Vivi para contar: ‘A maratona me deixou cansada, imunda e em estado de graça’, conta jornalista

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RIO — A manhã da última segunda-feira nasceu em azul, rosa, laranja e lilás. Raridade para novembro, o termômetro na Marina da Glória marcava 17 C às 5h. Com o Pão de Açúcar ainda mergulhado na sombra da noite, vindos de todo o Brasil, os participantes da Maratona do Rio 2021 chegavam para a largada da primeira grande prova de corrida de rua do país desde o início da pandemia de Covid-19.

O cenário estava pronto e prometia espetáculo para uma prova que desafia corpo e mente, mas recompensa a alma. E que desta vez era mais especial. Todos ali, vacinados com duas doses, esperavam por seu momento de redenção. A pandemia não acabou, mas eles estavam de novo tomando as rédeas de suas vidas e celebrando a saúde.

A visão da arena da prova, linda, me deu um aperto na garganta. Se alguma coisa falhasse ali, seria eu mesma. Pois, para quem não é atleta profissional, maratonas são desafios à capacidade de cumprir metas pessoais.

E chegara o momento do teste que eu própria havia estabelecido para me libertar do peso de três anos conturbados, nos quais não participei de provas de corrida, minha paixão. Já tinha feito dezenas de provas, entre elas sete maratonas e uma ultramaratona, mas desta vez queria só completar, nem que fosse a última a chegar.

Tenho 54 anos, sou jornalista há 33 deles e gosto de correr desde que me entendo por gente. Nunca tive um perfil adequado à corrida, mas isso tampouco me impediu de treinar feliz. Sou alta (diferentemente do que muita gente pensa, os baixos e leves são talhados para a longa distância) e nos desditos últimos três anos engordei devido a quatro cirurgias (inflamação na pele, não relacionada à corrida) e à quase interrupção dos treinos, por uma série de motivos pessoais e profissionais.

Foram três intensos anos que incluíram coberturas como a do desastre de Brumadinho, queimadas no Pantanal e na Amazônia e, desde março de 2020, a rotina das UTIs da pandemia de Covid-19. Sou mãe, filha, mulher, irmã e amiga e, como todo mundo, também sofri com a pandemia direta e indiretamente.

Pesada e sedentária considerei que precisava respirar, me libertar de um estresse tóxico agravado pela pandemia. Precisava recobrar as forças. E vi luz na maratona porque ela ajuda a condicionar corpo e cabeça, sem margem para muita negociação. Maratona é resiliência, que serve para tudo na vida.

É consenso que a corrida, como qualquer atividade física, faz bem para a saúde. Mas ela vai bem além. Proporciona condicionamento mental e ajuda a liberar a tensão do estresse. É como meditar em movimento. Era sobretudo isso que eu buscava. E queria em dose reforçada.

Graças à evolução da ciência do esporte e da medicina, quase qualquer pessoa determinada consegue se preparar para uma maratona. Em 2018, último ano com estatísticas, 1.298.725 pessoas concluíram maratonas em todo o mundo, segundo o site RunRepeat, do estatístico Jens Jakob Andersen.

O percurso de 42.195 metros não é uma floresta assombrada por bichos-de-sete-cabeças. Mas é preciso determinação e disciplina. Questão de compromisso.

A bem conhecida — entre corredores, claro — frase do maior corredor da atualidade, o queniano Eliud Kipchoge é verdadeira: “Somente quem tem disciplina na vida é livre. Se você não tem disciplina, é escravo de seus humores e paixões.” Basicamente, se mantenha no controle de sua vida. O treino para a maratona testa tudo isso.

Você terá que encontrar tempo para correr pelo menos três vezes por semana. Terá que sair da cama cedo faça chuva ou sol, frio ou calor. Precisará de orientação de um profissional de educação física altamente competente para planejar um treino que proporcione ganho de volume e velocidade sem aumentar o risco de lesões. A máxima “no pain, no gain”(sem dor, sem ganho) é verdadeira, mas não precisa ser suicida.

Enfrentará a tensão de correr em lugares expostos a contratempos, como ataques de cães e o medo de assaltos. Precisará driblar buracos no asfalto, lama em estradas sem calçamento, capim alto onde deveria haver acostamento.

Descobrirá que musculação é essencial e que sem ela seus joelhos vão lhe deixar na mão e sua coluna tornará seus dias miseráveis. Mas se sua meta é a maratona, para ela só puxar peso não basta. Saberá que fortalecer músculos de sustentação dos quais nunca ouviu falar será decisivo. “Seu iliopsoas é fraco”...

Na reta final, a semanas da prova, se resignará que precisa ainda de fisioterapia para dores causadas pelo estresse e refletidas pelo corpo todo, até nos dedinhos das mãos.

Quanto mais anos tem, mais precisará treinar e se esforçar. Mas isso também não é desculpa, a prova tem a categoria para acima dos 80 anos e ela nunca fica vazia. Velhice, nos ensinam veteranos maratonistas, não é sinônimo de preguiça.

A balança no banheiro será uma visão do inferno e a nutricionista se tornará mais temível que o dentista. Na sua folga, enquanto todos pensam em fazer um churrasco à beira de uma piscina, você se animará com um treino poeirento durante toda a manhã, premiado com a visão de uma represa — é só para ver, mergulhar iria interromper seu treino.

E, ao menos para mim, nenhum peso, abdominal ou buraco se mostrou mais difícil de superar do que dominar o estresse e focar no treino mental, me dar o direito de por alguns preciosos momentos desconectar de tudo para me conectar a mim mesma.

