Weintraub reafirma que federais são centros de drogas e refletem uso desenfreado

PAULO SALDAÑA
BRASÍLIA, DF, 11.12.2019 – ABRAHAM-WEINTRAUB: O ministro da Educação, Abraham Weintraub, participa de audiência pública na Comissão de Educação da Câmara, em Brasília, nesta quarta-feira (11). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro da Educação, Abraham Weintraub, reafirmou nesta quarta-feira (11) em audiência na Câmara que universidades federais são locais de plantações de maconha, abrindo uma discussão acalorada com parlamentares.

Segundo ele, "as plantações de maconha são reflexo de um consumo desenfreado nas universidades". A declaração foi dada logo no início de sua fala, quando se iniciou discussões.

O ministro foi convocado na Comissão de Educação da Câmara para explicar ataques recentes feitos a universidades federais. O ministro acusou, em entrevista concedida em novembro, a existência de supostas "plantações extensivas de maconha" nas instituições e disse que laboratórios universitários seriam usados na produção de drogas sintéticas.

Reportagem do jornal Folha de S.Paulo mostrou que casos apontados pelo ministro não têm relação com universidades.

A audiência começou às 10h, e às 10h21 o bate-boca estava instaurado. O encontro foi brevemente interrompido pelo presidente da comissão, Pedro Cunha Lima (PSDB-PB), após Weintraub passar a exibir uma reportagem sobre um caso de suposta apreensão de drogas na UnB (Universidade Federal de Brasília), de 2017.

"Peço que leve a sério esse assunto. O assunto é sério, é a vida de jovens", disse o ministro quando congressistas de oposição começaram a fazer comentários críticos. O deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) deixou a comissão por discordar do tema, que pautou a convocação.

Weintraub exibiu no telão algumas reportagens sobre casos de apreensão de drogas, sem citar datas exatas, na UnB e também na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e UFG (Universidade Federal de Goiás).

"Esse é o ambiente das universidades", disse, enquanto as reportagens eram transmitidas. "Tudo pichado, tudo sujo", completou, ao comentar imagens de espaços estudantis. "O problema não é plantação em si, é o que ela reflete. O que eu quero para meus filhos é um ambiente seguro", disse.

Os reitores das universidades federais citadas pelo ministro foram à Justiça exigir explicações dele. A ação foi protocolada pela Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) na Justiça Federal de Brasília.

Deputados de oposição criticaram a atitude, alegando que o ministro usa casos desmentidos ou isolados para generalizar comportamentos nas universidades como um todo, o que poderia incorrer em prevaricação.

"Não podemos tomar incidentalidades como fatos que merecem uma abordagem dessa natureza", disse a deputada Margarida Salomão (PT-MG).

Parlamentares também mencionaram a apreensão de drogas no avião presidencial, em junho, na Espanha. "Se eu fosse usar o mesmo raciocínio, eu iria reiterar que o presidente seria responsável por ter em seu avião presidencial 39 quilos de cocaína", disse o deputado Bacelar (Pode-BA).

Em defesa do governo, o deputado Otoni de Paula (PSC-RJ) disse que as reportagens apresentadas e dados sobre apreensão de drogas no país são provas da situação.

Questionado, Weintraub disse que não citou casos de apreensão de drogas em instituições privadas porque foi convocado para falar das federais.

O ministro afirmou ainda que não acusou reitores e quis apenas expor a situação. Ele voltou ainda a defender a atuação da Polícia Militar nas universidades: "Pode ensinar o que quiser, falar de Karl Marx, não tem problema. Agora, a PM [Polícia Militar] tem que entrar nos campi.”

Ele criticou a atuação de oligopólios na área de educação, mas não citou a qual grupo estava se referindo —o deputado Alessandro Molon (Rede-RJ) desafiou o ministro a encaminhar projeto de lei que limite atuação desses grupos.

Desde que assumiu o cargo, em abril, Weintraub tem alimentado um perfil beligerante e de forte cor ideológica, tendo como alvo favorito as universidades federais, que pinta como instituições dominadas por grupos de esquerda, repletas de drogas, que não cumprem seu papel de ensino e pesquisa —o que não é corroborado por dados.

Por outro lado, o ministro já declarou que o ensino superior privado é prioridade para o governo. A Folha de S.Paulo revelou que uma decisão atípica da Capes, órgão ligado ao MEC, liberou um doutorado na Unisa, de São Paulo, controlada por Antônio Veronezi, empresário com quem o ministro mantém estreita relação.

Além disso, a Comissão de Ética Pública da Presidência da República apura a nomeação no MEC de uma advogada que até recentemente defendia empresas de educação superior.

A deputada Alice Portugal (PC do B-BA) questionou o ministro sobre a relação com Veronezi. "O que o senhor tem a dizer sobre isso, que se coloca como um homem probo e que não tem relações com pessoas que usam colares?", disse.

Weintraub, que não respondeu à reportagem em questão, disse que não é agente do mercado privado. "Esse empresário que a Folha, que é outro veículo mentiroso, da família Frias, falou que eu tenho ligação... Qual ligação eu tenho com ele? Quantas vezes eu tive com ele? A própria matéria fala [que] ele esteve com o ministro 10 vezes nos últimos 12 meses, teve muitos parlamentares que tiveram mais que isso", disse.

Desde abril, Veronezi foi recebido cinco vezes pelo ministro em seu gabinete e pelo menos outras dez vezes por secretários do MEC.

A reunião, que terminou apenas às 17h19, teve ainda críticas ao ministro, interrupções (uma delas der um manifestante usando guarda-chuva em alusão ao vídeo produzido e publicado por Weintraub no qual ele se dizia alvo de uma "chuva de fake news") e pedidos por sua demissão, amparados por seu uso constante de redes sociais para disparar crises.