Wandinha x Wednesday: como são feitas as traduções de nomes de personagens em filmes e séries

Wandinha Addams circula com esse nome pelo Brasil desde 1965, quando a série "A família Addams" estreou na TV Rio. Mas a geração Z tem estranhado e discutido a escolha da Netflix por Wandinha e não Wednesday. A própria plataforma de streaming fez piada isso, chamando-a de "Quartinha". Mas, afinal, como é feita a tradução de nomes de personagens de filmes e séries estrangeiros atualmente? Que fatores são levados em conta? A Netflix não respondeu à reportagem, mas diretores de dublagem e tradutores explicaram como funciona o mercado.

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Não se sabe por que a equipe de tradução e dublagem da Dublasom escolheu este nome para substituir o original Wednesday, mas, na época, era praxe adaptar para o português estes estrangeirismos. Ainda mais aqueles cuja tradução literal (quarta-feira, inspirado num poema da literatura inglesa) não fazia sentido na cultura nacional. Desde então, nos desenhos animados, filmes e agora na série lançada pela Netflix, o nome Wandinha segue dominante no imaginário de diversas gerações.

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Tradutora de "Wandinha" para dublagem no Brasil, Fabiana Poppius conta que, desde o início, a plataforma de streaming orientou a equipe para manter os nomes consagrados em português não só da personagem principal, como do Tio Chico, Mãozinha, Feioso e o resto da família.

— Imagino que isso tenha sido pedido para manter a consistência com os outros produtos da família Addams — explica Fabiana.

Ela acha importante traduzir nomes de personagens, especialmente em universos da fantasia para que eles façam sentido às audiências locais, mas reitera que "cada caso é um caso":

— Existe contexto e outras série de fatores para se tomar essa decisão. Nada em tradução é absoluto.

Fabiana trabalhou na mesma equipe de Felipe Drummond, diretor de dublagem de Wandinha. Ele frisa a importância da tradução para tornar a experiência mais imersiva possível.

— Depende muito do projeto, mas a tradução de nome é feita para ser mais próxima da realidade do público. É para tornar a experiência mais imersiva — diz ele, que, como a maioria dos dubladores e tradutores em atividade hoje em dia, não sabe por que escolheram Wandinha para Wednesday. — Mas minha hipótese é que esteja relacionado ao movimento labial. Funciona bem para dublagem.

Casos de marketing

Se manter Wandinha com esse nome faz sentido por causa da estrada que ela percorreu no passado, isso nem sempre acontece com outros personagens. É o caso do ursinho Puff, hoje chamado de Pooh, como em inglês; ou a fada Sininho, de "Peter Pan", que as crianças brasileiras de agora conhecem como Tinker Bell. Tradutor e diretor de dublagem, Sérgio Cantú explica que decisões de abandonar os nomes nacionais tem a ver com estratégias de merchandising:

— Muitas vezes, o distribuidor toma essa decisão porque quer lançar produtos e acha que, se o nome for o mesmo, pode facilitar em termos de mercado — diz Sérgio.

Responsável pela direção da primeira temporada de "Stranger things" (ele e a equipe estiveram envolvidos na tradução de Eleven para Onze, por ele ter uma função narrativa muito além de ser o simples nome de uma personagem), Sérgio diz que, às vezes, a equipe precisa somente adaptar a pronúncia.

— No filme "Valente" (2012), existe uma personagem que se fala "Mérida". Mas resolvemos falar Merida porque, com acento e falado rápido, poderia soar como m*** (risos) — diz Sérgio.

O que todos os tradutores e diretores de dublagem ouvidos pela reportagem são unânimes são unânimes em dizer é que, além dos distribuidores darem a palavra final nas decisões, não existe um manual:

— Não tem regra, cada produto é tratado de um jeito pelo cliente — diz Fernanda Baronne, diretora de dublagem.