De volta ao Brasil, Weintraub virou uma grande encrenca para Bolsonaro

Brazil's Education Minister Abraham Weintraub is seen before a national flag hoisting ceremony in front of Alvorada Palace, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil June 9, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Bolsonaro com seu então ministro da Educação Abraham Weintraub, em 2020. Foto: Adriano Machado/Reuters

Abraham Weintraub está de volta ao Brasil, após uma temporada de férias remuneradas em um banco nos EUA, e isso mudaria a vida de um total de 0 pessoas não fosse um detalhe: o ex-ministro da Educação e (por enquanto) aliado fiel de Jair Bolsonaro está ameaçando jogar água sobre os planos do presidente em 2022.

Isso apesar dos elogios travestidos de alertas contidos em declarações recentes sobre o ex-chefe do tipo: “eu não falo mal dele, não falo por várias razões. Não vou entrar em detalhes aqui. Tenho boas lembranças do presidente Bolsonaro. Assim como trabalhei em outros locais, e nos locais que você trabalha não é tudo cem por cento. Tem coisa errada que você pega”.

A frase acima, dita durante uma entrevista, é uma aula de ambiguidade passivo-agressiva. Um nada que pode ser tudo. Weintraub dá com uma mão e amansa com a outra. Não falar de alguém não significa não ter o que contar. Principalmente quando se sabe de “coisa errada que você pega”. Não ser 100% pode ser muita coisa dos 99% pra baixo.

Em seu retorno triunfal, o ex-ministro da Educação cometeu a indelicadeza de contar, em um programa de podcast, que o presidente tinha informação privilegiada sobre uma acusação prestes a explodir no colo de Flávio Bolsonaro no período entre as eleições e a posse. Um mês depois, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou em relatório movimentações suspeitas, de cerca de R$ 1,2 milhão, feitas pelo ex-assessor do filho, Fabrício Queiroz.

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Era o primeiro fio de novelo de um caso estranhíssimo que desbocou no escândalo das rachadinhas. Na ocasião, Bolsonaro teria dito aos futuros ministros que a investigação era problema do filho, não do governo, e que se ele tivesse algo a pagar pelos supostos crimes, que pagaria.

Em 2020, a briga para nomear um diretor de confiança da Polícia Federal no Rio, onde ocorria a investigação, foi o estopim para a saída do então ministro da Justiça Sergio Moro do governo. Moro caiu atirando e mostrando que os problemas dos filhos do presidente são problemas do governo, sim.

De duas uma. Ou Weintraub, pesando testemunhar a favor do ex-chefe, revelou um crime grave e reaqueceu inconscientemente a fogueira do inquérito da interferência do presidente na PF ou ele sabia muito bem o que estava fazendo.

Nenhuma das duas hipóteses é boa para o presidente.

Um touro solto numa loja de cristais é um touro solto numa loja de cristais mesmo que seja incapaz de racionalizar sobre coices e materiais espatifados.

Weintraub, o touro desgovernado, quer ser governador de São Paulo. Para isso, precisa de apoio do ex-chefe —aquele que não é lá 100%, mas por quem está disposto a manter a fidelidade em forma de silêncio.

Mas Bolsonaro tem outros planos para o estado, onde o lançamento do ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas, mais viável ao gosto do eleitor paulista ("ele é técnico, não político e bla-bla-bla"), é parte do acordo com seu novo partido, o PL de Valdemar Costa Neto.

Mas a aliança de Bolsonaro com o Centrão, onde estão as bases de sua candidatura, tem sido atacada pela antiga ala ideológica do governo. Além de Weintraub, Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Salles (Meio Ambiente) formam hoje um triunvirado de olavetes ressentidos pela decisão de Bolsonaro de afastá-los da gestão e abrir as comportas do governo para lideranças como Flávia Arruda (Secretaria de Governo), Ciro Nogueira (Casa Civil) e Fábio Faria (Comunicações). Araújo, por exemplo, acusa Faria de entregar a tecnologia 5G do Brasil para a China.

O trio está ou finge estar espantado com a descoberta de que Bolsonaro não é um “conservador-raiz” disfarçado de político, mas um político disfarçado de “conservador-raiz”. Quando a coisa apertou, ele não pensou duas vezes em se desfazer da fantasia e declarar que ele não se aliou ao Centrão; ele é o Centrão.

Afastados do governo quando viraram dor de cabeça, Weintraub, Araújo e Salles têm planos para 2022 e sabem que não chegarão longe sem a tração política do presidente amarrado até o pescoço ao Centrão e aos militares –outra ala para a qual a turma amalucada não ameniza nas críticas. Eles querem um pouco de atenção e gratidão pela preferência. Se não…Se não o quê?

Em tempo. Política é a arte de buscar consenso, mas também exige escolhas. O cobertor é curto e não tem desenho de frente ampla que coloque no mesmo palanque uma liderança de movimento sem-teto presa em uma ação policial bancada pelo governador.

A liderança é hoje um dos principais quadros políticos do país, finalista da última eleição na maior cidade do país e responsável por amarrar o PSOL ao barco do PT na eleição de 2022. O agora ex-governador é cortejado como candidato a vice do postulante petista como garantia de que manterá um canal de diálogo com as bases empresariais e religiosas com as quais o partido já não dialoga.

A aposta do ex-presidente Lula em trazer Geraldo Alckmin para sua chapa sofreu um abalo e tanto com as críticas públicas de Guilherme Boulos, que em sua coluna de despedida na Folha de S.Paulo cravou: “Lula, sim; Alckmin, não”. Ele tem articulado uma série de atos para lembrar os dez anos da desocupação de uma área em São José dos Campos marcada pela violência policial. Alckmin era o governador da época.

A aliança foi também atacada pelo ex-presidente do PT Rui Falcão.

Lula sabia que não seria fácil fazer parte dos aliados engolirem sua escolha para vice. Mas talvez apostasse que, a poucos meses da campanha, valeria a lógica de que entre os companheiros os embates se fazem internamente, mas em público se marcha unido. Se for essa a ideia, ela já não caminhou.

Para sorte dele, tão improvável quanto abandonar a ideia de ter o ex-tucano em seu barco por causa dos ruídos é a possibilidade de um desembarque dos aliados por conta da escolha. Mas ruído é ruído.