Você nunca conheceu Jerry Adriani como deveria

Regis Tadeu

Nunca o conheci pessoalmente. Todos que se viram pelo menos em uma ocasião ao lado dele são unânimes em afirmar que era um dos caras mais gente fina do show business. Os amigos e colegas de profissão quase o endeusavam. Para os padrões de um universo recheado de gente ‘mala’ e arrogante, é um elogio e tanto.

É uma pena que a partir da década de 80 tenha desperdiçado sua carreira lançado discos pavorosos, como aqueles em que se metia a botar seu reconhecido e afinado vozeirão a serviço de canções italianas que serviram apenas como trilhas sonoras perdidas de pizzarias. Até mesmo o romantismo que imperava em sua interpretação era de uma cafonice atroz.

Jerry Adriani era muito maior do que suas escolhas erradas de repertório. Ele era um autêntico roqueiro escondido por baixo de uma pele de cordeiro cantor de churrascaria.

Durante as décadas de 60 e 70, Jerry mostrou que era um cantor diferenciado. Em tempos em que afinação era quesito obrigatório – e que hoje é “opcional”, dada a quantidade de gente desafinada que se diz “artista” nos dias de hoje -, ele gravou álbuns em que a inocência romântica de suas canções vinha embalada naquele rock típico da Jovem Guarda. Selecionei dois álbuns de meus favoritos e algumas canções bem legais:

Diz a história da música brasileira que foi Jerry quem descobriu Raul Seixas. Consultei fontes fidedignas que garantiram a veracidade da lenda. Em 1967, Jerry foi contratado para fazer um show em Salvador e foi sem banda alguma. Antes de ir, pediu que arrumassem alguns músicos locais para acompanhá-lo. O contratante juntou os integrantes de uma banda que estavam sem fazer nada. O grupo se chamava The Panthers e seu vocalista/guitarrista/compositor era um tal de “Raulzito”, um sujeito que já tinha decidido largar a música e arrumar um emprego comum. Jerry Adriani gostou tanto de tocar com os caras que resolveu levá-los consigo para fazer outros shows pelo Nordeste. Na hora de voltar para o Rio, Jerry fez mais que a proposta para que a banda inteira o acompanhasse. Encheu o saco da gravadora Odeon para que o grupo fosse contratado e lançasse um disco, Raulzito e os Panteras. O resto é história. Se não fosse por Jerry, Raul teria virado escriturário de cartório, vai saber…

Em comum com Raul havia a profunda admiração por Elvis Presley, algo que estava muito além das costeletas que usou durante muito tempo. Chegou a gravar em 1990 um álbum inteiro com canções do “Rei de Memphis”, Elvis Vive, só que vertidas para a nossa língua nativa, com resultado bem ruim. Não foi à toa que passou despercebido da imensa maioria das pessoas. Quase ninguém ligava para seus discos mais recentes. Jerry os gravava para se sentir vivo.

Jerry era tão gente fina que jamais se importou com a semelhança existente entre a sua voz e a de Renato Russo. Pelo contrário. Dava risadas e chegou até mesmo a gravar algumas canções do legião urbana em um álbum de 1999. Ouvi-lo cantando “Angra dos Reis”, “Monte Castello” e “Andrea Doria” era simplesmente impagável. Saber que Renato amava as interpretações que Jerry dava a canções italianas é igualmente hilário.
No domingo passado, quando começaram a pulular na internet as primeiras notícias de que Jerry havia morrido naquele dia, vitimado por câncer, aos 70 anos, a avalanche de pesares surgiu do modo habitual: comovente em termos de sinceridade por parte de poucos e avassaladora no oportunismo barato de gente que nunca ouviu sequer uma única música dele. Ou seja, o de sempre. Que pena…