Voluntários se unem para reflorestar a Serra da Posse, na Zona Oeste do Rio

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RIO — Localizada no coração da Zona Oeste do Rio de Janeiro, a Serra da Posse está sendo reflorestada por um grupo de moradores das redondezas que criaram um coletivo denominado "Nosso Bosque”. A iniciativa, que já conseguiu recuperar dez por cento da vegetação do conjunto de morros, onde antes só havia capim-colonião, trouxe de volta várias espécies de aves e pequenos mamíferos nativos da Mata Atlântica.

Encrustado entre os bairros de Campo Grande, Santíssimo e Senador Augusto Vasconcelos,esse fragmento de floresta está sendo resgatado pelo esforço dos membros do coletivo que surgiu devido ao incômodo com a degradação da área, como conta o fundador, o produtor audiovisual Thiago Neves, de 36 anos.

— Depois de muito tempo, voltei a morar aqui na Zona Oeste do Rio, extamente nos limites da Serra da Posse. O local estava um lixão, e isso me dava muita tristeza porque víamos, eu e minha esposa, um potencial para um ambiente de convivência. Expressei essa angústia nas redes sociais, criando o perfil do “Nosso Bosque”, e vi essa ideia crescer com o engajamento de outros moradores. Aqui todos podem ser um colaborador, não precisa de formação em ecologia, somente ter boa vontade para somar junto ao grupo — afirma.

O sonho dos membros do “Nosso Bosque” é transformar a Serra da Posse em uma Reserva Ambiental com sede, como o Parque da Catacumba, por exemplo. Porém, segundo eles, o poder público ainda não está assumindo as demandas para isso.

— A gente (Nosso Mundo) funciona como um síndico, mas é preciso que o poder público se faça presente. Ainda tem gente que vai jogar lixo na mata, outro que vai caçar passarinho, e um terceiro botando fogo. A resposta das autoridades para fiscalizar e coibir essas ações não é no tempo que deveria. Ninguém joga um entulho e fica três dias na Lagoa Rodrigo de Freitas, por exemplo, mas aqui, na Serra da Posse, fica três meses — desabafa.

A Serra da Posse, que segundo o “Nosso Bosque”, possui cerca de 2 milhões de metros quadrados e cerca de 60 mil pessoas morando no entorno, pode ser uma área de lazer para a região tão escassa desse tipo de espaço. Para o professor de Geografia da PUC-Rio Richieri Sartori, que ministra a disciplina “Restauração Ecológica”, a pandemia mostrou que o contato com a natureza traz benefícios psicológicos para as pessoas, além dos outros proveitos já conhecidos como o equilíbrio térmico, o controle de deslizamento das encostas e aumento da qualidade do ar.

— Há, sobretudo, um benefício psicológico na oportunidade de morar ou frequentar cotidianamente uma floresta. A gente percebeu isso na pandemia, ficamos trancados sem o contato com as pessoas, então recorremos a experiências de contato com a biodiversidade, isso tem o nome de biofilia — explica.

O pesquisador pontua, também, que a revitalização desse conjunto de morros especificamente pode contribuir para a migração das aves em seu processo de acasalamento, o que ajuda no equilíbrio ecológico.

— Esse fragmento florestal tem uma importância grande para as outras espécies além da humana, pois a Serra da Posse liga duas outras reservas ambientais, a da Pedra Branca e a do Mendanha. A gente chama isso de trampolim e funciona como corredores ecológicos, os animais se movimentam de reserva em reserva, eles não percorrem um fluxo contínuo até o seu destino — esclarece.

Entre os membros mais atuantes do coletivo, está o mestrando em botânica Gabriel Guimarães, de 24 anos, que acredita que a atuação do grupo pode não só trazer bem-estar aos moradores da região, mas, também, difundir a conscientização ambiental.

— Quanto mais a floresta vai ficando verde, a comunidade ao entorno vai ganhando uma área de lazer. Há, ainda, outros benefícios adquiridos, como: o aumento da qualidade do ar, e o equilíbrio térmico. Tudo isso vai gerando um engajamento na promoção e preservação da floresta, pois a população vai sentindo a diferença no cotidiano — defende

O local possui em seu entorno cerca de 35 escolas, segundo o "Nosso Bosque", que viu no grande número de unidades educacionais uma oportunidade de promover a educação ambiental. O coletivo já conta com alguns professores voluntários, como Carolina Brandão, de 37 anos, que leciona sociologia em um colégio da rede estadual, que acredita que entre os méritos de uma boa educação está a promoção da consciência social.

— O papel da escola é formar cidadão. Eu penso que tem como englobar diversas áreas do saber para despertar um sentido de pertença sensibilizando esses estudantes o cuidado e preservação do meio ambiente. Estou selando uma parceria com a professora de biologia, juntas vamos colocar a semente da cidadania nesses jovens. A gente precisa mostrar para eles que uma sociedade melhor só vai se construir com a participação ativa de cada um — afirma.

Além do replantio, o “Nosso Bosque” propõe outras iniciativas, como fotografia de aves, trilhas, pinturas da mobiliário urbano e festivais de pipa a fim de sensibilizar e conscientizar a população da importância e dos benefícios de se preservar essa porção de Mata Atlântica.

*Estagiário sob a supervisão de Giampaolo Braga

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