'Vivi para contar': 'Ela chora e me pergunta se é feia' diz mãe da menina vítima de ofensa racista

No sábado à noite, por volta das 6h, minha filha estava no parquinho perto de casa, brincando. Eu tinha acabado de chegar do serviço e estava no portão. Essa mulher mora em frente à minha casa. Eu a vi passando para a rua de trás, onde a menina estava, mas não sabia o que ela ia fazer. Ela falou para minha filha que ela tinha inveja da filha dela, que é branca, que a filha dela tinha coisas melhores do que a minha e que que minha filha era preta. Falou muita coisa. Assim que ela acabou de falar isso, veio todo mundo me avisar. Aí eu chamei ela, que discutiu comigo e continuou fazendo ofensas e me xingando. Todo mundo aqui da rua viu. Um amiguinho da minha filha, que tem 8 anos, é que gravou o vídeo com o celular dele. As crianças daqui são muito espertas, vivem no Tik Tok. Até ele percebeu que o que a mulher fez era errado e disse pra mim "Tia, se eu fosse a senhora botava na Justiça, porque isso é feio".

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A garota é uma ótima pessoa. A mãe é que não presta. A menina é amiga da minha filha e elas costumavam brincar juntas. Eu tenho vídeo delas. Já veio a festa na minha casa. Não sei por que a mãe dela agiu dessa forma. As duas estavam brincando e ela colocou a filha dela para dentro. Acho que foi implicância mesmo, porque não é a primeira nem a segunda vez que ela faz isso. Foi a terceira vez (que a mulher impediu a filha de brincar com a outra menina).

Dizem que ela é maluca, mas até onde sei ela não rasga dinheiro e sabe muito bem ofender as pessoas. Meu sentimento como mãe é de tristeza e revolta. Minha filha às vezes chora, e eu também, e me pergunta se é feia, porque ela falou que minha filha tinha inveja da dela que é mais bonita. Estou querendo justiça, porque isso não pode ficar assim. E também para ela não fazer isso com mais ninguém. Minha filha é uma pessoa boa, brinca, a criançada toda gosta dela. Agora, quase não sai de casa e, por causa dessas coisas, não tem ido nem à escola. Ficou insegura, tem medo de sofrer bullying dos coleguinhas.

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A diretora deu cinco dias para ela ficar em casa. Disse que ela só precisa voltar para as aulas na segunda-feira, se até lá estiver bem. Isso afetou muito minha filha. Depois do que aconteceu, ela não foi mais à pracinha brincar com as outras crianças. Esse tipo de coisa mexe muito com a cabeça da criança. É uma coisa que não é boa para ninguém. Até pensei em levá-la num psicólogo, mas não tenho condições financeiras. Mas eu vou dar um jeito, porque é ruim. Ainda mais no caso dela, com 9 anos e já sofrendo esse tipo de coisa.

Eu estava no portão, tinha acabado de chegar da faxina. Ela me viu ali. Por que não foi falar comigo? Preferiu ir direto na menina. Achei uma falta de respeito. Ele deveria ter falado comigo, se minha filha fez alguma coisa de errado. Eu perguntei à filha dela o que a minha tinha feito e a garota respondeu que não tinha feito nada. Mas, mesmo que tivesse feito, não dava o direito de fazer uma ofensa dessas. No dia em que fui à delegacia, o delegado não estava e pediram para eu voltar depois. Não vou deixar isso barato. Vou levar adiante, para ela aprender a respeitar a filha dos outros, assim como a dela é respeitada. Ou é só porque a minha é preta? isso não pode. Ela também é humana. Vou procurar a Justiça também.

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Ninguém jamais falou nada parecido comigo. Aqui todo mundo me conhece e gosta de mim. Moro em Senador Camará praticamente desde que nasci. Todos me conhecem, brincam comigo, zoam, dão presentes para meus filhos, até porque eles são muito educados. Tenho mais três filhos e ela é a mais velha. Eles não xingam nem falam palavrão e respeitam os mais velhos. É horrível que ainda exista racismo. Esse tipo de coisa tem de parar senão, daqui a pouco, vai ficar pior. Se não botar um freio nisso, a tendência é só piorar. Hoje foi com minha filha, amanhã vai ser com outra pessoa e isso não vai parar nunca. Acho isso horrível.

Somos vizinhas, ela mora na casa em frente à minha, mas a gente não se viu mais depois do ocorrido. O marido dela é que veio me pedir desculpas e até chorou. Disse que o que a esposa fez não estava certo. Como mãe, fiquei muito triste com esse episódio. Foi com uma criança. De certa forma, isso serve também como aprendizado. Para a gente não deixar repetir. Não é porque temos a pele escura que temos de ser ofendidos. Isso precisa acabar. Também somos humanos, somos gente.

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É preciso aprender a respeitar. Isso foi muito ruim. Está sendo ainda. Ontem, uma mulher, também negra, me parou chorando e me aconselhou a não deixar passar em branco ou vamos perder o respeito, e chorou comigo. Umas trinta pessoas já vieram prestar solidariedade, ver se minha filha está precisando de alguma coisa, dar um abraço nela e dizer que ela é bonita. O que aconteceu traumatiza uma criança. Ela chora e me pergunta se é feia. Eu respondo que ela é linda.

Esse apoio das pessoas é que me conforta. Dá a certeza de que tem gente que gosta de mim. O racismo precisa acabar.

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