Viúva de Adriano da Nóbrega revela em delação quem mandou matar Marielle, diz revista

·4 minuto de leitura
Smoke is released in an antifascist act near an image of late human rights activist and councilwoman Marielle Franco, to mark the three-year anniversary of her murder in Sao Paulo, Brazil March 14, 2021. REUTERS/Amanda Perobelli     TPX IMAGES OF THE DAY
Foto: REUTERS/Amanda Perobelli
  • Julia Mello Lotufo deu depoimento no começo do mês

  • Adriano era miliciano e é apontado como líder do Escritório do Crime

  • Promotores indicam fragilidades no relato

A viúva do miliciano Adriano da Nóbrega, Julia Mello Lotufo, teria revelado a promotores do Rio de Janeiro os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), em acordo de delação premiada, segundo revelou a revista Veja. Além disso, Julia detalhou aos agentes a participação de Adriano em diversos homicídios encomendados pela milícia, além de revelar os nomes de agentes públicos que receberam propina para acobertar crimes.

O crime, ocorrido em março de 2018, que vitimou a vereadora e seu motorista, Anderson Gomes, ainda não foi totalmente esclarecido. O ex-capitão da PM Adriano foi apontado como participante do atentado, mas o Ministério Público havia descartado ele como suspeito.

O miliciano foi morto em uma operação da Polícia Militar da Bahia, em fevereiro de 2020. A versão original afirmava que ele morreu em confronto com os agentes, mas a família afirma que ele teria sido torturado e executado. O corpo do ex-PM foi exumado recentemente para nova perícia.

A viúva no momento cumpre prisão domiciliar e usa tornozeleira eletrônica por integrar uma organização criminosa e ter envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro ligados a atividades de Adriano. Ela propôs colaborar em troca da revogação de medidas restritivas. O Ministério Público, no entanto, ainda não aceitou a delação.

Leia também:

Para alguns promotores, há inconsistências no relato e faltam provas para comprovar parte do que foi ouvido. Os anexos da testemunha estão sob sigilo.

Depoimentos anteriores

Em fevereiro de 2020, após a morte de Adriano, Julia prestou depoimento em Brasília. Na época, ela afirmou que o miliciano não participou do assassinato de Marielle e que eles estava apreensivo que as acusações fossem atrapalhar seus negócios, que iam desde grilagem até máquinas de caça níquel, atividades comuns para a milícia carioca.

Em junho, quando já tinha tido sua prisão decretada, a viúva conversou com as promotoras Simone Sibílio e Letícia Emile, que já haviam comandado investigações que levaram à prisão de comparsas de Adriano e integravam, na época, a força-tarefa do caso Marielle. Neste encontro, Julia negou novamente a participação de Adriano no assassinato, mas revelou a identidade do mandante.

Brazilian Prosecutors of the Special Action Group on Combating Organized Crime (GAECO/MOPRJ) of the Rio de Janeiro state Public Ministry, Leticia Petriz (L) and Simone Sibilio deliver a press conference on the murder investigation of Brazilian slain councilwoman Marielle Franco at the Public Ministry's headquarters in Rio de Janeiro, Brazil, on October 30, 2019. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP) (Photo by MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)
As promotoras Leticia Emile e Simone Sibilio. Foto: MAURO PIMENTEL / AFP

Segundo o relato, membros da milícia da comunidade Gardênia Azul haviam procurado o ex-capitão para discutir um plano para assassinar a vereadora, que estaria atrapalhando os negócios da organização criminosa. De acordo com Julia, Adriano teria afirmado que a ideia era perigosa e absurda, principalmente por envolver uma parlamentar.

Quando soube do crime, Adriano teria questionado os colegas e descoberto que a ordem para a execução partiu do alto-comando da Gardênia Azul. Entre os líderes da milícia está o ex-vereador Cristiano Girão. Em setembro de 2020, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Girão e ao PM reformado Ronnie Lessa, que foi preso por participar do assassinato de Marielle.

Ambos são suspeitos de envolvimento na morte de um casal em 2014, ação que teve “características muito peculiares e que se assemelham muito com o que vitimou a vereadora Marielle Franco e seu motorista” de acordo com o delegado Antônio Ricardo Nunes, que chefiava na época o Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa.

No dia 8 de julho deste ano, com os anexos de colaboração já redigidos, Julia se encontrou com o promotor Luís Augusto Soares de Andrade, quando repetiu que Adriano sabia da conspiração para matar a vereadora e o nome do mandante.

No dia 10, o MP do Rio divulgou que as promotoras Simone Sibílio e Letícia Emile deixaram a força-tarefa do caso Marielle, depois de trabalharem nas investigações desde setembro de 2018 e atuarem na prisão dos executores do crime, os ex-PMs Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz. Elas teriam reclamado de interferência externa na investigação e da fragilidade do relato da viúva.

A proposta de delação de Julia envolve outras suspeitas sobre a atuação de Adriano da Nóbrega, que é apontado pelo MP como miliciano e chefe do Escritório do Crime, uma organização de matadores de aluguel.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos