Voltando à vida

Faz duas semanas que estou morrendo de inveja — felizmente, de mim mesma. Reparem só: há quase três anos eu não ia a um show. Pandemia, quarentena, medo de lugares fechados, todo mundo passou por isso. E aí eu saí da casca como? Indo assistir a Adriana Calcanhotto no Manouche.

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Quem conhece o Manouche sabe: não é bem um teatro, é um ovo. Dá para contar o público nos dedos das mãos de meia dúzia de pessoas, se tanto.

Imaginem então esse ambiente minúsculo e acolhedor, cortinas vermelhas, uns drinques e a Adriana Calcanhotto com o seu violão e aquela voz, cantando o repertório que circula pelas veias da gente há tanto tempo.

Não é para morrer de inveja? Pois é.

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Adriana Calcanhotto é a presença mais suave de uma paisagem musical cheia de protagonistas esculpidos em néon. Nós vivemos ofuscados — até que ela canta, e põe todos os nossos sentimentos em ordem.

O cuidado (e o prazer) que tem com as palavras, as suas aliterações, as suas rimas nem sempre explícitas: ela canta e compõe como quem faz um bordado, ponto por ponto, cor e forma.

Saí do Manouche com a alma restaurada, me perguntando como pude passar tanto tempo sem ouvir alguém cantando só para mim no meio do mundo. Ali, naquele pequeno espaço, cada música foi dirigida a cada um de nós, em insuperável particular coletivo.

Agradeço às telas e às lives que me fizeram sobreviver à quarentena, mas a experiência de dividir com outras pessoas a felicidade de um momento único não tem igual.

Era exatamente o que eu estava precisando.

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Dois dias depois, meus netos me fizeram um convite: queriam me levar para o show do Porchat no Teatro Casa Grande. Já tinham assistido ao espetáculo, quase morreram de rir e queriam compartilhar a aventura comigo.

De modo que lá fui eu novamente, como se, nos últimos anos, não tivesse virado uma espécie de eremita (meio por pandemia, mas um tanto também por inclinação).

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O Teatro Casa Grande é o oposto exato do Manouche — já está no nome. Aquela plateia enorme, aquele espaço imenso.

Meus netos sabem das coisas. Fábio Porchat encadeia um caso no outro, descobre problemas universais nos detalhes mais banais do cotidiano e faz rir com leveza, como se o mundo ainda fosse um lugar divertido e habitável.

Durante uma hora e meia consegui me esquecer da política, da violência e do catálogo de desgraças do noticiário.

Era exatamente o que eu estava precisando.

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No sábado, finalmente, a minha irmã me levou à ópera. Eu já nem me lembrava mais de que ainda se fazem óperas no Rio, mas eis que sim. E “Don Giovanni”, nada menos.

“São três horas de ópera!”, avisava o vendedor de balinhas nas escadas do Municipal.

São. Mas “Don Giovanni” é uma obra-prima de ponta a ponta, e elas passam mais rápido do que se gostaria: não há árias mortas, não há acorde que não reverbere na memória de quem já ouviu essa ópera tantas vezes, ou não surpreenda quem a ouve pela primeira vez.

A montagem de André Heller-Lopes é despojada mas criativa, um esforço de superação bem-sucedido numa cena cultural devastada.

Era exatamente o que eu estava precisando.

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