Voto de protesto da esquerda radical vira ameaça para Macron

Antonio Torres del Cerro.

Paris, 2 mai (EFE).- O voto de protesto da esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon, cujos militantes defenderam nesta terça-feira que os eleitores escolham entre as opções branco e nulo, tornou-se uma ameaça às pretensões do social liberal Emmanuel Macron, que disputará a presidência da França com a ultradireitista Marine Le Pen no pleito de 7 de maio.

Os resultados da consulta pública na internet feita pelo movimento França Insubmissa e divulgados hoje, na véspera do debate transmitido pela televisão entre os candidatos, acrescentaram incerteza às eleições.

Dos 243.128 seguidores que participaram - um pouco mais da metade dos inscritos -, 36,12% se disseram a favor do "voto branco ou nulo", 34,83% por Macron e 29,05% por uma abstenção. O voto em Le Pen estava excluído das opções.

Segundo analistas políticos franceses, estes resultados são um sintoma de que a abstenção e os votos nulos ou brancos podem ser elevados, uma situação que pode levar a um triunfo da política de extrema direita em 7 de maio, pois é a que tem entre suas bases um menor índice de abstenção.

Em seu comunicado, a França Insubmissa afirmou que não tentava dar uma indicação de voto, "mas sim refletir a opinião dos simpatizantes sobre sua opção no segundo turno" das eleições.

Tanto o favorito Macron, que no primeiro turno teve 8,6 milhões de votantes (24,03%), como Le Pen, que recebeu 7,6 milhões (21,3%), têm nos eleitores de Mélenchon um fiel da balança, já que ele obteve 7 milhões de apoios nas urnas em 23 de abril.

Le Pen tentou seduzir os apoiadores do político de extrema esquerda com sua proposta "antissistema", contra a "globalização selvagem" e "os poderes financeiros".

Segundo uma pesquisa diária do instituto Ifop, 13% dos eleitores de Mélenchon estão prontos para votar na ultradireitista. No entanto, outra consulta, do instituto Elabe, mostra que esse apoio é de 23%.

Macron, um candidato pró-União Europeia com apoio nas classes mais altas, ainda seduz mais eleitores de Mélenchon que Le Pen, que atrai as camadas populares, embora essa diferença não seja tão amplia como há uma semana.

O candidato social liberal e o político esquerdista se criticaram mutuamente e não mostram estar na mesma frequência.

Macron lamentou não contar com o apoio dele para impedir uma vitória de Le Pen, e Mélenchon lhe pediu, sem sucesso, que retire de seu programa a reforma trabalhista como condição para que seus eleitores se possam se mobilizar e votar nele.

O líder da França Insubmissa foi também muito criticado por políticos de centro-direita e os socialistas por não ter dado uma manifestação clara de voto contra Le Pen e a favor do candidato centrista.

"É extremadamente chocante (Mélenchon) não ter uma posição mais clara sobre a Frente Nacional", ressaltou a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, em uma entrevista.

Para a política socialista, "há uma grande banalização da Frente Nacional" (partido de Marine Le Pen), e "existem vínculos entre os colaboracionistas com os nazistas e os fundadores do partido".

Apesar do avanço da ultradireita nas pesquisas - cinco pontos percentuais, segundo algumas -, o ex-banqueiro Macron ainda conta com ampla vantagem, liderando com 60% das intenções de voto, contra 40% de Le Pen.

Na véspera do único debate anterior às eleições de 7 de maio, Macron e Le Pen embainharam as armas e tiveram agendas discretas, sem grandes atos públicos.

O social liberal, de 39 anos, recebeu dois novos apoios, o da associação de prefeitos rurais da França e o do ex-ministro de Finanças da Grécia Yanis Varufakis.

Hoje, o candidato conservador François Fillon, derrotado no primeiro turno, pediu a seus eleitores para que votem contra Le Pen, pois seu projeto "empobrecerá" de "forma irremediável" a França e isolará o país.

Já a atriz Brigitte Bardot pediu nas redes sociais para que os amantes dos animais "não votem em Macron", porque seu projeto não se preocupa com os maus-tratos a eles. EFE