De volta aos anos 20: chegada de 2020 inspira roteiro retrô no Rio

Paula Lacerda
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A Confeitaria Colombo: um 'must' no século passado

Conhecidos como os "loucos anos 20", o período que se seguiu aos horrores da Primeira Guerra Mundial foi uma década de efervescente criação cultural e de mudança de comportamento. Eram os tempos do jazz, a era de ouro do cinema de Hollywood, as mulheres conquistavam o direito do voto nos Estados Unidos, Paris era uma festa... E o Rio de Janeiro, então capital brasileira, seguia o embalo: todos os aspectos da vida urbana, do jornalismo às artes, passando pelos hábitos e pela arquitetura, fervilhavam na metrópole como em nenhum outro lugar do Brasil. Nomes como João do Rio, Lima Barreto, Carmen Miranda, Francisco Alves, Di Cavalcanti e Heitor Villa-Lobos circulavam pela cidade. O “Rio das luzes” entrou para a história como um capítulo de vanguarda, como narra Ruy Castro no recém-lançado “Metrópole à beira-mar”, um retrato da cidade na década.

— O Rio não precisava de “modernismo” porque já era moderno. Quando eram 11 horas da noite no Rio ainda era 1904 no resto do país. O Rio herdou daquela época a mistura da alta cultura com a baixa cultura, que até hoje nos caracteriza; um novo traçado urbano que incluiu a Esplanada do Castelo, a Urca e várias avenidas; e uma produção cultural extraordinária que estava esquecida. Os anos de 2020 vão ter de rebolar para se comparar aos de 1920... — diz o autor.

Comparar não é preciso, o tempo é outro. Mas que tal, chegando aos novos anos 20, fazer um revival das delícias daquela época que permanecem na cidade? Ou das que são resgatadas em festas, shows, bares e outras atrações que bebem da fonte de outrora? É possível fazer a viagem sem máquina do tempo. Bem-vindo a 2020.

A Confeitaria Colombo

Quer se sentir no clima dos anos 1920? Faça uma parada na Confeitaria Colombo, no Centro, para um “chá das cinco”, prática muito vivida pela sociedade carioca no início do século passado. Fundada em 1894, a confeitaria passou por várias reformas. É de 1922 a que deu ao espaço a sua aparência atual, com a abertura de um grande salão no segundo andar para abrigar o público crescente e a inserção, no cenário já marcado pela imponência dos jogos de espelhos belgas que até hoje impressionam, da magnífica claraboia vinda da França. Tanto luxo não era por menos: fornecedora oficial dos banquetes do Catete e do Itamaraty nos anos 1920, a confeitaria recebia reis, rainhas, imperadores e presidentes de outros países, além de cardeais, estrelas de Hollywood e personalidades da cultura local. Atualmente, quitutes como os quindins de camisola e pasteis de nata fazem sucesso no cardápio e estão incluídos no bufê do chá da tarde, que ainda traz uma variedade de pães, frios, salgados, minissanduíches e canapés, além de doces, bolos e minitarteletes, café, chocolate, sucos e chás nacionais e importados. Fique atento à agenda nas redes sociais da confeitaria, o bufê não é todo dia (hoje tem). Mas você pode pedir à la carte qualquer uma das delícias.

Confeitaria Colombo: Rua Gonçalves Dias 32, Centro — 2505 1500. Seg a sex, das 9h às 19h. Sáb e feriados, das 9h às 17h. Bufê do chá da tarde: das 17h às 19h30. R$ 73.

A Cinelândia

Foi nos anos 1930 que o termo Cinelândia se popularizou como nome da Praça Marechal Floriano, que coroava a Av. Rio Branco com sua concentração de cinemas. Mas já nos anos 1920, vivia-se intensamente o burburinho da região. Já estavam lá e eram frequentados, desde o início do século, o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Em 1926, nascia o cinema Odeon. E pasmem: é 1921 o ano de fundação do bar Amarelinho, que, à época, chamava-se Café Rivera e que é, ainda hoje, ponto de parada antes ou depois de um filme, uma peça ou um show nas redondezas.

