De volta ao Brasil, Wallace fala sobre Superliga, paixão por carros e racha provocado por Bolsonaro

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RIO — O negócio de Wallace, de 34 anos, é mesmo ficar no Brasil. Após uma única temporada no exterior e mesmo com a conquista da Copa Turca e de ter sido o MVP do torneio, ele retorna ao país para defender o time em que viveu seu auge: o Sada/Cruzeiro.

O oposto, que se despediu da seleção brasileira após o quarto lugar nos Jogos de Tóquio, um ouro na Rio-2016 e uma prata em Londres-2012, conta que não teve proposta atrativa para permanecer na Europa e que ao voltar ao Brasil coloca o projeto de uma oficina de carros de pé. Ele já pensa no futuro pós-vôlei.

Por ora, vai liderar o jovem time do Cruzeiro, que também terá novo treinador: Filipe Ferraz substitui Marcelo Méndez, argentino multicampeão que acertou sua saída após a eliminação nas quartas de final da última Superliga. O Cruzeiro é o maior vencedor da competição: tem seis troféus.

Com o clube mineiro, Wallace ganhou 21 títulos entre eles dois Mundiais de Clubes, três Sul-Americanos e quatro Superligas. Só deixou a equipe por conta do ranking de jogadores, que ainda funcionava em 2016. Passou por Taubaté e Sesc/Rio de Janeiro, antes de acertar com o turco Spor Toto.

O GLOBO: Como foi a experiência turca?

Wallace: Quebrei o paradigma de que não havia jogado no exterior. Tinha um peso para mim, se ia me adaptar ou não. E acho que tudo deu certo. Tinha outros dois brasileiros no time, o Thiago Gelinski e o Léo, que agora está no Minas, que me ajudaram muito.

Por que resolveu voltar ao Brasil?

Porque não tive uma proposta tão boa, irrecusável, para continuar na Europa.

Não quis aceitar a oferta da Rússia?

Tive proposta russa mas nunca fui fã da Rússia, um frio lazarento e eu detesto frio. Surgiu a proposta do Sada e juntei o útil ao agradável. Já queria voltar para o Brasil. Tem pessoas que se adaptam muito fácil e ficam anos na Europa. Eu sou diferente. Gosto de estar no Brasil e tinha projetos aqui.

Que projetos?

Ainda não está concretizado, mas é fora do vôlei. Gosto de carros, eu e um sócio vamos montar uma oficina em Taubaté. Se der certo, no futuro, quero me dedicar somente a isso. Se não der, terei tempo para fazer outro investimento. A princípio será uma oficina comum, para troca de óleo e freio, essas coisas, mas também uma "preparadora" para serviços, como aumentar a potência do carro ou incluir aqueles aparelhos de controle de velocidade.

Você é um colecionador de carros? Quantos carros você tem?

Sou louco por carros, mas não sou colecionador. Eu não sou do tipo que gosta de restaurar e depois deixá-los parados. E para mim, um atleta, é um negócio mais complicado (financeiramente). Gosto de curtir o carro, andar. Tenho alguns... Nissan GT-R, Dodge Challenger, BMW M5V10, Ford F150, de 1999, Honda Civic 95, Eclipe Mitsubishi também 95 e um Monza Chevrolet 93.

Todos ficam na sua garagem?

(risos) Não. Tem carro em São Paulo, com a irmã...

O que você trouxe na bagagem, como experiência pessoal, após a primeira temporada no exterior?

Amadurecimento. Achei muito intuitivo para os estrangeiros essa coisa de ter de segurar a onda do time. Não há muito o que o técnico falar. Você já sabe o que fazer. De uma forma geral, é para isso que contratam estrangeiros. Não interessa como você vai fazer, tem de se virar. Tipo assim: "Você não é bom? Então dê o seus pulos". Acredito que neste sentido eu consegui entregar. Tive paciência para encarar o desafio.

O que achou de ser estrangeiro?

