Wired Festival Brasil: mesas mostram como os criativos da periferia usam a inovação para diminuir desigualdades e criar novas e poderosas narrativas

RIO. Nas comunidades periféricas do Brasil, a expressão popular “a necessidade é a mãe da invenção” é uma lei não escrita. Onde há escassez de recursos e pouca presença do estado, as pessoas encontram saídas criativas — e, sim, tecnológicas — para melhorar as próprias vidas e de seu entorno. Mas como estas comunidades têm se inserido na produção de alta tecnologia no Brasil? Nesta quinta-feira, na abertura da edição 2022 do Wired Festival Brasil, no Planetário da Gávea, duas mesas mostrarão o que criativos de periferia têm feito para diminuir desigualdades por meio da inovação e da tecnologia.

Às 15h50, a artista visual Andressa Núbia, a jornalista e roteirista Thamyra Thâmara, João Inada, diretor executivo do Festival Imersivo das Favelas (FIF), e o gestor, produtor cultural e ativista dos direitos humanos Raull Santiago mostram “Histórias imersivas da periferia para o mundo”. Às 17h10, Gean Guilherme, fundador do SocialCryptoArt, o skatista, ativista e empreendedor social Ademar Luquinhas, do Morro Santo Amaro, o artista digital Juan Calvet, do interior de Cabo Frio, e a fotógrafa Salem, criadora da Fotogracria, na Rocinha, falam sobre “Favela e futuro”.

Este ano, o Wired acontece de hoje até domingo, presencialmente e on-line no primeiro dia, e exclusivamente no metaverso nos restantes, com o tema “Embarque imediato no metaverso” e mesas, aulas e experiências sobre tecnologias imersivas, web 3.0, blockchain e NFT, assuntos nem sempre de acesso fácil para a maioria da população.

— A tecnologia não é neutra, e seu acesso, até hoje, é elitizado. Não há tecnologia neutra porque por trás de toda invenção existem pessoas. E muitas vezes algoritmos são criados para reforçar opressões — diz Thamyra Thâmara, criadora da GatoMídia, rede e metodologia de aprendizado em mídia e tecnologia para jovens negras e negros e moradores de favelas e periferias. — A maioria das produções high-tech é feita por brancos.

Thamyra sabe que, para pessoas negras e periféricas — dos centros urbanos, mas também as populações tradicionais, os quilombos e aldeias indígenas —, o acesso à produção de alta tecnologia representa a chance de criar novas e poderosas narrativas. Sem isso, ela não teria seu curta “Descolonize o olhar” exibido na Assembleia Geral da ONU em 2019.

— A gente está falando da produção de sentidos e narrativas, de desconstrução de estereótipos e produção de imaginário. Quando falamos de realidade virtual, metaverso, isso tem um poder muito grande de criar empatia ou mais distância social.

A educação é, como sempre, a chave de tudo. Thamyra cita iniciativa recente da plataforma PretaLab, que acaba de lançar curso de tecnologia voltado para mulheres negras em parceria com a Disney. Participante de outra mesa que refletirá o uso da tecnologia para a diminuição das desigualdades (“Cultura e futuro”, às 13h40) no Planetário nesta quinta-feira, a cientista da computação Nina da Hora defende ainda a ocupação de espaços possíveis para a população periférica: — Precisamos estar nas tomadas de decisões e distribuições das tecnologias e infraestruturas. As formações tecnológicas para pessoas pretas, periféricas, LGBTs, pessoas com deficiência são só uma parte das soluções. Planejamento e acesso precisam de políticas públicas voltadas para estes problemas. O Wired Festival Brasil é uma realização Edições Globo Condé Nast e O GLOBO, com apresentação da Invest.Rio | Prefeitura RJ, patrocínio do Meta, da BMW e do Mercado Bitcoin, apoio de Johnnie Walker e Listerine e curadoria e experiências pela BRIFW. As inscrições podem ser feitas em https://bit.ly/3A865lQ.

Os destaques do primeiro dia da programação do evento:

12h15 — Esporte e tecnologia —Como os fan tokens (NFTs ligadas a atletas, times e ligas esportivas) aproximaram torcedores dos ídolos e das grandes decisões dos esportes e deram uma nova dimensão ao lastro cultural de diversas modalidades, da arte ao lifestyle esportivo. Com Uno de Oliveira, Newton Fleury Filho e Rodrigo Clemente.

13h40 — Cultura e futuro — Entre realidade e ficção, percorrendo transformações estéticas, narrativas e científicas, este painel de mulheres negras imagina nosso futuro a partir da ótica do afrofuturismo. Com Nina da Hora, Lu Ain-Zaila e Carol Anchieta.

15h50 — Histórias imersivas da periferia para o mundo — Realidade virtual, drones e câmeras 360° ajudam criativos periféricos a contar suas próprias histórias. Com Andressa Núbia, Thamyra Thâmara, João Inada e Raull Santiago.

17h10 — Favela e futuro — Artistas e produtores culturais exploram os NFTs para financiar ações sociais no Rio de Janeiro. Com expoentes de movimentos culturais, sociais e tecnológicos que fazem o digital ganhar impacto real: Gean Guilherme, Ademar Luquinhas, Juan Calvet e Salem.

Um só planeta — Painéis mostram como tecnologia e novas práticas podem transformar três questões ambientais cruciais: o futuro da energia (9h10), lixo eletrônico (9h45), gestão da água (10h20).

Festival on-line — A programação do Wired se estende para mundos imersivos em parceria com a Brazil Immersive Fashion Week (BRIFW). Atrações em cenários virtuais poderão ser acessados pelos metaversos Nowhere e Spatial via desktop, celular e óculos VR. Nowhere: urnowhere.com/brifw. Spatial: https://bit.ly/3V3Z6m8.