Volta às aulas em setembro é 'previsão' e depende 'das próximas semanas', diz governo de SP

João Conrado Kneipp
·9 minuto de leitura
Classroom desks lined up ready to start classes at a school in Brazil.
Escolas voltarão com, no máximo, 35% de sua capacidade em um primeiro momento. (Foto: Getty Images)

A data de 8 de setembro como marco da volta às aulas presenciais nas escolas das redes municipal, estadual e privada no estado de São Paulo é uma “previsão”, mas a realidade da reabertura “dependerá dos acontecimentos das próximas semanas”, segundo avaliação do próprio governo João Doria.

O alerta da possibilidade de alteração da data de retomada das classes foi feita pela secretária estadual de Desenvolvimento Econômico, Patrícia Ellen, e pelo coordenador do Comitê de Combate ao Novo Coronavírus, Carlos Carvalho, nesta quinta-feira (25), durante a coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes, um dia após o anúncio da retomada das aulas feita pelo governo.

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O retorno presencial às aulas só poderá ser feito quando todas as regiões do estado estiverem na fase 3 (Amarela) do Plano São Paulo e se mantiverem nela por 4 semanas - 28 dias. Atualmente, somente duas das 17 regiões do estado estão na fase Amarela: a de Presidente Prudente, e a regional Araraquara/São Carlos.

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“A data é prevista e só vai acontecer se as regiões estiverem na fase Amarela no início de agosto. Se tivermos um momento de preocupação diferente disso...A data é em função da fase do Plano São Paulo, e nós (do governo) não estamos em função da data”, ressaltou Patrícia Ellen.

Carvalho apontou que a decisão da escolha de 8 de setembro como data partiu da área da Educação e não da Saúde. “Do Comitê de Saúde não saiu uma data porque não temos uma data, dependemos da evolução da doença como a secretária Patrícia falou. (...) Na previsão deles (secretaria de Educação), eles acreditam que a partir de 8 de setembro poderão estar preparados para esse momento de reabertura”, explicou o pneumologista.

Segundo o coordenador, a data foi escolhida levando em consideração o ponto de vista da logística da secretaria de Educação. “Eles precisavam definir um momento para se organizarem do ponto de vista logístico, como compra de materiais, EPIs, alimentos para merendas. Eles precisavam de uma previsão para se organizar a partir de uma data”, completou.

Carvalho disse ainda que a data foi “um exemplo, uma previsão” e que a realidade da reabertura “dependerá dos acontecimentos das próximas semanas”. Na mesma coletiva, o setor da Saúde divulgou dados estatísticos que apontam o interior do estado como novo epicentro da pandemia em São Paulo.

Enquanto a cidade de São Paulo registrou um acumulado de 6.675 óbitos desde o início da pandemia, o interior, que começou a sentir os efeitos do vírus bem mais tarde, chegou a 6.677 mortes na quarta. Em número de casos confirmados, o interior também já superou a capital, que vinha sendo o epicentro da epidemia. Até quarta, o interior tinha 125.561 casos contra 113.261 da capital.

Para ingressar na fase Amarela, é preciso que a região tenha a taxa de ocupação dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) por pacientes da Covid-19 entre 60% e 70%; e taxa de 5 leitos de UTI-Covid para cada 100 mil habitantes. É necessário também que a região tenha controle do crescimento das taxas semanais de novos casos, novas internações e novos óbitos.

Nesta sexta-feira, Doria apresentará uma atualização do quadro da pandemia no estado, indicando quais regiões poderão afrouxar a quarentena e quais terão que endurecê-las. A expectativa é que a capital paulista avance mais uma fase no ranking estadual, o que permitirá a reabertura de bares e restaurantes ainda que com restrições de horário de funcionamento.

As aulas foram suspensas em toda rede estadual em 23 de março. A estimativa da secretaria de Educação é que o prejuízo por conta da paralisação devido à Covid-19 levará até três anos para ser recuperado no que diz respeito à defasagem na aprendizagem.

O sistema educacional de São Paulo atende 13,3 milhões de alunos – cerca de 32% da população do estado. O plano vale para educação infantil, básica e superior das instituições públicas do estado e como recomendação para as privadas.

TOPSHOT - Pupils wearing face masks are seen in class in Dakar on June 25, 2020, on the opening day of the classes for the students in the examination class in Senegal. - Schools have been closed since early March 2020 due to the outbreak of the COVID-19 coronavirus in Senegal. (Photo by Seyllou / AFP) (Photo by SEYLLOU/AFP via Getty Images)
Outros países, como no Senegal, adotaram o uso obrigatório de máscaras e distanciamento social na volta às aulas após a Covid-19. (Foto: Seyllou / AFP)

QUAIS SERÃO AS NOVAS MEDIDAS?

Entre as novas medidas, será obrigatório o uso de máscaras em todo e qualquer espaço escolar por estudantes e profissionais, inclusive durante o transporte escolar. O uso dos bebedouros coletivos também estarão suspenso durante o período de retomada, e serão substituídos por canecas individuais ou por garrafas.

Ambientes como banheiros e vestiários devem ser higienizados antes da abertura, depois do fechamento e, se possível, a cada três horas. A retirada dos lixos e higienização das lixeiras deverá ser feita, ao menos, três vezes por dia.

Superfícies que são tocadas por alunos, funcionários e professores - como mesas dos refeitórios, corrimões, maçanetas e etc. - devem ser higienizadas a cada turno. As salas e demais ambientes deverão ter ventilação natural, com portas e janelas abertas. O estado também recomenda evitar o uso de aparelhos de ar-condicionado.

