'Vivemos em universos diferentes', diz economista de Harvard sobre vacinação no Brasil

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*ARQUIVO* Paraty, RJ, 30.06.2016 - Maxwell economista de Harvard.  (Foto: Keiny Andrade/Folhapress)
*ARQUIVO* Paraty, RJ, 30.06.2016 - Maxwell economista de Harvard. (Foto: Keiny Andrade/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Tenho consciência de que é como se a gente vivesse em universos diferentes", disse o economista norte-americano Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, em referência aos desdobramentos da pandemia no Brasil.

"Nos EUA, a pandemia está praticamente acabada. Muitos estados americanos estão com estádios cheios e a vida voltou ao normal", diz.

O ex-economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional) falou no evento do Bradesco BBI, na 12ª London Conference para investidores internacionais, transmitido por meio de uma plataforma digital.

Em sua apresentação, ele comentou dados de maio da OCDE (conhecido informalmente como o clube dos países ricos) mostram que o PIB (Produto Interno Bruto) per capita do Brasil ainda vai levar ao menos um ano para voltar ao patamar de antes da pandemia.

"O Brasil conseguiu recuperar o seu PIB pré-pandemia no primeiro trimestre, mas ainda vai levar mais de um ano para voltar ao PIB per capita [uma das formas de medir o padrão de vida] de antes", diz.

Entre os emergentes, a recuperação do padrão de vida do brasileiro deve ficar atrás da China, Turquia, Rússia, Chile, Índia e Indonésia.

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Previsão de recuperação do PIB per capita de emergentes

2020:

China e Turquia

2021:

Rússia, Chile, Índia e Indonésia

2022:

Brasil e Colômbia

2023:

Costa Rica e México

Fonte: OCDE

"O Brasil teve uma recessão grave em 2015 e 2016 e a recuperação agora é lenta. Mas, ainda assim, estou surpreso com a resiliência dos mercados emergentes, embora ainda não tenhamos certeza do que virá pela frente, pela natureza incomum da crise."

Ainda assim, ele prevê uma recuperação mais robusta do que se antecipava antes. "Sei que o Brasil tem tido um desempenho desapontador durante a pandemia, as vacinas vieram com atraso para o Brasil, o que fará com que o país demore a chegar ao mesmo lugar que EUA ou Europa, mas prevejo um crescimento ao redor do mundo mais rápido [do que se antecipava]."

Do ponto de vista global, Rogoff avalia que houve um grande empurrão macroeconômico, com pacotes de incentivo por parte dos países desenvolvidos e avanço na vacinação. Ele ressalta que os dados atuais mostram que a maioria da população de países emergentes não estará vacinada antes de 2022.

A pandemia fez com que os governos de países desenvolvidos tomassem atitudes que eram inimagináveis antes. O Fed (banco central norte-americano), por exemplo, começou a dar suporte para orçamentos municipais, por exemplo.

Sobre o endividamento dos países, ele lembra que o FMI ressaltou a importância do bom manejo dos juros e olho na dívida pública. "O problema é que a dívida não reage muito rapidamente, como a taxa de juros. Mas poucos países conseguem manter a taxa de juros em 2% ao ano por três anos."

Em relação à inflação, que vem preocupando governos ao redor do mundo desde o começo da pandemia, o norte-americano avalia que a pressão sobre os preços deve durar até o meio do ano que vem.

Durante a pandemia, a política fiscal deveria fazer o que fosse necessário, pois estávamos em guerra, disse. "Em cinco ou dez anos, porém, acredito que a inflação não vai ser um problema nas economias desenvolvidas."

Como efeitos de longo prazo, ele lembra que a pandemia pode mudar a composição das cidades em muitos países. Nos EUA, os aluguéis em Nova York e em São Francisco colapsaram, enquanto as cidades médias e pequenas vivem um boom imobiliário.

Rogoff disse, ainda, que a desigualdade sempre foi uma preocupação dos políticos progressistas nos EUA, mas apenas nos limites da fronteira do país. "Mas isso está mudando, o mundo está percebendo que não adianta combater a desigualdade isoladamente."

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