'Vivi para contar': 'Enquanto eu era puxada, só pensava em Deus'

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Nasci em Recife, Pernambuco. Cheguei no Rio de Janeiro com 10 anos e hoje vou fazer 72. Vim com a minha mãe e com a minha irmã mais nova. Nove meses depois, meu pai veio atrás. Viemos morar em Nilópolis, com um sonho de mudar de vida. Toda vez que uma pessoa vem do Nordeste, ela tenta mudar de vida. E acaba que não muda nada.

Meu pai era servente de pedreiro, analfabeto. Minha mãe era semianalfabeta. Ela sabia ler, mas não entendia o que estava escrito. Eu estudei até o primeiro ano do segundo grau. Me casei, ainda no ensino médio, com 24 anos, e continuei morando na Baixada. Fui casada duas vezes.

Com o meu primeiro marido, tive dois filhos: o Alex eu tive com 24 anos, e o Brener, com 27. Eles são meus xodós. Em seguida, me divorciei e casei com o segundo marido. Com esse não tive filhos.

Trabalhei em escolas, em várias coisas — eu não parava — para criar os meus filhos. Sou batizada na igreja evangélica; vai fazer 12 anos em junho. Aqui na Pavuna eu moro há quatro anos.

No dia do acidente, a gente vinha de Cabo Frio, de um aniversário. No dia, foi tudo bem. Mas, antes de ir, parecia que tinha uma coisa me avisando para eu não ir. O meu filho falou para eu ir, pra me distrair um pouco. Naquele dia, eu queria ficar em casa. Como estou com um processo de operação da minha vista direita, já fiz quatro cirurgias e sempre dá problema na catarata, eu não estava animada para sair. Mas fui assim mesmo. Foi bom, porque eu acabei me distraindo. Só que, na volta para o Rio, aconteceu essa tragédia.

Na volta, por incrível que pareça, a minha netinha falou: "Vó, não coloca o cinto, não". Mas eu falei: "Tem que colocar, Kimberly, porque o carro fica apitando". Parecia que ela estava adivinhando, né?

Eu me lembro de tudo que aconteceu. Quando o meu filho parou no sinal para vir para o lado de cá (da Pavuna), pensei: aqui é perigoso de parar, tem muito assalto. Quando eu acabei de pensar, o revólver já estava no ouvido dele. O cara gritava: "Desce, tia, desce, tia". Ele gritava e eu, nervosa, sem conseguir tirar o cinto. Eles desceram e a minha nora ficou discutindo com ele fora do carro. Ele disse que ela estava atrapalhando. Tudo isso a minha nora me contou depois, porque eu estava dentro do carro tentando tirar o cinto.

Penso que tirei o cinto, mas depois me enrolei de novo nele. Não sei como foi, não sei contar. Aí, quando eu vi, já estava sendo arrastada. Enquanto eu era puxada, só pensava em Deus. Só gritava e clamava a Ele. "Eu vou morrer, meu Deus! Meu Deus, me socorre. Deus, só o Senhor por mim. Eu sei que eu não mereço nada do Senhor, mas me socorre, meu Pai". Só clamava, só clamava. De repente, o cinto soltou e eu caí para o lado. Eu poderia ter caído debaixo do pneu, não poderia? Acredito que foi Deus que me salvou.

Esses dias no hospital foram um sofrimento, porque fazer os curativos dói muito. Dói tanto, ela sabe (apontando para uma cuidadora) como sofro. Mas hoje (sábado) doeu pouco, porque ela fez com mais cuidado. Era de gritar de dor quando eles puxavam as gazes. Fora isso, eu fico bem, entendeu? Eu fiz a cirurgia neste braço (direito) e estou bem. Sinto dor, mas estou tomando remédio. Na hora dos curativos é que é o sofrimento. Eu queria que passasse isso logo.

Me sinto aliviada com tudo o que a polícia fez. Eu queria vê-los (os bandidos) presos. Não tenho raiva deles, não desejo que aconteça com eles o que aconteceu comigo. Mas quero eles presos. Eles têm de pagar o que fizeram. Não podem fazer o que fizeram e ficar impunes, ou farão com outras pessoas. Prendem eles, mas depois eles fazem de novo. Imagina se não punir.

Não quero voltar para o Recife, mas penso em me mudar da Pavuna. Ainda não sei. Talvez eu vá para Irajá, onde meu filho mora. Por causa da insegurança, e também porque não quero mais passar pelas ruas onde tudo aconteceu. A gente fica chateado. Já quase em casa, pertinho, e acontecesse isso. É muito chato e desagradável.

A minha neta (de 7 anos) viu isso tudo. Ela ficou meio triste, meio murcha, meio chateada. O meu neto também. Ele nem quis ir ao hospital. Ele só veio me ver ontem, depois do acidente. Ele dizia: "Eu vi a minha avó sendo arrastada. Não quero vê-la toda machucada no hospital".

Acredito muito em Deus. Se eu não acreditar nele, vou acreditar em quem? Ele é único. No hospital, eu fiquei direto conversando com Ele. Orando. Vivo conversando com Deus. Minha vida toda é assim.

Sou aposentada. Me aposentei com 60 anos. Minha igreja (Igreja Batista) é muito grande, sabe? Então, não dá para fazer muitas amizades. Mas conheço todo mundo, me dou com todo mundo. Tem gente que está orando por mim e nem me conhece. Por aí, você vê que gostam de mim.

Depois que eu ficar bem quero viajar, distrair a minha cabeça. Eu renasci. Com Deus, a gente sempre renasce. Já li a Bíblia quatro vezes, do começo ao fim. Cada vez que a gente lê, aprende mais e mais.

Vou passar a Páscoa com os meus netos e meus filhos. A minha nora é a responsável pelo cardápio. Não me falaram o que terá para comer, mas eu sou boa de boca.

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