Nesse ano de pandemia feroz, que começou sem vacinas suficientes, havia o extra da tortura dos adiamentos de provas, uma incerteza corrosiva para quem precisa de planejamento.

Tudo isso desaguou na segunda-feira passada. E lá estava eu acompanhada de milhares de outras pessoas que também se prepararam e enfrentaram seus próprios desafios. Em tese, é uma competição, mas as corridas e a maratona em especial têm uma camaradagem e uma cumplicidade que atenuam muito a ansiedade. Pessoas que você nunca viu trocam experiências e lhe desejam boa prova.

Soa a largada, agora partiu maratona. Adrenalina em alta. A prova segue pelo Aterro do Flamengo rumo à região portuária, dá uma volta no Museu do Amanhã, parte para o AquaRio, onde há um retorno. Tudo ainda fresquinho, tranquilo e favorável. Os corredores seguem em grupos mais ou menos coesos, vão passando pela Candelária, Praça XV. De volta ao Aterro, pouco mais de 10 quilômetros se passaram. Alguns corredores brincam, todos sorriem para fotos. O pessoal da elite já voa longe, mas a massa anônima segue cada um no seu ritmo, cada um na sua meta.

É mais ou menos por aí que a poção mágica de endorfinas e endocanabinóides que nosso corpo produz em resposta ao exercício começa a se manifestar. O esforço aumenta. Corre, corre que eles vêm. Os bairros da Zona Sul vão ficando para trás. O Sol se anima e o termômetro também. Mas o chamado “runner’s high”, o efeito de êxtase da poção mágica natural que ativamos com exercício, também cresce e nos faz avançar.

Chega Copacabana, com suas pistas largas e sem sombra. Uma meia maratona foi percorrida. E é aí, como me ensinou meu treinador Ricardo Sartorato, que sabe tudo de longa distância, que você vai saber o quão afiados estão os dentes da fera.

Estava tudo bem. Fera mansa. Em frente. Checo mentalmente tudo. Pés, ok. Coluna, ok. Joelhos, tranquilos. Como corri apenas com o objetivo de fechar a prova dentro das 6 horas de tempo limite, corria sem pressão e sem forçar muito. Mas para quem almeja velocidade, pode ser cruel, extenuante.

O treinamento nos assegura saber o que esperar. E eu esperava calor. A maratona é do Rio e é claro que o calor marcou presença. Muita água para beber e na cabeça. Gel de carboidratos a cada sete quilômetros, para repor os nutrientes perdidos. Isotônico para garantir sais. Ignorar esses cuidados pode colocar tudo a perder.

Leblon e Ipanema, quilômetro 30, mais uma barreira vencida. Nessa altura o ‘runner’s high” está a toda. É estado de graça. Deu até para ser criança e fazer o aviãozinho que todo corredor, mesmo que não confesse, ama fazer de vez em quando. Micos são permitidos e foram aplaudidos por um público que esteve mais simpático e solidário do que nunca. Pessoas na beira da ciclovia gritavam “corre por mim, não desiste. Parabéns”. O êxtase supera o cansaço.

E Copacabana reaparece de novo, com a sua grelha de corredores desta vez em fogo alto, para assegurar que todos ficaram bem tostados. Feita uma volta no Leme, faltavam apenas seis quilômetros, mas eles pareciam os mais longos da minha vida. Foi aí que a distância cobrou o preço mais alto.

Tento ir mais rápido, mas um grilhão invisível me segura. Se meu corpo não dói — graças a treino e fisioterapia — por que não consigo correr mais depressa? Sinto raiva de mim mesma. Mas, na verdade, exaustão e ansiedade se unem nesse grilhão imaginário.

Uma moça do staff da prova me oferece paçoca que aceito sem lembrar que detesto paçoca. Fico com ela na mão, já meio esmigalhada. Mais irritação ainda. É a distância, eu sei.

Cansada, molhada de água e suor e agora melada de paçoca. O glúteo médio lateral — outro músculo que passamos a conhecer bem em treinos de estabilidade — começa a incomodar e depois, a doer. O ignoro.

A lombar dá sinais de que quer causar problemas. Tento não pensar nela. Dor é um mecanismo de defesa, ela está dando um sinal, estou preparada, não vou lesionar. E, logo, prossigo. Sigo movida pela imaginação do pórtico de chegada. Nunca quis tanto estar na Marina da Glória.

Livre de Copacabana e sua grelha. Enseada de Botafogo cumprida. Três quilômetros para a chegada. Nem me sinto tão cansada, corri lentamente como planejado, mas percebo que a exaustão não me esqueceu.

O Aterro finalmente chega como a visão do Paraíso. Não tem sombra, mas quem precisa de sombra quando a linha de chegada já se torna um ponto no horizonte. Meio quilômetro para o fim. E então, o funil de chegada, meu filho, nora, amigos queridos comemoram. Chego junto com um rapaz com o sorriso mais feliz do mundo. Percebo que o meu não é diferente. Nos cumprimentamos efusivamente.

O cansaço é grande. Foi penoso. Estou imunda. E intensamente feliz. A sensação não é de superação. É puro estado de graça.

Toda maratona traz uma mensagem. Reza a lenda que a primeira foi a do soldado Fidípides, que correu 42 quilômetros, para comunicar aos cidadãos de Atenas a vitória dos gregos sobre os persas na Batalha de Maratona. Fidípedes morreu de exaustão. Passados mais de dois milênios e meio, os 42.195 metros das maratonas continuam a carregar mensagens. Elas ainda nos falam de vitórias. Mas diferentemente do soldado morto, transbordam de ciência, conhecimento e vida.

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