'I wanna dance with somebody': Cinebiografia de Whitney Houston traz drama real embalado por drogas e voz imbatível

Naomi Ackie quase não canta em “I wanna dance with somebody — A história de Whitney Houston”. Peralá. A frase não é exata. Em quase todas as cenas da primeira cinebio autorizada pela família da cantora e atriz, encontrada morta em 2012 aos 48 anos na banheira de um quarto de hotel de Los Angeles, a inimitável voz que se ouve é, de fato, a da diva. Mas, no estúdio, a atriz inglesa de 30 anos entoou afinada cada nota das 22 canções do longa. Feito fundamental para a montagem do filme, a partir de hoje nos cinemas brasileiros.

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— Acabei fazendo algo que pouca gente conseguiu na vida: cantei com Whitney. E, mais do que me intimidar, o processo me deu segurança, pois ela estava lá comigo, segurando minha mão. Foi um alívio — conta a atriz, vencedora do Bafta (uma espécie de Oscar britânico) pela série “The end of the f***ing world” e conhecida do público pela Jannah de “Star wars: a ascensão Skywalker”.

Reza a lenda que a prima da cantora — ninguém menos do que Dionne Warwick — pontificou a frase, depois repetida à exaustão: “Ninguém cantou como Whitney”. A dona do suingue de “Walk on by”, assim como sua mãe, Lee, e a tia, Cissy, rouxinóis do gospel e backing vocals de Aretha Franklin, foram as três primeiras influências da futura hitmaker de “Greatest love of all”, “I will always love you”, “One moment in time” e, claro, “I wanna dance with somebody (who loves me)”. Quem avisa, aliás, muy amigo é: esta última segue tão chiclete como em 2 de maio de 1987, quando o single foi lançado.

Família é palavra central no longa dirigido por Kasi Lemmons (de “Harriet”, em que perfila a ativista política e ícone da democracia racial americana Harriet Tubman), com roteiro de Antony McCarten (de “A teoria de tudo” e “Os dois Papas”). É por meio dela que se percorre a história da menina preparada desde cedo para brilhar no palco, a idolatria competitiva com a mãe, dona Cissy (Tamara Tunie), e a relação ainda mais conflituosa com o pai, seu John (Clarke Peters, da série da HBO ‘Treme”), de olho na exploração econômica do talento da filha. Das paixões platônicas ao casamento com o colega Bobby Brown, do divórcio em público à dependência química, inclusive de crack, que levaram à perda da voz perfeita, da feia exposição nos tabloides às contradições da maternidade, o que se vê na tela é uma cinebio tradicional.

A produção teve acesso a diálogos íntimos e conversas de bastidores e trata sem censura do romance ainda adolescente de Whitney com sua primeira produtora e melhor amiga da vida toda, Robyn Crawford (papel de Nafessa Williams). Um dos méritos do filme é o de sublinhar a quase impossibilidade de se viver fora do armário no mundo do entretenimento em meio à ascensão yuppie conservadora dos anos Reagan. Com o agravante de que, no caso da menina-prodígio, família e indústria fonográfica investiram no molde da primeira namoradinha negra da América. Apesar dos mais de 200 milhões de discos vendidos, não deu tão certo assim.

— Os aspectos mais trágicos da vida dela me fizeram pensar que devemos ser mais delicados conosco, de que precisamos atentar para o balanço entre trabalho e vida pessoal, especialmente quando sua paixão se confunde com o que você faz profissionalmente. Depois das filmagens, tenho pensado cada vez mais nisso — conta Ackie.

Pai da também cantora Bobbi Kristina, que morreu três anos depois da mãe, aos 22 anos, após ser igualmente encontrada inconsciente em uma banheira, Bobby Brown não participou do longa. Vivido por um Ashton Sanders um tanto caricato, ele é esboçado no filme como um dos vilões da história. Já um dos colaboradores mais próximos da popstar, o produtor Clive Davis, midas da indústria fonográfica, papel de Stanley Tucci, surge como anjo da guarda dentro e fora dos estúdios. Ele é o produtor do filme.

— Whitney era “A Voz”, né? Mas, curiosamente, uma das cenas mais intensas para mim é a conversa que ela tem com Clive, quando ele diz a ela, de forma direta, que rehab é uma necessidade. Foi um momento que me exigiu de fato entender quem era Whitney, de forma profunda — diz Ackie.

Eleita de Kevin Costner

Além dos desastres, há presentes para os fãs no filme, entre eles um episódio curioso que inclui Davis e Kevin Costner. Foi o ator quem bateu o pé para contracenar com Whitney em “O guarda-costas”. Embora tenha sido um projeto pensado para Diana Ross na segunda metade dos anos 1970, o estúdio, mesmo após as argumentações do produtor e do então galã, tentou até o fim contar com uma protagonista branca. Estreia de Whitney no cinema, tornou-se a segunda maior bilheteria do planeta em 1992 e foi celebrado pela química entre ela e Costner em cena.

“I wanna dance with somebody” discute, com a perspectiva do presente, preconceito racial, de gênero e de identidade sexual. Faz uma reconstituição correta de épocas (dos anos 1980 a 2010) e tem atuação arrebatadora de Ackie, inclusive nos momentos em que ela solta a voz (dela). Mas não avança muito em relação aos documentários e programas disponíveis sobre a trajetória tão exitosa quanto trágica de Whitney Houston. O site Rotten Tomatoes resumiu, agridoce, as resenhas sobre o filme: “Você até sai do filme sentindo que estava no palco com Whitney, mas sentindo também que não dançou de verdade com ela.”