Vivi para contar: ‘Tatuei o nome dos meus médicos na perna, estou viva graças a eles’

Em setembro de 2021, eu estava de férias, tinha comprado uma bicicleta e fui da Reserva até o shopping Leblon, no Rio, pela ciclovia Tim Maia. Na volta, pelo lado direito, numa curva de 90 graus, me distraí e, como não tinha proteção, despenquei sete metros sobre a pista. Um carro freou em cima de mim, o que estava atrás dele foi para o lado e formou uma barreira para que não me atropelassem.

Dois policiais civis que trabalhavam numa escolta me socorreram. Lembro que um deles segurava minha mão e eu pedia para ele não me deixar sozinha. Eu chorava muito, e falava nos meus dentes. Sempre fui muito vaidosa, sabia que estava muito machucada, mas não tinha dimensão do que tinha acontecido comigo. Quebrei o fêmur, o cóccix, o púbis, o quadril, o maxilar em oito partes e o ombro. Meu céu da boca afundou e meus dentes subiram. Perdi tanto sangue que precisei de transfusão.

Fui socorrida no Hospital Miguel Couto e transferida para o Hospital Badim. No dia seguinte fiz uma cirurgia do fêmur, com o Dr. Pedro Badim, e depois uma outra, de quatro horas, no maxilar, com o Dr. Marcos Badim.

No dia seguinte às cirurgias, tive uma embolia pulmonar e quase morri. Aí fiquei 14 dias no CTI. Desses dias não lembro de nada, só da dor, pedia para Deus me levar de tanta dor que sentia. Sempre fui uma pessoa muito ativa e tinha medo de não poder andar nunca mais. Também não sabia como ia ficar meu rosto.

Quebrei muitos dentes e para recuperar precisei fazer seis canais, até hoje tenho dificuldade de comer carne, porque minha mordida ficou torta.

Presa no sofá

Fiquei 45 dias com uma contenção, o maxilar imobilizado por ferros por dentro da boca. Só tomava líquido na seringa. Quando tirei, queria comer uma batata frita, mas ainda não conseguia. Fiquei subnutrida. Com 1,65m, cheguei a pesar 47 quilos.

Quinze dias depois de ter saído do hospital, decidiram operar meu quadril porque minha perna estava ficando com 3 cm de diferença da outra. A intenção inicial era que a recuperação ocorresse pelo método conservador já que a cirurgia tinha riscos: passam muitos nervos na região do sacro. Além disso, se quisesse ter filhos seria complicado. Foi desesperador porque estava começando a recuperar meus movimentos. Mas operamos.

Fiquei sem andar, deitada no sofá da sala, onde vivi por quatro meses. Tomava banho na varanda, usava fralda, que não dava conta do xixi. Fiquei sem defecar quase 20 dias, doía muito e havia o constrangimento. Era muito humilhante. Vivia chorando, entrei em depressão. Você, que é independente, de repente se vê dependente para tudo.

Eu não recebia ninguém em casa por minha aparência e porque estava de fralda. Estava muito debilitada e tinha medo da Covid, então acabei ficando muito isolada.

Tenho um filho de três anos. Quando cheguei em casa, toda desfigurada, com a boca preta, cheia de pontos, meu filho ficou assustado e teve medo. Foi a pior sensação que tive na vida. Ele ficou muito carente esse ano, agora está voltando ao normal. Mas se eu chego tarde, tem medo de eu não voltar. A sorte é que meu marido foi muito parceiro.

Fui fazendo fisioterapia e voltei a dormir na cama em dezembro. Meu primeiro banho de chuveiro foi na cadeira de plástico. Quando fiz cocô no vaso, foi a melhor sensação da minha vida! Em janeiro, já andava um pouco mais, mas sempre com dor. Em fevereiro, o médico me liberou para fazer atividade. Não aguentava mais ficar em casa sem fazer nada. Como sempre quis surfar, comecei a fazer bodyboard numa escolinha. Me ajudou muito por causa do movimento do quadril na água e por estar em contato com a natureza. Em maio acabou minha licença médica e voltei a trabalhar.

Nesse tempo todos já estavam impressionados com minha recuperação. Hoje, era para estar andando com passos pequenos, mas eu sou um caso atípico porque ando normal, até uso salto. Dirijo carro automático, faço natação, bodyboard e musculação. Se eu falar que não sinto dor, é mentira, mas tenho que ser mais forte do que isso. Em nenhum momento aceitei minha condição. Às vezes a gente acha que é o fim do mundo, mas depende da nossa força de vontade.

Gratidão

Sou muito grata. O Dr. Marcos conversava comigo, me contou sobre quando o hospital pegou fogo e chorou. Em nenhum momento ele desistiu do hospital. Assim como em nenhum momento eu desisti da vida. Eu falava que ele era meu anjo, porque sempre foi carinhoso, atencioso. Desenvolvemos uma relação de afeto que até me emociona.

Quando fiz a segunda cirurgia do quadril, eu pensei: “tenho dois anjos aqui. Vou fazer uma tatuagem, porque se estou viva é graças a eles”. Sou católica e o anjo representa muita coisa na religião. Peguei o B do sobrenome deles e usei para as asas. Foi no fim de novembro, eu estava de andador, e fiz na perna que quebrou. Nunca tinha feito uma tatuagem, foi minha primeira. Dr. Marcos falou que aquela homenagem não tinha preço. Ele diz que sou um ponto fora da curva, pela minha vontade de viver.

Fiquei desfigurada, mas agora ele vai terminar de melhorar a obra de arte que fez, porque foi milagroso. Vou fazer mais uma cirurgia reparadora justamente nesta semana. Meu rosto está melhor, quem olha nem diz, mas para mim está torto. A questão do sorriso também me incomoda ainda.

As pessoas falam que sou surreal por estar do jeito que estou. Me sinto empoderada. Acho que posso tudo. Hoje eu quero viver como se não houvesse amanhã, não tenho medo de nada, faço as coisas mesmo, vivo com 1% de juízo, porque ninguém sabe o que passei naqueles quatro meses no sofá.

*em depoimento a Constança Tatsch