A despedida de Wanderson Oliveira do Ministério da Saúde: 'Tinha uma pedra no meio do caminho'

Wanderson Oliveira, um dos escudeiros do SUS no combate à covid-19. (Photo: Andressa Anholete via Getty Images)

O ex-secretário de Vigilância em Saúde Wanderson Oliveira foi o último dos escudeiros do SUS (Sistema Único de Saúde) na gestão de Luiz Henrique Mandetta a deixar o Ministério da Saúde. Exonerado a pedido em 25 de maio, o epidemiologista foi responsável por desenhar a estratégia de prevenção e combate à covid-19 no Brasil. Ao lado de Mandetta e de João Gabbardo, ex-secretário-executivo, compunha o trio de sanitaristas que se tornou referência para os brasileiros diante do avanço do novo coronavírus no País.

Wanderson escreveu uma carta aberta, plena de gratidão, para marcar o período em que esteve à frente da Secretaria de Vigilância em Saúde. Além dos elogios a Mandetta — “um dos melhores ministros com quem trabalhei”, ao lado de José Gomes Temporão e Agenor Álvares — e seus companheiros secretários (a maioria exonerada), elogiou o ministro Nelson Teich, que ficou menos de um mês no cargo. “Creio que faríamos um ótimo trabalho”, afirmou.

Lamentavelmente Teich não teve tempo de mostrar seu trabalho, pois novamente 'tinha uma pedra no meio do caminho'.

A célebre frase da literatura brasileira foi usada duas vezes em seu texto: “Estávamos à frente pelo menos duas semanas em relação aos demais países da Europa e Américas, ampliando a capacidade laboratorial, leitos, EPIs [Equipamentos de Proteção Individual] e Respiradores. No entanto, como dizia o poeta e conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, ‘no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho’.” 

A “pedra no caminho” é uma possível referência à postura do presidente Jair Bolsonaro, um dos maiores críticos ao isolamento e ao distanciamento social como medidas de conter a propagação do novo coronavírus.

Hoje, enquanto países europeus que foram epicentro da covid-19, como Espanha e Itália, atravessam os primeiros dias de desconfinamento, o Brasil está no pico de contaminações, com quase 400 mil casos e 24,5 mil mortes, e é o epicentro da doença no mundo. A curva de casos continua em alta.

Wanderson também deu seu recado ao ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello. Lamentou que não pode apresentar a ele “os elementos das decisões adotadas” em sua gestão. 

“Sobre a resposta à pandemia da covid-19, seria muito bom conhecer o contexto de cada decisão que foi tomada, pois nem tudo que se vê é o que parece, nem tudo que parece é o que realmente é. Há muita história em cada decisão que deve ser contextualizada ao seu tempo”, escreveu ao general.

Ressaltou a importância de Pazuello valorizar o que dizem os secretários de saúde estaduais e municipais e o CNS (Conselho Nacional de Saúde), colegiado formado por profissionais de saúde, usuários do SUS, gestores e prestadores de serviço. 

Wanderson lembrou que o CNS foi criado em 1941, durante a 2ª Guerra Mundial, e que “as Forças Armadas sempre tiveram papel importante na estruturação da vigilância epidemiológica”.

Ex-secretário se despede de funcionários do Ministério da Saúde. (Photo: Divulgação)

Leia a íntegra da carta publicada originalmente aqui.

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