'Vivas! Porém, esgotadas': especialistas em saúde mental feminina alertam sobre cobranças na pandemia

Colunistas convidadas: Melissa Oliveira, Nicola Worcman e Rachel Gouveia
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Essa semana a nossa coluna quase não saiu. Por aqui também chegamos a uma sobrecarga de trabalho e emoções. Tem sido difícil permanecer no espaço que parece cada vez menor e tanto tempo em isolamento. Como lidar com a exaustão diária das exigências do emprego, do cuidado com as crianças, idosos e doentes, do trabalho doméstico? E as notícias catastróficas? Chegamos a uma marca implacável na realidade brasileira de 300 mil mortos. Cada vez mais o amanhã vai sendo tomado pela incerteza.

O esgotamento que nos toma parece interminável. A criatividade para identificarmos novas possibilidades de cuidado estão acabando. O que fazer com o desfalecimento da esperança, com a angústia de ter que ficar em casa, de não saber o que teremos para comer amanhã e a preocupação de que não há leito, oxigênio e anestésico para os doentes? E para quem, nesses tempos, perdeu alguém próximo por Covid-19? Tudo isso vem produzindo sofrimento e angústia para todas nós.

As incertezas fazem com que algumas de nós fiquem mais em silêncio, enquanto outras são tomadas de uma certa agitação, aceleração. Outras tentam se desvencilhar do sofrimento buscando alternativas para lidar com o luto. Algumas estão com muita raiva: raiva pela injustiça, raiva pelas decisões políticas tomadas (ou não tomadas). Raiva por não conseguir mudar o rumo daquilo que está desmoronando. Outras não conseguem mais, simplesmente, levantar da cama sem que isso seja um enorme esforço. E há ainda quem não tem o privilégio de poder entrar em contato com nenhum desses sentimentos e tem que seguir lutando contra o vírus, lutando pela vida, lutando contra a fome.

Estamos experimentando o lockdown em muitos estados. Essa é uma estratégia sofrida, porém necessária para a contenção desse vírus tão devastador. Vamos pensar nas possibilidades possíveis, dentro de cada realidade, da criação de recursos para a produção de bem-estar para ficarmos em casa? Sabemos que muitas de nós permaneceremos nas ruas, sejam em trabalhos essenciais ou como autônomas lutando pelo pão de cada dia, cada vez mais difícil e às voltas com as contas que não param de chegar.

Nesse momento, é fundamental que cuidemos da saúde mental. Procure ter um momento para si. Realize com a família coisas prazerosas juntos. Tente mover seu corpo, no limite do que for possível. Peça ajuda: com as crianças, com a casa, com as contas. Não está sendo fácil, por isso é importante se dar uma brecha das cobranças internas de fazer sempre do melhor jeito possível. Isso serve para as cobranças com você mesma, mas também com aqueles ao seu redor. Estar arrasada e triste faz parte desse processo. Todas estamos esgotadas, porém seguimos vivas para continuar contando as nossas histórias.

Colunistas convidadas do EXTRA, a psicóloga Melissa Oliveira, a psiquiatra Nicola Worcman e a assistente social Rachel Gouveia formam o coletivo AFETA, que assina este artigo