O distanciamento obrigatório de 1,5 metro entre as pessoas deverá valer para todos as áreas da escola, especialmente nas salas de aulas. Por decisão do governo, os alunos da Educação Infantil não estão contemplados nessa medida de distanciamento social.

Os intervalos e recreios serão feitos com revezamento de turmas e em horários alternados. Feiras, palestras, seminários, competições e campeonatos esportivos, comemorações e assembleias estão proibidos.

Pais e responsáveis estão orientados a aferir a temperatura dos filhos antes deles irem à escola. A medição da temperatura também será feita pelas escolas no portão das instituições. Caso a temperatura esteja acima de 37,5ºC, a recomendação é ficar em casa.

Alunos e profissionais da Educação que integrarem o grupo de risco não deverão voltar às aulas presenciais durante a fase 1.

ENTENDA AS FASES E O CRONOGRAMA DA RETOMADA

  • Fase 1 - até 35% dos alunos

Prevista para começar em 8 de setembro, a etapa 1 prevê que todos os Departamentos Regionais de Saúde deverão estar na Fase 3 (Amarela) do Plano São Paulo durante, pelo menos, 28 dias;

  • Fase 2 - até 70% dos alunos

Para ingressar na etapa 2 da retomada, previsa para começar a partir do dia 30 de setembro, o estado deverá ter 60% dos Departamentos Regionais de Saúde na Fase 4 (Verde) do Plano São Paulo por, pelo menos, 14 dias;

  • Fase 3 - 100% dos alunos

São Paulo entrará na etapa 3 quando 80% dos Departamentos Regionais de Saúde na Fase 4 (Verde) do Plano São Paulo durante, ao menos, 14 dias;

Yahoo Notícias - As aulas presenciais nas escolas das redes municipais, estaduais e privadas no estado de São Paulo serão retomadas a partir do dia 8 de
Aulas foram paralisadas em março deste ano, com 56 casos de Covid-19 no estado. (Foto: AP Photo/Beto Barata)
  • JUNHO E JULHO

Busca Ativa dos Estudantes: Serão identificados os estudantes que integram os grupos de risco, além de iniciar o engajamento da comunidade escolar e monitoramento desses casos;

Fornecimento de EPIs: Estudantes receberão máscaras, enquanto os profissionais da educação receberão EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) conforme as atividades realizadas. Também serão fornecidos termômetros e demais insumos;

  • AGOSTO

Formação dos Profissionais de Educação: A equipe da escola e os profissionais de educação serão formados e preparados para um retorno seguro;

Avaliação Diagnóstica: Serão feitos diagnósticos de aprendizagem dos estudantes para construção dos planos de recuperação individualizados;

  • SETEMBRO

Programa de Recuperação da Aprendizagem: Produção de material didático, com apoio do ensino híbrido, e com foco nas habilidades essenciais

  • A PARTIR DE 2021

4º ANO OPTATIVO: São Paulo estuda criar um “4º Ano do Ensino Médio” optativo, a partir de 2021, para contemplar os estudantes que hoje estão no último ano do Ensino Médio para complementar a preparação para os vestibulares

PRIVADAS TEMEM ‘QUEBRAR’ E ESTADUAIS AMEAÇAM GREVE

Com a data anunciada para setembro, as escolas particulares temem a perda de mais alunos e de terem que demitir professores. Já os professores da rede privada avaliaram como precoce o retorno. Além deles, docentes estaduais ameaçaram deflagrar uma greve contra a volta gradual às aulas na rede de ensino.

Na rede particular, os colégios já se programavam para voltar com parte dos alunos em julho ou agosto.

Os professores da rede particular temem as demissões até setembro e também o aumento da carga de trabalho após a retomada das aulas. Outra preocupação é a de que não consigam manter as aulas do ensino à distância. Como sempre haverá 35% da turma em sala, os docentes terão de estar presentes na escola todos os dias.

Na rede pública, os sindicatos de professores das redes municipais e estaduais de São Paulo avaliam que o anúncio da reabertura das aulas é precipitado. Eles afirmam que o estado continua a registrar recordes de novos casos e que não há garantia de segurança para a volta às aulas.

O Sinpeeem (Sindicato dos Professores da Rede Municipal) também afirmou não considerar que haja segurança para a retomada das aulas, sobretudo para a educação infantil onde não é possível garantir o distanciamento de alunos e professores.

A Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de SP) também se posicionou contra o retorno das aulas presenciais tanto nas redes públicas quanto privada de ensino. Junto a mais de 30 representantes de entidades ligadas à Educação, o sindicato assinou, na última semana, uma nota pública contestando a volta às aulas.

COMO SERÁ NO ENSINO SUPERIOR

Na última quinta-feira (18), a USP aprovou novo calendário letivo que prevê aulas remotas no segundo semestre de 2020 e retomada de atividades presenciais apenas em 2021.

As atividades presenciais serão repostas entre janeiro e março de 2021, segundo o calendário, e o primeiro semestre de 2021 deve começar, com aulas presenciais, em março do próximo ano. Segundo a USP, 92% das cerca de 6 mil disciplinas teóricas oferecidas neste semestre continuaram as atividades em plataformas online desde o início da suspensão das aulas, em 17 de março.

Na Unesp e Unicamp, o segundo semestre também começará com aulas remotas. As instituições, que por regimento não estão diretamente atreladas às secretarias de educação, aprovaram medidas que garantem mais autonomia para que suas unidades adequem calendário às necessidades de cada curso.

A Unesp, que tem campus em 24 cidades paulistas, retomará as atividades de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo governo estadual no plano de retomada. A universidade também anunciou que priorizará a volta às atividades presenciais de calouros e formandos, para que iniciem ou completem a educação superior sem maiores prejuízos.