Bar Amarelinho: Praça Floriano 55 B, Centro — 3549-8434. Diariamente, das 10hs à 1h.

Cine Odeon: Praça Floriano 7, Centro. Ver programação em Cinema.

A moda

A década da irreverência também teve reflexo no rompimento dos padrões da moda. Sai o espartilho do século XIX e entram roupas soltas, de cortes retos, cinturas baixas e pequenos chapéus e franjas para ornar. Em uma sociedade que volta e meia resgata modas de décadas passadas, os anos 1920 andam esquecidos nas ruas... Mas marca presença na coleção do Brechó Maio 68, no Rio Comprido, instalado em um sobrado onde já morou Tim Maia. No espaço, misto de brechó, palco de shows e DJs, estúdio de tatuagem e um charmoso café, estão roupas que remetem a estilos de diferentes décadas (a inspiração maior são os anos 60).

— Conseguir peças comprovadamente da década é complicado. Mas há várias releituras da moda deste período. Não é só uma peça de roupa, é uma antiguidade, uma história, memória afetiva — conclui.

Brechó Cultural Maio 68: Rua do Matoso 184, Rio Comprido. Qui e sex, das 16h às 22h. Sáb e dom, das 10h às 21h. Às quintas, às 18h, videokê. Sáb e dom, DJ DaniLove. Neste fim de semana, flash day a partir das 15h.

A música

Esta é para entrar no clima musical dos anos 20: toda terça, o duo formado por Ana Bandarra (ukelele, voz e kazoo) e Eduardo Vilamaior (contrabaixo acústico, voz e kazoo) toca no Haus Pub Bistrô, em Ipanema. Dia 10, tem show no Hop Lab, na Praça da Bandeira.

— Nosso foco é na canção popular das primeiras décadas do século XX, de 1910 até 1939, quando estilos musicais como o jazz estavam a em desenvolvimento. Na época, eram genericamente chamados de foxtrot. Nosso repertório é basicamente composto de músicas americanas, o que inclui velhos blues, ragtimes, canções do chamado American Great Song Book, dos musicais da Broadway — explica Ana.

Menos EUA e mais Brasil? Temos! Canções de Pixinguinha, celebrado na década de 20, serão lembradas na série de shows “Carnaval de Pixinguinha”, que a Orquestra Flor do Sereno apresentará na Casa do Choro a partir de 29 de janeiro, com participações de Pedro Miranda, Pedro Paulo Malta e Nina Wirtti. No repertório, polcas, maxixes, tangos brasileiros, sambas e marchinhas.

Digga Digga Duo: Haus Pub Bistro. Rua Visconde de Pirajá 112, Ipanema. Ter, às 20h30. Couvert opcional: R$ 10. Hop Lab: Rua Barão de Iguatemi 292, Praça da Bandeira. Sex, (10 e 24), às 20h. Grátis.

Carnaval de Pixinguinha: Casa do Choro. Rua da Carioca 38, Centro — 2242-9947. Qua e qui, às 19h, de 29 de janeiro até 20 de fevereiro. R$ 50.

Tem festa

E que tal um swing jazz para animar 2020? Hits dos anos 1920, assim como dos 30, 40 e 50, misturados a beats eletrônicos, estão no repertório da festa retrô Manie Dansante. A última edição foi há uma semana, no Centro, quando a turma de DJs Manie Gang celebrou sete anos de evento. As próximas, ainda sem detalhes divulgados, serão uma festa na piscina, em fevereiro, e uma edição de carnaval.

