Wajgarten culpa Ministério da Saúde por falta de vacinas no país: "Time pequeno e sem experiência"

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Brazil's Chief of the Secretariat of Social Communication (SECOM) Fabio Wajngarten looks on during the ceremony marking his 400 days in office at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil February 5, 2020. Picture taken February 5, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Fabio Wajngarten disse que tentou negociar vacinas com a Pfizer ainda em 2020, quando empresa ofereceu 70 milhões de doses (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
  • Wajngarten afirmou que tentou negociar compra de 70 milhões de vacinas da Pfizer

  • Ex-secretário de Comunicação criticou a equipe do Ministério da Saúde

  • Para Wajngarten, culpa da falta de vacinas não é de Jair Bolsonaro

O ex-secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, revelou que ele foi o responsável por tentar negociar a compra de vacinas da Pfizer contra a covid-19, ainda em setembro de 2020. Ele atribui a falta de imunizante ao Ministério da Saúde, que na ocasião estava sob o comando de Eduardo Pazuello. Segundo Wajngarten, o time à frente da parte da “pequeno, tímido e sem experiência”.

Em entrevista à revista Veja, Wajngarten disse que soube da proposta da Pfizer, de 70 milhões de doses da vacina, após ser procurado por um dono de veículo de comunicação. Foi então que ligou para o CEO da empresa.

“Foi uma conversa surpreendente. Ele relatou o que havia acontecido — ou melhor, o que não havia acontecido. O Ministério da Saúde nem sequer havia respondido à carta. Sou filho de médico e sei o que representa a tradição da Pfizer, sei quanto a vacinação é importante e também como isso poderia implodir ou incensar a imagem do presidente da República”, declarou à Veja.

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Segundo Fabio Wanjgarten, ele entendia que era importante negociar com a Pfizer para impedir críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “Me coloquei à disposição para negociar com a empresa, antevendo o que estava para acontecer: o presidente seria atacado e responsabilizado pelas mortes”, declarou.

Questionado sobre o motivo pelo qual as negociações não avançaram, o ex-Secom alegou que, sim, avançaram, mas que a situação travou no Ministério da Saúde.

“Existiam as três famosas cláusulas leoninas do contrato. A primeira delas, o foro para a solução de conflitos. A Pfizer queria uma câmara arbitral de Nova York. A segunda era a isenção de responsabilização e indenização. E a terceira era a edição de uma medida provisória em que o Brasil garantisse com ativos potenciais danos financeiros. Essas foram as cláusulas que dificultaram a negociação no ano passado. Houve várias reuniões para discutir e tentar superar esses obstáculos.”

Críticas a Eduardo Pazuello

Inicialmente, Wajngarten disse à Veja que nunca trocou mais que um “boa tarde” com o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Por isso, seria “leviado” critica-lo.

No entanto, ao explicar o motivo pelo qual o contrato com a Pfizer não foi concretizado, afirmou que foi por “incompetência e ineficiência” da equipe que gerenciava o Ministério da Saúde no período.

“Incompetência e ineficiência. Quando você tem um laboratório americano com cinco escritórios de advocacia apoiando uma negociação que envolve cifras milionárias e do outro lado um time pequeno, tímido, sem experiência, é isso que acontece”, declarou à Veja.

Bolsonaro sem responsabilidade

Chief of the Secretariat of Social Communication Fabio Wajngarten, mutes the microphone for Brazil's President Jair Bolsonaro, during a Flag Day ceremony at the Alvorada Palace, in Brasilia, Brazil November 19, 2019. REUTERS/Ueslei Marcelino
Ex-secretário de Comunicação, Wajngarten isentou Bolsonaro da responsabilidade pela falta de vacinas (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

Sobre o presidente da República, que Wajngarten acompanha desde 2016, o ex-secretário de Comunicação disse que Jair Bolsonaro está “totalmente eximido de qualquer responsabilidade”. Para ele, se as coisas aconteceram, “não foi por culpa do Planalto”.

“Ele era abastecido com informações erradas, não sei se por dolo, incompetência ou as duas coisas. Diziam que a pandemia estava em declínio e que o número de mortes diminuiria muito até o fim do ano”, declarou.

Apesar de acreditar que Bolsonaro não é responsável, Wajngarten entende que o presidente pode, sim, sofrer as consequências da pandemia do coronavírus na eleição de 2022. “Se as pessoas creditarem ao presidente a responsabilidade pelas mortes durante a pandemia, isso pode impactar a reeleição em 2022”, opinou.

Wajngarter deve ser um dos primeiros a depor na CPI da Covid no Senado Federal.

Saída da Secom

Sobre a saída do cargo de secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten disse à Veja que a decisão de deixar o posto foi dele.

Ele afirma que lutou para que a “melhor vacina naquele momento chegasse aos brasileiros no menor tempo possível”.

“Porém, pessoas ligadas ao então ministro da Saúde começaram a plantar notícias de que eu estaria tentando ajudar a Pfizer por interesses pessoais. Foi a gota d’água para eu decidir sair do governo. Eu contraí Covid, até hoje sofro com as sequelas da doença, três dos meus melhores amigos foram intubados, dois se salvaram e um faleceu. Eu precisava de mais motivos para tentar acelerar a compra de vacinas?”, questionou.