Entenda por que a página sobre Abraham Weintraub está 'bloqueada' na Wikipedia

O ministro da Educação ameaçou judicialmente os editores da Wikipédia (Foto: Evaristo SA/AFP/Getty Images)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Artigo é alvo de uma guerra de versões desde que foi criado

  • Usuários brigam sobre o uso dos termos “corte” e “contingenciamento”

Diferentemente da maioria das páginas na Wikipédia, o verbete sobre o ministro da Educação, Abraham Weintraub, não pode ser editado por qualquer um. Usuários anônimos não podem alterar o texto, nem contas criadas há menos de quatro dias e que não tenham realizado pelo menos dez edições.

O “bloqueio” foi uma ferramenta que os editores usaram para lidar com a guerra de versões que envolve o artigo desde a sua criação em 8 de abril, dia em que Weintraub foi nomeado para o cargo de ministro.

Em junho, o próprio MEC entrou em contato com os editores do site para solicitar a exclusão da página. Em um fórum de discussão, um deles relata ter recebido uma mensagem da assessoria do ministro em seu e-mail pessoal.

Leia também

No dia seguinte à criação do verbete, um usuário anônimo adicionou uma passagem que dizia que ele "declarou que os comunistas são o topo do país". Em um intervalo de 24h, o trecho foi deletado, apareceu novamente no intertítulo “Visão sobre comunistas” e foi mais uma vez apagado.

Um dos maiores embates na página é sobre os termos “corte” e “contingenciamento”, usados para descrever o bloqueio de verbas imposto pelo ministro no orçamento das universidades e institutos federais.

Entre abril e meados de maio, as duas palavras foram retiradas e acrescentadas ao texto inúmeras vezes, assim como as porcentagens 30% e 3%. Foi também nesse período que um usuário incluiu o verbete de Weintraub na categoria "Extrema-direita no Brasil". Depois, outro usuário deletou o trecho.

Depois de entrar em contato com os administradores da Wikipédia pela primeira vez em junho, o MEC voltou a exigir que o verbete seja excluído – para isso, fizeram até ameaças judiciais. Em um e-mail enviado no dia 13 de agosto, Weintraub reclama do trecho que fala do bloqueio de orçamento, e também de informações sobre a sua vida pessoal. No entanto, o ministro não explica a quais informações se refere.

No fórum de discussão sobre o verbete, os editores mencionam censura pelo menos oito vezes, de acordo com levantamento do UOL:

"Vejo esta como uma tentativa de censura e falta de compreensão por parte da equipe do ministério sobre o que é a Wikipédia, suas dinâmicas e objetivos", opina o editor Rodrigo Padula.

Eles também citam a decisão de 2015 do STF que libera a publicação de biografias não autorizadas, alegando que o verbete se encaixa nessa categoria. Eles temem que as polêmicas afetem a credibilidade da plataforma:

"Quando uma matéria publicada em mídia de grande circulação afirma que a Wikipédia está publicando informações dúbias, é isso que precisa ser esclarecido, mostrando como são as nossas políticas editoriais", diz PauloMSimoes.

Em conjunto, os editores elaboraram uma nota explicando que os artigos da Wikipédia só reproduzem o que é publicado por fontes "reputadas e notórias", e destacam que o site não é uma rede social "em que os biografados decidem sobre a permanência ou não de seus artigos".

Atualmente, o verbete sobre o ministro da Educação usa a palavra “corte” para se referir ao bloqueio de verbas. Também lembra que Weintraub cometeu erros ortográficos ao usar as palavras "paralização" e "suspenção", e que ele trocou o nome do escritor “Franz Kafka” por “Kafta”. Além disso, diz que ele, sua mulher e seu irmão são professores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e por isso são acusados de nepotismo.