'Você talvez seja mais importante do que o secretário de Segurança Pública', disse secretário preso em conversa com traficante Marcinho VP

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Nas escutas ambientais autorizadas pela Justiça, feitas dentro do Presídio Federal de Catanduvas, no Paraná, quando o secretário de Administração Penitenciária do Rio, Raphael Montenegro, visitou dez detentos que cumprem pena na unidade, alguns diálogos se destacam na visão dos investigadores federais. Com o chefe da principal facção crimosa do Rio, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, que está preso há 25 anos, Montenegro compara o poder do criminoso ao de um "secretário de segurança". As entrevistas com os presos aconteceram nos dias 27 e 28 de maio deste ano. Já em conversa com Luiz Claudio Machado, o Marreta, o secretário diz que sabe que os presos falam à vontade pelo celular na cadeia.

Veja os principais trechos das conversas entre Raphael Montenegro e os traficantes.

Em uma das conversas interceptadas, Montenegro exalta Marcinho VP: “Você o é um cara que, porra, talvez você seja o cara mais importante do que o secretário de Segurança Pública no Rio.” O cargo já não existe no estado do Rio desde janeiro de 2019, quando a Secretaria de Segurança foi extinta pelo então governador Wilson Witzel.

Marcinho VP faz uma análise de como ele vê o sistema penitenciário: "O que acontece... O Sistema Penitenciário Federal na realidade, assim, ele ao invés de ter sido um mecanismo de combate ao crime, ele foi um estímulo ao crime na verdade…”.

Em outro trecho, Montenegro volta a exaltar Marcinho VP e diz que respeita a história que ele construiu e o "mérito" que ele tem de ser respeitado.

“Hoje, você, você é um cara fundamental lá, (...) você é um cara fundamental nessa virada de cultura, você é o cara que hoje fala pela maior facção do Brasil, e assim, a gente não sabe cara, e tá tudo certo... Mérito seu a gente respeita isso, uma história que você construiu, sabe você a que custo, sabe você o quanto custou construir o nome do Marcinho VP (...) Porra, quinze anos aqui e você ainda fala pela Facção, porra, é mérito pra cacete! E a gente respeita isso, como respeita não só o Márci homem, mas o Marcinho VP, o Marcinho VP, o traficante, esse cara tem que ser respeitado, a gente respeita por tudo que você construiu, agora, a gente quer que o Márcio, como homem volte, e volte num espírito cooperativo.”

A linguagem vulgar usada pelo secretário, segundo os investigadores da Polícia Federal e o Ministério Público Federal, também foi bastante criticada, uma vez que Montenegro é advogado e ocupava, até então, o mais alto cargo da pasta. Em certo trecho da decisão do Tribunal Regional da 2ª Região, as conversas são definidas como "escusas" e demonstram "a tentativa do secretário Estadual de Administração Penitenciária e seus assessores de fortalecer, cada vez mais, a facção criminosa".

Em outro diálogo, desta vez com Luiz Claudio Machado, o Marreta, o secretário diz que sabe que os presos falam à vontade pelo celular na cadeia. No caso de retorno deles do Paraná para o Rio, os detentos teriam seu espaço garantido na cadeia e que haveria algumas apreensões de telefones. No entanto, explica ele que "ninguém quer dinheiro". O secretário foi informado que havia escuta ambiental na unidade e que todas as conversas eram gravadas:

"Eu não vou falar para você que não vai entrar telefone, vai entrar! Agora, mas também tem o seguinte, eu vou tentar segurar esse telefone, e vou dar geral. Assim, a gente dá esse espaço pra facção, tipo assim, dá espaço pra todas facções, não especificadamente o Comando. A gente dá esse espaço pra facção, mas a gente não quer nada de vocês cara. Não tem sacanagem, ninguém quer dinheiro, ninguém quer porra nenhuma de vocês. Agora, a gente quer cobrar, a gente quer, a gente quer sentar olhar, olho no olho, e poder cobrar".

Em outro momento da conversa, Montenegro diz que a ideia é usar a volta dos presos das unidades federais para mostrar que a maior facção criminosa do Rio não é mais de guerra e afirma que é mais lucrativo para a facção não viver em confronto com outras quadrilhas.

“(...) A gente sabe disso (...) e a ideia, a ideia é a gente usar essa possibilidade de vocês voltarem exatamente para mostrar isso, não só entre nós mas pros caras lá fora, mostrar que assim o Comando não é mais aquele comando da guerra, o comanod quer vender as parada dele e tá tudo certo, e ter o lucro dele, que é mais barato pra vocês não ter guerra. Se vocês não precisarem de 400 fuzis, tiverem só 100, para se defender, o lucro é maior pô(...)”

Em conversa com o traficante Cadu Playboy, o então secretário afirma que para ele pouco importava se o traficante ia continuar com suas atividades ilícitas depois de voltar para o Rio, importando apenas seu comportamento no cárcere e se sua atuação no tráfico chamaria atenção das autoridades. O criminoso é um dos chefes do tráfico na Região dos Lagos do Rio.

“Então, tranquilo. Vou te falar, pra gente não faz a menor diferença. Você não vai deixar de comprar, de ter seu espaço lá. A tua vida pra fora do muro é outra parada. A gente não tá preocupado. A nossa preocupação é: O Cadu voltando vai tocar o terror na Região dos Lagos? ”, afirmou o secretário.

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