'Vou viver apenas para ver quem fez isso ser preso', diz mãe de um dos soldados carbonizados em São Gonçalo

Gisele Barros e Rafael Nascimento
Fabiana Xavier com o filho Victor Hugo Xavier, soldado morto carbonizado em São Gonçalo

Fabiana Xavier, mãe de Victor Hugo Xavier, soldado do Exército encontrado em um carro carbonizado em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, na segunda-feira, dia 13, conta que apenas foi possível identificar o corpo por conta de uma corrente que ele usava. Dois dias após o enterro, a auxiliar administrativa diz só ter forças para lutar por Justiça.

— Eu não quero que caia no esquecimento, quero Justiça. Quem fez isso com meu filho matou não só ele, mas toda a família. Eu sinceramente não sei como vai ser minha vida daqui em diante. Tenho a sensação de que arrancaram metade de mim, que vou viver apenas para ver quem fez isso ser preso — lamenta a mãe.

Fabiana conta que Victor Hugo lhe avisou que estava a caminho de casa por volta de meia-noite, após assistir uma partida de futebol em uma boate no bairro Mutondo. Ela decidiu dormir logo depois e pela manhã recebeu a notícia de que o filho não voltaria mais para casa.

— Ele saiu no domingo às 16h para ver o jogo com amigos. Por volta de 20h, mandei uma mensagem perguntando onde ele estava, porque eu e o pai passamos por perto. Compramos um lanche, mandei foto e ele pediu para guardar porque comeria quando voltasse. Meia-noite, por conta da demora, questionei novamente e Victor me avisou que já estava a caminho de casa. Depois de tudo que aconteceu é que eu soube que na verdade naquela hora ele estava a caminho de um bar em outro bairro, e só por volta de 2h é que ele o amigo decidiram levar uma amiga para casa e depois retornar — conta Fabiana.

Logo pela manhã, Fabiana recebeu uma ligação do capitão do quartel onde o jovem era lotado, informando que o soldado e outro colega não se apresentaram. Preocupada, a mãe avisou que tentaria localizá-lo, mas pouco tempo depois recebeu do mesmo militar a notícia de que a polícia havia encontrado um carro carbonizado com dois corpos dentro e que havia a suspeita de que as vítimas seriam os jovens desaparecidos.

— Meu filho entrou para o Exército em fevereiro e era muito responsável com as tarefas do quartel, não faltou um dia. Por isso fiquei preocupada assim que recebi a notícia. Depois do telefone eu corri para o IML. Eu não sei explicar o que senti ali. Eu quase não tive a possibilidade de identificar meu filho e ainda preciso de um exame de DNA para conseguir o atestado de óbito — diz.

Sonho de seguir a carreira militar

A mãe conta que o filho pretendia ser cabo, e tinha o sonho de seguir a carreira militar. No enterro, foi reconfortada pela presença de cerca de 100 pessoas, entre familiares, amigos e colegas do quartel, que prestaram a última homenagem para Victor no cemitério Parque da Paz mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia do novo coronavírus.

— Eu e meu marido sempre avisamos para o Victor que ele deveria evitar aquele bairro, mas infelizmente jovem tem essa mania de achar que não será atingido. Era um menino muito querido, tinha uma família unida que o amava, um irmão mais novo que o via como exemplo. Tudo isso foi destruído — lamenta.

A outra vítima foi identificada por meio de um exame de arcada dentária. Daniel Ferreira de Azevedo tinha 19 anos e foi enterrado no município de Trajano de Moraes, na Região Serrana do Estado. O carro onde a dupla estava pertencia ao pai dele. O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI) e segundo o delegado Mario Lamblet, a polícia trabalha com diversas hipóteses para a motivação do crime.

— O que sabemos é que tudo aconteceu em um lapso de mais ou menos quatro horas, entre o momento em que os dois deixam o bar, até a hora que a polícia é chamada para a ocorrência no bairro do Pacheco. As imagens das câmeras de segurança do estabelecimento onde estavam não registraram qualquer discussão ou briga. Estamos verificando, portando, se havia um conflito entre facções criminosas no local, se a dupla teria sido confundida com policiais por traficantes, se eles conheciam o local ou pegaram o caminho errado e até se teriam participado de uma festa na localidade. Nenhuma possibilidade pode ser descartada ainda — revela o delegado.

Na tarde desta quarta-feira, o Portal dos Procurados divulgou um cartaz para ajudar a DHNSGI com informações que possam levar a identificação e localização dos envolvidos nas mortes dos soldados.Quem tiver qualquer informação a respeito da identificação e localização dos envolvidos nas mortes pode fazer uma denúncia nos seguintes canais: Whatsapp Portal dos Procurados (21) 98849-6099; pelo Facebook/(inbox), pela mesa de atendimento do Disque-Denúncia (21) 2253-1177, ou pelo Aplicativo para celular – Disque Denúncia e também pelo Twitter e Instagram. Em todos os casos o anonimato é garantido.

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