. É um trabalho árduo saber que a culpa não foi sua. Porque o relacionamento abusivo é sobre a pessoa te fazer ter certeza que você é louca, que você não sabe o que está dizendo, que você é a abusadora, muitas vezes, quando o cara é bom nisso… se é que dá para se falar que a pessoa é boa em abusar, mas é isso: você consegue identificar.

De que forma você acha que isso pode ajudar outras mulheres?

Dora: Porque, como o abusador te isola de todo mundo, ele não consegue te isolar do seu celular. Consigo chegar em meninas que, muitas vezes, amigos, familiares, essas pessoas, não conseguem chegar. Então, o importante é elas verem uma pessoa que tem um canal no youtube que elas gostam [falando sobre isso]. Por mais que seja engraçado, a gente, às vezes, impacta muito mais as pessoas pela internet do que, por exemplo, uma amiga próxima. Eu tenho uma amiga próxima que eu tento conversar com ela de todas as formas e ela, simplesmente, ignora o que estou falando. O abusador te isola de uma certa forma que você fica surda, você não consegue ouvir as pessoas.

Seguidoras suas te falaram que isso ajudou de alguma forma?

Dora: Conversei com muitas e ainda estou conversando. Desde que soltei o vídeo não largo o celular. Só respondo e-mail, respondo DM (Mensagens Privadas do Instagram), respondo as pessoas falando comigo. E, crio conteúdo sobre isso porque acho muito importante aproveitar essa onda. Meu Deus do céu, as meninas têm me mandado relatos incríveis de como ouvir eu falar trouxe à tona pra elas que elas, realmente, não têm culpa, sabe? Teve uma mulher que veio falar comigo que teve um relacionamento abusivo há 10 anos. E, até hoje, ela se culpa. Então, ela vê o meu vídeo e ela lembra que a culpa não é dela. E é isso o que importa.

Você fala no vídeo sobre várias situações horríveis que passou. Mas, pra você, qual foi a pior parte disso?

Dora: A pior parte do meu relacionamento abusivo, pra mim, foi me sentir vazia. Foi me sentir completamente inútil, completamente fraca… porque ele me fazia sentir assim. Ele falava que eu precisava ser uma mulher mais forte, precisava fazer as coisas, precisava ler, precisava, precisava, precisava… ele falava que eu precisava fazer tanta coisa que não conseguia nem saber por onde precisava começar. E não sabia o que eu precisava realmente fazer. Porque ele me falava que tinha que fazer tantas coisas que eu não sabia para o que dava prioridade. [Se dava prioridade para] o que queria fazer ou todas as demandas dele que eram simplesmente impossíveis de serem seguidas.

Fui me envolvendo tanto nessa pira de ser incrível pra essa pessoa que sumi

Como você se sentia quando sofria esses abusos psicológicos?

Dora: A pior parte, pra mim, foi ir me esvaziando. Terminei o relacionamento e não sabia do que eu gostava, não sabia o que eu fazia… juro pra você que andava na rua e ficava pensando: “quem eu sou? Gosto do meu trabalho? O que tá acontecendo”? [Eu estava] completamente perdida. Essa foi a pior parte: foi perder a minha identidade. Me sentia muito culpada e me sinto um pouco até hoje. Tento tirar a minha culpa, mas é difícil porque a culpa é o meio sabe? Você se culpa por não ser boa o suficiente pra ele, aí depois você se culpa por tentar ser boa o suficiente pra ele, aí você se culpa por ter deixado você entrar nessa situação… mas, na verdade você não entrou. A pessoa é que te abusou. Então, você não tem culpa disso. Me sentia completamente devastada. Sentia que não tinha chão. Nenhum chão. Porque o meu chão se tornou o meu abusador. Então, não tinha chão. O chão me engolia.

Como conseguiu sair dessa? Com ajuda de amigos? Terapia?

Dora: Sair dessa, na verdade, devo tudo a minha mãe, meu pai e meus amigos. Porque, sinceramente, eu não sairia sozinha por nada nesse mundo. A minha mãe teve que intervir, sim, e falar tipo: “Chega. Acabou. Você nunca mais vai falar com a minha filha”. E esse foi o único jeito. Porque, se não, eu juro, ia atrás. Ele terminou comigo e ia atrás. Queria voltar com ele porque não aguentava. Você terminar um relacionamento abusivo não é terminar um relacionamento normal. “Ai, porque todo mundo sai machucado”. Não é assim. O abusado sai destruído. Ele não sai machucado. Ele sai atropelado sem nenhum osso no lugar. Entendeu? Não é “ai, nossa, estou me sentindo mal um pouco”. Não. É “eu não sei o que estou sentindo”. A pessoa some por dentro. Não é qualquer sentimento de término.

O que você diria para uma mulher que está passando por essa situação? Que dica daria para ela sair dessa?

Dora: Primeira dica que eu daria, sem dúvida nenhuma, é: ouça as pessoas que te amam de verdade. É muito louco, mas a gente esquece das pessoas que amam a gente de verdade, os nosso amigos de sempre, os nossos familiares - quando eles tratam a gente bem. Porque tem muitos familiares tóxicos também. Mas, quando você, realmente, tem uma pessoa ali que te ama e ela te fala que aquilo tá errado, ouça.

Como você está hoje? Melhor? Se sente mais segura?

Dora: Hoje, me sinto quase completa. Já faz um bom tempo e, mesmo assim, sinto que eu perdi anos valiosos da minha vida. Não sabia o que estava fazendo. Eu, praticamente, era só um robô da pessoa. Entendeu? O que a pessoa queria que eu fizesse, fazia. E nunca era o suficiente. Nunca fazia academia o suficiente, nunca comia bem o suficiente, nunca era boa o suficiente. Então, fui me envolvendo tanto nessa pira de ser incrível pra essa pessoa que sumi. Então, hoje, [estou melhor] por estar solteira, e por não ter substituído ele por ninguém. Isso é muito importante. Quando a gente tem um abusador psicológico, a gente quer substituir ele por outro e parece que é um vício.

O que te ajudou?

Dora: O que me ajudou, realmente, foi ficar sozinha, solteira e perto de amigos, de familiares e me reaproximar das pessoas que meu abusador fez com que eu me separasse. Fui na festa do meu sobrinho que sou madrinha e ele tinha crescido de uma maneira que não lembrava porque eu, simplesmente, sumi da minha família. Então, realmente, estou me sentindo cada dia melhor porque estou me conectando comigo mesma e esquecendo as coisas que tinha que fazer pra deixar ele feliz.