“Você é um potencial transmissor”: profissionais da saúde temem infectar pessoas próximas com coronavírus

É assim que o médico brasileiro Rafael Duarte atende na área com pacientes infectados pelo coronavírus em um hospital no Porto, em Portugal (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde que o novo coronavírus passou a se espalhar, qualquer um que saia de casa tem de tomar cuidado ao voltar. Há sempre medo e receio de ir ao mercado ou à farmácia e encostar em alguma superfície contaminada ou passar por alguém que tenha o vírus. Mas e quem está diariamente em hospitais, tratando de pessoas contaminada? Como é a vida e a rotina, quais os sentimentos dos profissionais que saúde que, com frequência, estão perto de pessoas com COVID-19?

Tatiana Candido, enfermeira em um hospital particular em São Paulo, e Rafael Duarte, médico brasileiro que trabalha em Porto, em Portugal, tem um sentimento em comum: o medo de infectar as pessoas que amam.

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“No momento em que você assume o plantão, fica com medo. E muitas vezes não é medo por você, porque você lida com doenças severas sempre, mas dá medo de trazer para casa. Esse é o medo da maioria dos profissionais”, afirma Tatiana.

“É um estresse muito grande. É uma doença que não tem cura, de evolução rápida e muito profissionais de saúde estão se infectando. Nós tentamos salvar a vida deles, mas estamos nos expondo também”, diz. A enfermeira tem dificuldades até de dormir à noite.

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“Enquanto o pessoal tem de ficar em casa, nós ficamos isolados da família. Não posso ver meus pais. Ainda estou com meu marido e minha filha, mas porque ainda está no começo”, relata. Tatiana garante que, se as pessoas não ficarem em casa, o pico da doença será ainda mais elevado e os profissionais da saúde ficarão mais expostos.

A enfermeira demora cerca de dois minutos para se paramentar para atender um paciente infectado com coronavírus. Ao longo do dia, ela tira e coloca a proteção diversas vezes, para atender pessoas com patologias diferentes. Ela relata que, por enquanto, o hospital no qual ela trabalha ainda não está cheio, ainda assim, ela tem medo.

Antes de sair do hospital, Tatiana toma banho e troca de roupa. Chegando em casa, ela higieniza os sapatos e coloca a roupa para lavar, sem misturar com a da filha e do marido. Tudo que ela leva da rua, higieniza ou joga no lixo.

A cada dia os trabalhadores do hospital recebem novas orientações conforme os novos acontecimentos. Tudo pode mudar também se algum colega tiver sintomas da doença e tiver de ser afastado.

“A vida virou o trabalho. Antes você tinha uma rotina, agora você chega e vai pesquisar, vê TV e só falam disso. Você precisa estar atento. Eu fico mais ansiosa, o psicológico muda, você fica mais alerta”, descreve.

O alerta dela é claro: não saiam de casa. Não é questão de ficar doente ou não, é o quanto você vai passar para outros e se o sistema de saúde do Brasil vai suportar.

Rafael Duarte observa a situação do Brasil de longe, mas com preocupação. O carioca tem pais e outros parentes idosos. “Quando começou a chegar no Brasil, comecei a ficar extremamente tenso”, desabafa.

De longe, ele avalia que as pessoas começaram a perceber a gravidade da situação quando os Estados Unidos passaram a ser afetados. Na última quinta-feira, o país norte americano teve mais de mil mortes em 24 horas. O médico elogiou as iniciativas de estados como Rio de Janeiro e São Paulo de criarem novos leitos e criarem abrigos para pessoas em situação de rua.

Em Portugal, Rafael atende em hospitais duas vezes por semana, nos dois locais na emergência. O médico relata que, quando só havia casos na China, não havia preocupações com a doença. “De repente, a coisa começou a acontecer na Itália e, em Portugal, pelo que eu percebi, o governo começou a entender que a coisa estava se propagando uma velocidade importante”, conta.

A explosão de casos na Itália e na França preocupou governantes de Portugal e, pelo que Rafael pôde perceber, foi um dos primeiros lugares a fechar serviços não essenciais, o que ajudou. Atualmente, o país tem 246 mortes por COVID-19 e mais de 9 mil casos confirmados.

“A gente vê, pelo menos na região norte de Portugal, uma adesão muito grande pelo receio do que está acontecendo ao lado”, relata. No início, a situação era caótica “No hospital que eu trabalho, a coisa começou a assumir um valor muito importante.”

Durante o plantão que faz às quartas-feiras, Rafael passa parte do dia dentro da área em que há pacientes com COVID-19 e parte fora. Quando está nessa área, ele se paramenta o máximo que pode. Chega a usar três luvas e duas máscaras para ter certeza que está seguro.

Durante todo o mês de março ele sentiu bastante medo. O sentimento se arrefeceu quando fez o exame e teve o teste negativo. Assim, ele passou a ter maior segurança no equipamento que está usando. Ainda assim, o estresse é muito grande. “Eu chorei algumas vezes. É muita carga. De estar lá e ter um inimigo invisível e não saber se as proteções são adequadas ou não, não saber se a gente vai levar o vírus para casa.”

Ele ainda relata que há um estigma grande em relação aos profissionais de saúde. “As pessoas acabam te rejeitando, por medo mesmo. Até porque você é realmente um potencial transmissor”, afirma.

Assim como Tatiana, Rafael troca de roupa e toma banho antes de sair do hospital. Em casa, ele reservou uma área para deixar toda a roupa e vai direto para o banho, sem tocar em nada ou ninguém. Para ir ao mercado ou farmácia, só de máscara.

Ele ainda conta que o mercado que frequenta limita o número de pessoas. Na frente, a fila para entrar tem demarcações no chão para que as pessoas mantenham distância. Há uma pia na frente do estabelecimento para que todos lavem as mãos e, ao entrar, dão luvas descartáveis.

Rafael revela que no hospital no qual trabalha, há poucas mortes. No entanto, classifica o COVID-19 como “uma roleta russa. Para alguns pacientes, é muito complicado”. “Nunca achei que fosse passar por isso.”

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