Um ar de Modernismo

O Rio sentiu o impacto da Semana de Arte Moderna de São Paulo em 1922, que lançaria, no Brasil, o Modernismo. A força do movimento, que mudaria a cultura nacionais, sobretudo na literatura e nas artes plásticas, pode ser vista na Casa Roberto Marinho, cujo acervo de 1.473 peças tem o modernismo como foco. Atualmente em cartaz, a mostra “Duplo olhar” reúne obras de Tarsila do Amaral, Alberto Guignard, Cândido Portinari, entre outros.

Casa Roberto Marinho: Rua Cosme Velho 1.105, Cosme Velho —3298-9449. Ter a dom, de meio-dia às 18h. Grátis (às quartas-feiras) e R$ 10 (demais dias). Aos domingos, “ingresso família” a R$ 10, para quatro pessoas.

A bebida

Os anos 20 foram tempos de Lei Seca nos Estados Unidos, com bares clandestinos — os speakeasies — surgindo em meio à proibição da venda e do consumo de bebidas alcoólicas. E é na atmosfera de “clandestinidade” de outrora, que um bar escondido atrás de pesadas cortinas vermelhas, no mezanino do terminal Menezes Cortes, se inspira: o Shake Speakeasy. O bar surgiu há pouco mais de um ano, sob o comando do uruguaio Walter Garín. No início, eram distribuídas senhas, quase um clube secreto. Hoje, as senhas já não existem, mas é preciso chegar cedo para garantir o lugar: só cabem 25 pessoas.

— Os anos 20 foram a era de ouro dos coquetéis. Os bartenders tinha que criar drinques para lidar com a baixa qualidade das bebidas. Aqui, crio versões de clássicos — explica Garin, preparando um Dama Branca (versão do clássico White Lady), que leva gim, triple sec, limões siciliano e taiti, xarope de coentro, clara de ovo, bitter de hibisco e hibisco em pó (R$ 25).

Shake Speakeasy: Terminal Menezes Cortes. Rua São José 35, Centro — 99666-1411. Seg a sex, das 15h às 23h.

O bonde

Há quem diga que o VLT é uma versão moderna dos bondes que circulavam nos anos 1920, o principal meio de locomoção da época. Mas para resgatar o charme da época, vale fazer um passeio de bonde — o tradicional! — pelas ruas de Santa Teresa. Reinaugurado em julho de 2015, após quatro anos parado, o bonde faz atualmente o percurso curto, entre a Estação Carioca e o Dois Irmãos. Lá em cima, aproveite para visitar o Parque das Ruínas, pertinho da estação Curvelo, que tem programação variada de peças e shows e mirante com uma bela vista da cidade.

Bonde de Santa Teresa: Partida da Rua Lélio Gama 2, Centro — 2332-6615. Seg a sex, das 8h às 17h40. Sáb, das 10h às 17h40. Dom e feriados, das 11h às 16h40. R$ 20 (com volta inclusa).

A arquitetura

É na década de 1920, como observa a Márcio Alves Roiter, presidente do Instituto Art Déco Brasil, que se “prepara” o terreno para a proliferação de obras no estilo Art Déco da década seguinte, com a construção dos primeiros prédios e monumentos classificados como tal. Mas ele dá o mapa da mina para um passeio pela cidade, com olhos atentos para a arquitetura que dava o que falar na década de 20: você sabia que o Cristo Redentor, construído entre 1922 e 1931, é o maior monumento art déco do mundo? Que a Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa, construída em 1922, também é exemplo do estilo? Que o Salão Assyrio, no subsolo do Teatro Municipal, uma proeza técnica em cerâmica, foi inaugurado no início do século passado e sediou os primeiros bailes de carnaval dos anos 1920?

— O palacete Julieta de Serpa, com seus ricos vitrais e decoração, mostra o espírito de luxo que passava a fazer parte do cotidiano carioca, tornando o Rio uma das capitais mais glamurosas do mundo. O Assyrio, por sua vez, tem uma decoração que já é uma imensa fantasia, inspirada na Babilônia, Assiria e Pérsia — diz Roiter.