Werner Herzog: 'Nem sabia que existia cinema, então tive que inventá-lo'

Logo no início da nossa entrevista, o cineasta alemão Werner Herzog revela que não gosta de falar sobre ele mesmo nem sobre o que o deixa motivado.

— Meu conhecimento sobre mim mesmo é limitado, e não devemos nos aprofundar muito nisso. Não quero que isso acabe como um confessionário — disse ele mês passado, via vídeo. — Ainda tento evitar a introspecção psicológica.

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Herzog foge da autorreflexão, em parte, jogando-se no trabalho. Ele fez filmes em um número surpreendente: foram mais de 70 nos últimos 61 anos, segundo suas contas.

Agora com quase 80 anos, ele mantém sua sequência prolífica. Durante a pandemia, completou dois filmes e escreveu dois livros: um de memórias e, ainda mais surpreendente, seu romance de estreia, “O crepúsculo do mundo” (Editora Todavia).

Ficção da vida

Quando falou comigo pelo Zoom, mês passado, Herzog parecia um pouco rouco, mas de bom humor, tendo acabado de gravar a edição em áudio de “O crepúsculo do mundo”, logo após narrar o audiobook alemão para seu livro de memórias (com título provisório de “Every man for himself, and God against all”), que sai em agosto.

Mas o delírio criativo é permanente. Além dos dois livros escritos durante a pandemia, ele também terminou recentemente dois filmes: “The fire within”, que Herzog descreveu como “um réquiem” para dois vulcanologistas franceses que morreram há 30 anos em uma erupção no Japão, e “Theater of thought”, documentário sobre a natureza enigmática do cérebro.

— Tem muito sobre a vida performativa, a ficção da vida —diz Herzog. — Até os ratos às vezes preferem uma realidade fictícia à realidade da vida real.

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Durante nossa conversa, Herzog irradia intensidade. Ele parece incapaz de conversar ou explicar seu ofício. Em vez disso, entrega uma série de observações sobre a natureza escorregadia do tempo, a mutabilidade da consciência e a maneira como as pessoas (e os ratos, aparentemente) fabricam suas próprias realidades.

— Nós nos acomodamos em uma grande ficção do tempo presente. É uma ficção. Tecnicamente, o tempo presente não existe. Nosso senso de tempo presente é tecnicamente impossível, porque quando você levanta um pé do chão, levantá-lo já é passado, colocá-lo no chão já é futuro.

Humanos dignos

Herzog se irritou um pouco quando perguntei por que ele é atraído por histórias de fanáticos que se esforçam ao máximo para perseguir suas obsessões — figuras como Timothy Treadwell em “Grizzly Man”, cuja busca para interagir com ursos terminou com ele sendo espancado até a morte, e Lope de Aguirre, cuja missão de encontrar uma cidade perdida de ouro foi narrada por Herzog em seu drama histórico de 1972, “Aguirre, a ira de Deus”.

— São todos da família. Você reconhece seus irmãos — diz ele sobre seus súditos. — Acho que nenhum dos meus personagens é extremo nem estranho. Eles são seres humanos dignos e aceitam a luta da vida como ela é lançada contra eles.

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Ele mesmo poderia ser um exemplo do que diz.Nascido em Munique em 1942, Herzog teve uma infância tumultuada, desenraizada pela guerra e marcada pela pobreza. O hoje cineasta consagrado não viu um filme até os 11 anos de idade, algo que ele usou para forjar seu estilo distinto.

—Eu vi cinema tão tarde na vida pela primeira vez, eu nem sabia que existia, então eu tive que inventá-lo — disse.

Acidentes bizarros

Herzog caiu no encanto dos filmes B americanos como “Zorro” e passou a escrever roteiros. Começou seu primeiro filme, “Herakles”, com 19 anos. Lançou seu primeiro longa-metragem, “Signs of life”, em 1968, com aclamação imediata da crítica e do júri de prêmios, reputação que se consolidou nos anos 1970 e nos anos 1980, ao entregar uma série de filmes premiados.