Não é ruim, não! Fui muito bem recebido, não tive problema, mas, querendo ou não, estava "tirando o espaço" de um turco. Eu também me coloquei como um jogador do grupo, independentemente do currículo. Apesar de não ter sido pressionado na Turquia para dar resultado, eu mesmo fazia isso, acho que aqui no Brasil deve ser mais tranquilo para os estrangeiros.

Sua despedida da seleção é definitiva?

O Escada falou uma vez algo assim: "Nunca vou negar ou dar as costas para a seleção, mas se puderem não me chamar fico feliz" (risos). Tem outros opostos que darão conta do recado, como o Alan, que está voando, e o Felipe Roque, que logo mais estará neste nível também. Ou seja, não vão precisar de mim. Querendo ou não, a seleção come muito o tempo da família. E eu quero ver meus filhos crescerem (ele é pai de Max, de 4 anos, e Mia, de 2). Dei tudo que podia dar para a seleção. Agora é focar na família e no clube.

Como você se sentiu ao se despedir da seleção sem pódio em Tóquio? Qual o tamanho desta frustração?

A aposentadoria foi algo pensado, não foi do dia para a noite. Saí com a sensação de dever cumprido porque, apesar de não ter ido ao pódio em Tóquio, eu me doei e me sacrifiquei ao máximo nesses 11 anos no total. Fiz o que podia e não podia neste tempo todo e também no Japão. Por este lado, saio tranquilo, sabe? Abdiquei de muita coisa para estar em Tóquio e tentar mais uma medalha. Por isso, por não ter conseguido outra medalha, foi doída a despedida. Machucou mesmo e vai demorar para passar. Eu vi a frustração no rosto de quem estava lá pela primeira vez e fiquei mal com isso também.

Perdeu o bronze para o Marcelo Méndez (técnico da Argentina), seu antigo treinador no Sada/Cruzeiro...

Foi complicado. A Argentina jogou a vida naquela partida, eles foram muito bem. Já foi a época em que a Argentina só perdia para o Brasil. O Mendez acertou na tática, é um cara que estuda muito o rival. Vivi a melhor fase da carreira no Cruzeiro com ele como treinador.

O vôlei brasileiro vive hoje um racha entre os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e os contrários a ele. Como isso tem mexido com você e suas amizades?

Sobre isso que você está falando (amizades), não muda nada, se eu apoio ou não. Hoje em dia, o mundo está muito polarizado. Principalmente nessa questão política. Ou é direita ou é esquerda. Prefiro nem comentar porque quem ler vai entender o que quer.

Fica chateado com algo quando este assunto é abordado?

Eu não fico chateado e não fico olhando o que falam de mim. Estou aqui para jogar voleibol. Se as pessoas gostam do meu voleibol ou se não gostam do que eu faço é direito delas, é direito de cada um. Eu respeito e está tudo certo.

Você vai votar em Bolsonaro?

Não sei. Tem tempo até lá.

Mas votou?

Não quero falar mais sobre política.

Agora você volta ao Cruzeiro sem o Méndez, mas com o Filipe estreando como treinador. Qual vai ser o desafio desta temporada?

Conversamos bastante e ele diz que é uma esponja. Está absorvendo tudo, ganhando conhecimento. Ele vai se dar muito bem nesta função sem dúvida. Filipe sabe ouvir, é um cara que entende o nosso lado, que acabou de se aposentar como atleta. Gosta de treinar e isso nos motiva muito. O Cruzeiro não é favorito, mas estamos entre os melhores. Temos um time novo, jovem. Por isso, digo que temos responsabilidade, mas sem loucura. Sem aquela coisa de "temos de ganhar se não tudo está perdido".

Como a eliminação nas quartas de final da última Superliga, após um período de hegemonia, pode impactar nesta temporada?

Não é algo normal para o Cruzeiro ser eliminado nas quartas de final, mas acredito que não terá influência nenhuma. O time já está com a cabeça boa, no lugar. A lição é que, se não jogar bola, não se ganha na camisa.

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