'Você não estudou história?': o ensino do período da ditadura nas escolas

Garrastazu Médici (1969 – 1974) foi o 3º dos cinco presidentes que governaram o Brasil durante a ditadura militar (AP Photo)

Por Milena Buarque (@mibuarque)

Datas, locais e fatos do passado são matéria central da disciplina de história. Talvez por isso seja comum atrelá-la a um distante lugar, ao espaço da memória e à noção de finitude. No entanto, numa olhada mais demorada, os fatos históricos evidenciam um caráter muito mais cíclico do que linear. As recentes demandas por intervenção militar em pouco mais de 30 anos do fim de duas décadas de ditadura militar no Brasil (1964-1985) colocam a problemática do ensino do tema na mesa. Das jornadas de protestos de junho de 2013 à paralisação dos caminhoneiros neste ano, respostas como “você não estudou história?” e “você precisa estudar história!” tornaram-se comuns a quem defende a ação das forças armadas.

Para a historiadora e socióloga Sol Horti, professora da rede pública e de uma escola de pedagogia Waldorf em São Paulo, os pedidos por intervenção sinalizam uma busca por uma resposta rápida a problemas – ainda que essas pessoas desconheçam em sua totalidade o que foi o período da ditadura. “O fato de pedirem por intervenção militar preocupa, do ponto de vista humanista, mas o que eu entendo é que as pessoas olham para a situação atual, têm um medo muito grande da violência e pensam em uma resposta simples para os problemas que a gente enfrenta. A questão é que muitas pessoas não entendem e foram educadas para não compreender. A gente pode ajudá-las a compreender melhor esse processo político e histórico de construção da democracia”, diz.

Membra da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Horti explica que as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), normas e recomendações anteriores à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), apenas orientam, de uma maneira geral, o planejamento curricular do sistema escolar. O fato de não existir nenhuma indicação clara do Ministério da Educação (MEC) sobre o ensino do tema coloca o debate a respeito da qualidade do conteúdo no livro didático.

“São documentos que orientam, mas não fecham a questão. As editoras acabam dando o tom do que é dado sobre o assunto. O MEC seleciona uma gama de livros e os professores escolhem do que é enviado pelo ministério. E isso é um debate acadêmico. Nunca usei um livro em sala de aula que apoiasse a ditadura, mas eles deixam o conteúdo muito no senso comum. Muitos livros focam em pontos favoráveis à economia. Nenhum fala bem, mas o recorte que se dá aponta quase sempre para a vitória na Copa do Mundo de 1970 e para o período conhecido como ‘milagre econômico’”, diz a professora, que também atribui o senso comum a narrativas pessoais das famílias, geralmente pais e avós, contadas aos alunos.

Na visão do historiador Caio César Muniz, que convive há mais de oito anos com os alunos da Escola Estadual Professora Maria Augusta de Ávila, na zona leste da cidade, a carga horária da disciplina também é um fator limitador no aprofundamento do tema, presente e cobrado anualmente em vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), porta de acesso para um grande número de faculdades e universidades. “Cada professor define o uso de cada material, tanto dos livros quanto das apostilas. No entanto, as críticas às intencionalidades desses materiais didáticos são prejudicadas pela baixa carga horária, que faz com que o plano de aula seja sempre mais corrido e não contemple todas as necessidades dos alunos”, explica.

A mobilização por meio do convite à reflexão em atividades práticas e dinâmicas são algumas das alternativas adotadas por professores na tentativa de tirar os fatos históricos do papel. “Seria interessante que houvesse um incentivo para a visita constante aos lugares de memória. Saindo da sala de aula, os alunos podem ter uma experiência muito mais rica em detalhes. É preciso incentivar tanto esses espaços, como o Memorial da Resistência de São Paulo, como a presença de alunos da rede pública ali. Os estudantes têm toda a capacidade de ver por si que um período onde o Estado sequestrava, torturava e mesmo assassinava seus opositores não contempla suas críticas para os tempos atuais”, diz César Muniz, citando o museu localizado na região central da cidade e que preserva as memórias da resistência e da repressão políticas do Brasil de 1889 à atualidade.

