Viva Lélia

Você já ouviu falar em Lélia Gonzalez? Ela foi uma filósofa e antropóloga, nascida em Minas Gerais e de suma importância para a História do Brasil. Começo com esta pergunta porque só tive contato com suas ideias na PUC-Rio, quando participei da inauguração da sala em sua homenagem. Foi também quando soube que chefiou o Departamento de Sociologia da universidade e que grupos começaram a compartilhar seus textos, esboçando o que daria início aos coletivos negros universitários recentes.

Ainda me questiono sobre como Lélia demorou tanto para chegar à minha vida. Espero que sua experiência tenha sido diferente da minha. Agora, recomendo que corra, leia e veja tudo o que puder a respeito dela. Compartilhar suas obras é uma forma de fazer com que seu legado chegue mais cedo ao máximo de pessoas possível. Beber na fonte de suas ideias é urgente.

Considero Lélia uma leitura essencial para nos inspirar especialmente num ano tão decisivo e complexo como é 2022, em que a discussão sobre democracia e direitos é reacendida em altas temperaturas no Brasil e em várias partes do mundo. Também precisamos pensar em Lélia Gonzalez e no conceito de “amefricanidades” que ela cunhou.

“Amefricanidades” nos diz muito sobre a valorização da experiência e a resistência de pessoas negras e indígenas contra a dominação colonial nas Américas. Importante para todos nós, como indivíduos e coletivos, independentemente da cor da pele.

O pensar de Lélia nos faz vislumbrar a possibilidade de um projeto de Brasil decolonial que consiga ir além de seu complexo de inferioridade.

Lembro de ter visto Angela Davis, conhecida feminista lésbica negra dos Estados Unidos, que, quando ovacionada no Brasil, questionou se fazemos o mesmo ao ouvir sobre Lélia.

Reconhecer a importância e procurar saber mais sobre Lélia e seu legado e outras intelectuais negras e indígenas do Brasil e da América Latina é lutar contra um processo de apagamento, desvalorização e tardio reconhecimento dessas pessoas que vêm sendo parte de um processo histórico que precisamos romper. O que diz muito também sobre olhar para nós mesmos e para nossos vizinhos latino-americanos com um olhar crítico, mas sem a ótica complexada de que tudo deste lado do mundo é ruim e subdesenvolvido. Nos diz sobre valorizarmos nossas raízes.

“Amefricanidades” reforça um projeto afetuoso de Brasil que já está escrito. Não precisamos reinventar a roda. Lélia já nos deu a régua e o compasso. E por falar em projeto, não podemos esquecer que Lélia cofundou o Movimento Negro Organizado e participou ativamente das mobilizações pela constituinte. Lutou por constituição democrática, que versasse sobre direitos universais sem deixar de olhar para direitos de minorias.

Quando falamos das lutas das mulheres, ela também é referência. Não dá para pensar em feminismo sem pensar em Lélia Gonzalez e seu olhar interseccional.

E para quem se pergunta sobre o motivo de uma data como o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, comemorada amanhã, 25 de julho, e reconhecida pela ONU desde 1992, a partir de uma reunião de mulheres negras e indígenas em Santo Domingo, na República Dominicana, Lélia Gonzalez é o caminho. É necessário entender a lógica de um feminismo interseccional, que olhe para mulheres além das brancas, heterossexuais, cis gênero e sem deficiências. O pensamento de Lélia é sempre um convite para ir além das fronteiras em diversas óticas e estarmos em movimento sempre.

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