'De Volta para Casa' pensa imigração do ponto de vista asiático

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FOLHAPRESS - A assimilação do imigrante é um dos temas mais recorrentes da ficção americana. No cinema, ela está no pano de fundo dos mais diversos filmes, de faroestes a dramas familiares. É, por exemplo, um dos motes centrais de "O Cantor de Jazz", o primeiro filme sonoro.

"De Volta para Casa" pode ser visto como parte de um forte esforço recente do cinema americano para pensar a questão do ponto de vista da população asiática do país historicamente pouco servida pelo seu cinema, como visto em filmes como "Minari", indicado ao Oscar neste ano, e "A Despedida".

Dentro desse cenário é relevante destacar que se trata de um filme de Wayne Wang, diretor nascido em Hong Kong, mas formado nos Estados Unidos, que foi o primeiro cineasta asiático-americano a conseguir projeção no cinema local.

Seu segundo longa "Chan Is Missing" tem um lugar pioneiro essencial, é parte importante do cenário independente americano dos anos 1980 e serviu como ponto de partida para uma carreira bastante eclética, provavelmente mais lembrada por dois sucessos dos anos 1990, "O Clube da Felicidade e da Sorte" e "Cortina de Fumaça".

Wang sempre manteve um interesse constante em ideias sobre deslocamento e pertencimento que encontram eco aqui.

O filme encontra um bom ponto de partida para tratar do tema. Temos um filho, papel de Justin Chon, escritor de algum sucesso, que retorna à casa para cuidar da mãe, vivida por Jackie Chung, que está nos últimos estágios de um câncer de estômago. A experiência de assimilação se torna esse desencontro entre o filho americano e a mãe coreana que dividem o mesmo espaço.

É um misto de intimidade do seio familiar e a distância entre o filho educado nas melhores escolas perfeitamente inserido na sociedade americana -em determinado momento, pressionado, ele admite nunca apresentar suas namoradas porque nenhuma delas é coreana- e a mãe simples e tradicional.

O filme é hábil em navegar essas tensões com a pouca paciência do filho para com a família, encontrando contraponto na dificuldade da mãe de reconhecer como ela mesma segue central para ele.

Wang adapta aqui um ensaio bastante pessoal que o escritor coreano-americano Lee Chang-Rae escreveu para a revista The New Yorker nos anos 1990, sobre a sua mãe. Lee coescreveu o filme com Wang, e algo que se destaca em "De Volta para Casa" é justamente a especificidade com que a relação é construída.

Em seus melhores momentos, o filme se beneficia dessa proximidade, sobretudo quando observa tanto os pequenos rancores como os reconhecimentos mútuos de duas pessoas que partilharam toda uma vida a despeito do seu distanciamento.

O cineasta e seu corroteirista são menos felizes quando tentam expandir a ação do filme. "De Volta para a Casa" é sempre mais forte quando reduz seu foco nas suas duas personagens principais. O filme é marcado por flashbacks, alguns recentes, já com a mãe doente, e outros da juventude do protagonista. Aqueles que buscam situar a relação na família como um todo patinam.

A subtrama sobre as possíveis traições do pai ou uma discussão com a irmã sobre o desejo da mãe de encerrar o tratamento se revelam frágeis. A ideia de organizar o filme a partir do preparo dos alimentos para reforçar a presença da tradição também permanece subdesenvolvida.

Wang opta por um estilo despojado. Poucas palavras são trocadas entre personagens que se conhecem profundamente. Muito é comunicado por silêncios e linguagem corporal. Existe uma grande atenção para o apartamento da família, com um retorno constante a imagens que procuram reforçar a ressonância daquele lugar para as personagens centrais. A secura de estilo reforça o desejo de Wang por uma abordagem menos sentimental.

"De Volta para a Casa" se revela uma obra dividida entre a narrativa do filme de imigrante americano, que procura respeitar, e o desejo de Wang de retomar a tradição do drama familiar asiático. O filme está no seu melhor quando permite que as preocupações do primeiro encontrem ressonância na força dramática do segundo.

DE VOLTA PARA CASA

Classificação 12 anos

Elenco Justin Chon, Jackie Chung, Christina July Kim, John Lie

Produção EUA/Coreia do Sul, 2019

Direção Wayne Wang

Avaliação Bom

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