Pixabay

Formação e autonomia

Se é consenso entre professores o precário investimento em formação docente, a autonomia e a liberdade crítica são frequentemente cobradas como contraponto ao conteúdo raso e apostilado no ensino da disciplina. Para o historiador Hildebrando Penteado, mestre em educação e professor da Escola Estadual Deputado Astolfo de Araújo e da Etec Parque Belém, ambas na zona leste, a mera reprodução sem um posicionamento sobre o que é dado está longe de dar a complexidade da construção histórica. “O ensino está baseado em uma proposta apostilada e livresca apoiado por livros didáticos e por bimestres que não nos possibilitam uma maior profundidade nos processos políticos, econômicos e sociais. Muitas vezes não conseguimos concluir a discussão em apenas 20 aulas de história e quase 60 de matemática. No mais, uma parte enorme dos professores apenas reproduz o que está nos livros, ou seja, não se posicionam. Quando o fazem, defendem grupos, à direita ou à esquerda, e isso, ao meu ver, não possibilita a construção de uma consciência crítica sobre o processo histórico ao qual estamos inserido”, diz.

Os casos de tortura e desaparecimento do estudante universitário Stuart Edgar Angel Jones e morte do jornalista Vladimir Herzog são citados por César Muniz como dois exemplos de como documentos e fotografias podem ser usados em sala, em conjunto ou indo além do material didático. “Vejo a educação como um processo complexo de nivelamento entre um indivíduo com o todo. Certa vez tive contato com apostilas da rede estadual de São Paulo que tratava o que aconteceu a Stuart Angel como algo suposto. Tratando as torturas cometidas pelo Estado, o assassinato e a ocultação de seu cadáver como uma dúvida. Se o professor que estiver diante disso não tiver uma boa formação sobre aquele período, pode não perceber a intencionalidade daquele eufemismo na apostila – e suas possíveis consequências”, conta.

Em relação a Herzog, o professor levou para a classe a conhecida imagem do jornalista enforcado, símbolo da repressão do período, traçando um diálogo entre a realidade dos alunos e as informações levantadas pela análise de diferentes documentos históricos. “O material didático pode ser de péssima qualidade e ainda assim um bom professor poderá usá-lo de maneira eficiente. Uma vez disse aos alunos que a versão do Estado sobre a causa da morte de Herzog é a do suicídio. Em seguida, apresentei a fotografia, um documento histórico de fácil acesso na internet. Bastaram alguns segundos para que os próprios alunos questionassem aquela versão oficial. Como alguém poderia se enforcar daquela forma se bastava ficar de pé?”

A conexão com o presente também pode facilitar a assimilação e o interesse dos alunos pelos fatos do passado. O Caso Herzog, por exemplo, voltou aos jornais no último mês após o Brasil ser condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), parte da Organização dos Estados Americanos (OEA), por não investigar o assassinato e a tortura do jornalista. Nas últimas semanas, o Ministério Público Federal de São Paulo (MPF-SP) reabriu as investigações.

Pixabay

Educação política

Em outubro do ano passado, um levantamento do Datafolha apontou uma redução no número de brasileiros que apoiam a democracia. Os que dizem preferir a ditadura passaram de 12% em 2014 para 14% em 2016 e 21% disseram que tanto faz se o governo é uma democracia ou uma ditadura. Além da falta de aprofundamento no que é ensinado sobre o período, a ausência de uma educação voltada para a política é outra razão apontada pelos especialistas.

“Talvez não seja o fato de não se ter estudado história, mas, sim, de ter estudado sob um viés que omite e não aprofunda. No Brasil, as pessoas não sabem de política ou não participam porque não são convidadas a participar, elas não são preparadas para isso. Nós não estudamos política. A gente precisa ter muito respeito pela população, não importando se seu interesse pela política é recente. A questão não é só dentro da sala de aula. É preciso aprofundar o debate acadêmico. O país sempre viveu períodos de golpes, desde a proclamação da República. A gente precisa revisar os fatos e isso precisa ir parar nos livros. É um problema cultural de análise da nossa história”, diz Horti.

Saiba mais:
Durante ditadura, militar se apaixonou e beijou guerrilheira antes de executá-la
Bolsonaro questiona escravidão e ditadura