Nas últimas duas décadas, Herzog viveu em Los Angeles, em um bangalô em Laurel Canyon, com Lena, uma fotógrafa. Além de ler e cozinhar para os amigos, tem poucos hobbies e a maior parte de seu tempo é consumida pelo trabalho (“sou um trabalhador”, disse ele mais de uma vez).

Herzog tem também certa afinidade com caos e catástrofes. Ele comeu larvas para treinar o ator Christian Bale, que teve que comê-las para uma cena em “O sobrevivente”. Jogou-se em um canteiro de cactos para animar uma equipe após uma série de desastres no set durante a produção de “Even dwarfs started small”. No inverno de 1974, caminhou quase mil quilômetros de Munique a Paris para visitar uma amiga doente, jornada que ele documentou no livro “Of walking in ice”. Ele tirou Joaquin Phoenix de um acidente de carro em Los Angeles. Dias antes disso, foi baleado com um rifle de ar enquanto dava uma entrevista à BBC (ele julgou o ferimento leve e continuou a entrevista).

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E suas produções cinematográficas foram marcadas por acidentes bizarros. Ao fazer “Fitzcarraldo” na selva peruana, Herzog insistiu em transportar um navio a vapor de 320 toneladas montanha acima, causando vários ferimentos entre a tripulação. A produção resistiu a outros contratempos, incluindo dois acidentes de avião, um incêndio no set e um membro da equipe que, após sofrer uma picada de cobra venenosa, teve que amputar o próprio pé com uma motosserra. O próprio Herzog contraiu malária e parasitas.

Suas excentricidades estão tão entrelaçadas com seu trabalho e personalidade pública que, às vezes, Herzog pode parecer uma caricatura de si mesmo. Mas alguns que o conhecem ou estudaram seu trabalho descartam essa imagem como uma distorção.

— A ideia de Werner Herzog como um louco é uma ideia muito clichê e terrível — defende Paul Holdengräber, diretor da Fundação Onassis, um centro cultural de Los Angeles, que entrevistou Herzog e estuda seu trabalho. — Ele é imaginativo, sim. Esteve perto da loucura, mas não poderia estar mais em contato com o mundo, verdadeira e profundamente.

Virada surpreendente

O primeiro romance do diretor, “O crepúsculo do mundo”, mistura elementos de memórias, História e ficção para contar a saga de Hiroo Onoda, oficial de inteligência japonês que em 1974 emergiu da selva em uma ilha nas Filipinas, vestindo um uniforme militar esfarrapado e carregando um rifle. Ele estava escondido desde 1944, recusando-se a acreditar que a Segunda Guerra Mundial havia terminado. Quando voltou ao Japão, tornou-se uma celebridade, inspirando longas-metragens, documentários e sua autobiografia. Onoda, aliás, chegou a morar no Brasil, ainda nos anos 1970.

Herzog conheceu o japonês em 1997 e pensou em fazer um filme sobre ele, que morreu em 2014, aos 91 anos. Mas sentiu que o filme era o meio errado para a história. Daí o romance.

“O crepúsculo do mundo” é uma virada surpreendente no fim da carreira para Herzog, que é conhecido por clássicos da arte como “Fitzcarraldo” e “Aguirre, a ira de Deus” e documentários existenciais como “O homem-urso”, “Caverna dos sonhos esquecidos” e “Into the Inferno”.

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Mas Herzog pensa em si mesmo principalmente como escritor, e há tempos sustenta que seu legado está na sua escrita — poesia e diários que manteve ao longo de sua carreira —, e não em seus filmes.

—É estranho, mas posso explicar facilmente assim: meus filmes são minha viagem e minha escrita é minha casa.

Como faz com seus documentários, que frequentemente narra, Herzog se insere na história de Onoda como guia. O romance começa com seu relato de encontro com o japonês, depois volta no tempo para a ilha, onde foi mantido em cativeiro por sua própria ilusão. Mesmo quando Herzog dá voz a um narrador onisciente, a prosa é inconfundivelmente... herzoguiana.

—Ele é apenas uma das grandes vozes inimitáveis — disse William Heyward, que adquiriu o romance e o livro de memórias de Herzog para a Penguin Press.

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